O valioso trabalho do Projeto Conte Comigo que oferece apoio aos cuidadores familiares

Abraçar a vida após a morte da mãe: essa foi a escolha de Berna Almeida, criadora do Instituto Berna Almeida e do  Projeto Conte Comigo que reúne cuidadores informais que atuam de forma solidária e voluntária.

Ana Claudia Vargas

Para fugir da depressão que ameaçava envolvê-la, Berna, que tem 59 anos e mora em Brasília, nos conta que decidiu criar o projeto e sua intenção era uma só: ajudar outras pessoas que assim como ela _ que cuidou da mãe que faleceu devido ao Alzheimer _ , se dividiam entre as tarefas domésticas e os cuidados com parentes adoentados. “Desde que lido com cuidadores informais tenho visto a luta deles em cuidar do ente querido e ainda há a sobrecarga emocional advinda desta demanda. Infelizmente muitas famílias os deixam a deriva, sem nenhuma perspectiva de sobrevivência porque muitos desaparecem ou, se aparecem, é para cobranças indevidas num espaço que eles mesmos nem ao menos visitam”.

 

Segundo Berna, os cuidadores informais são  parentes que tomam para si a tarefa de cuidar de um parente que sofre de demências como o Alzheimer. Essas pessoas que costumam ser filhos, irmãos, noras, genros (etc.) dos doentes, vivem sobrecarregadas e geralmente não têm sequer  tempo para cuidar de si mesmas.

Além da sobrecarga física, a rotina diária é emocionalmente desgastante pois muitos doentes não os reconhecem, podem se tornar agressivos e irritantes e, junte-se a isso o desgaste de não poderem contar  sequer com a ajuda dos outros parentes. E o pior: em alguns casos, eles também sofrem acusações e recebem ‘conselhos’ de quem não se dispõe a ajudar. “O Alzheimer se encarrega de tudo, principalmente de deixá-los a mercê do esquecimento familiar”, ressalta Berna.

Berna Almeida/Imagem: arquivo pessoal.

Nesse ponto,  Berna cita o caso de Heloísa* que largou o emprego há oito anos porque não tinha quem cuidasse de sua mãe, dona Flora*. “Hoje ela está brigada com os irmãos, os quais moravam a 20 minutos da casa da mãe e não iam lá nem para pedir a benção. Eles não aceitavam que ela morasse na casa da mãe e queriam a casa dela e a pensão. Isso ocorria há anos e  Heloísa saiu da casa e  atualmente mora em um quarto e sala com a mãe mas está impossibilitada de viver e dar a ela qualidade de vida pois não há quem reveze com ela”.

Pois foi devido a todas essas razões, sentidas na própria pele, que Berna decidiu criar o  Conte Comigo. O projeto capacita pessoas para que estas possam intercalar com  cuidadores familiares como Heloísa e, assim, tendo alguém que possa substituí-los,  estes podem, por sua vez,  continuar cuidando  de suas próprias vidas e fazendo ‘coisas’ prosaicas (e necessárias) como  ir ao médico ou dentista, fazer algum curso ou simplesmente, descansar, ir ao cinema e até dormir ou  conversar com amigos; podem continuar vivendo suas vidas, enfim. Como o nome já diz de forma direta e exata, o objetivo do “Conte Comigo” é oferecer  a quem cuida, um apoio, um suporte na árdua tarefa de cuidador familiar.

 

“O Alzheimer se encarrega de tudo, principalmente de deixá-los a mercê do esquecimento familiar” (Berna Almeida)

Para participar do Projeto Conte Comigo é preciso fazer um cadastro  que é realizado com a própria  Berna através do celular (whats app) (61) 98678-8678 e algo importante: é preciso apresentar antecedentes criminais.

Berna destaca ainda que este trabalho é “totalmente gratuito”, ou seja, não oferece nenhum tipo de vínculo empregatício.

Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Belo Horizonte, são algumas cidades nas quais já existem cuidadores do projeto Conte Comigo em atuação.

 

Relato de uma cuidadora

Camila Pereira, 28 anos, moradora de São Paulo, trabalha como cuidadora voluntária no Projeto Conte Comigo. No relato abaixo, ela nos conta a razão de sua escolha e também deixa um recado para quem quer trabalhar como cuidador :

Optei pelo voluntariado, pois passei por uma situação familiar, vi a dificuldade que é cuidar e, depois da vivência em meu próprio lar, quis ajudar outras pessoas a enfrentar a situação de ver seu ente querido pedindo ajuda silenciosa, pois o idoso em si, nem sempre percebe que está doente… Percebendo o acúmulo de trabalho do cuidador “familiar” que por sua vez, tende a entrar em colapso emocional ou até mesmo numa depressão (pensei) nada como ser um apoio amigo de alguém numa fase tão complicada, na qual até mesmo o cuidador esquece de cuidar de si para se dedicar ao paciente ou parente. Então decidi ajudar e me dedicar a pessoas que não podem pagar para ter um cuidador e ser um apoio, uma amiga com a qual ele pode deixar seu parente em segurança enquanto ganha um instante para descanso ou para resolver suas questões pessoais.   A palavra de honra é responsabilidade, paciência e vontade de cuidar, pois não existe nada mais importante do que zelar pela vida de alguém, é gratificante cada sorriso que se recebe, (quando se) vê a evolução do paciente, a satisfação pelo cuidado e a palavra ‘obrigada’, isso vale muito. Enfim, fazer o bem é receber sorrisos e abraços silenciosos de Deus. Nossa vida flui de forma mais leve quando fazemos o bem sem ver a quem!”

 

Camila Pereira e Vó Teresa. foto _ arquivo pessoal.

 

Para saber mais sobre o  trabalho realizado pelo Instituto  Berna Almeida, visite:

https://www.institutobernalmeida.com.br/

https://www.facebook.com/institutobernalmeida/

https://www.facebook.com/groups/umsujeitochamadoalzheimer/

https://www.facebook.com/Sementes-Solid%C3%A1rias-280065042918539/

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