Marias do Brasil: depois de aprender a ler aos 70 anos e tornar-se poetisa, agricultora quer diploma de Letras

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Maria Moreira de Andrade,  que se auto intitula "a sonhadora", foi responsável em menos de dois anos pela escrita de mais de 200 poesias, a maioria usando como gancho sua rica história de vida. Ela quer lançar todas em um livro
 
Redação Plena
 
Ela foi destaque de capa no jornal Hora de Santa Catarina. E não é para menos. A história de Maria Moreira de Andrade  pode ser o roteiro da vida de tantas outras Marias espalhadas pelos quatro cantos do Brasil. Depois de aprender a ler aos 70 anos, a agricultora, que trabalhou por três décadas em Rondônia, tornou-se poetisa.  
 
Maria passou quase toda a sua vida apreciando as palavras, mas sem saber como pô-las no papel. Quem lia em sua casa era o marido, José, que pouco antes de falecer, há cinco anos, fez um pedido para a esposa: "Você tem muito conhecimento. Quero que coloque tudo no papel. Quero que você ganhe o mundo".
 
Para realizar a última vontade de seu companheiro de toda a vida e, claro, realizar um sonho há muito tempo desejado, Maria estabeleceu como meta aprender a ler e escrever. Hoje, aos 73 anos, ela simplesmente brinca com as palavras como se as dominasse desde sempre. Maria, que se auto intitula "a sonhadora", foi responsável em menos de dois anos pela escrita de mais de 200 poesias, a maioria usando como gancho sua rica história de vida. Ela quer lançar todas em um livro.
 
Mas os planos da “sonhadora” não param por aí, ela quer ir além. O objetivo agora é se formar em Letras, pela Universidade Federal de Santa Catarina.
 
A alfabetização 
 
Segundo o relato do jornal a Hora de Santa Catarina, o primeiro passo de Maria foi inscrever-se na Escola dos Jovens Adultos (EJA), no Centro. Mas, dividir espaço com adolescentes começou a dispersá-la, o que quase a fez desistir de tudo. Até que descobriu o Núcleo de Estudos da Terceira Idade (NETI) da UFSC. O NETI oferece o mesmo curso, porém para pessoas acima dos 50 anos. Seu método conta com um processo de aprendizado especializado. Maria foi adiante e conquistou o certificado do ensino médio, agora planeja encarar o fundamental para poder tentar o vestibular. 
 
Marias do Brasil 
 
Maria quis estudar, mas casou-se cedo demais e precisou seguir o marido. Saíram de Criciúma, sua terra natal e foram para Roraima, no norte do país. Chegaram em uma terra de ninguém, com mato alto e com animais soltos em seu habitat natural, nos anos 70. 
 
— Quando a gente chegou lá não tinha nada. Construímos uma tenda de ripas e teto de folha de babaçu. Não tinha móveis, mas criamos alguns com varinha, varinha das árvores mesmo, e um fogão de barro. Eu levava meus filhos para escola de facão na cintura com medo da onça. Eu amava tudo aquilo — lembra a agricultora em entrevista ao jornal.
 
Mente e corpo ativos
 
Para garantir sua lucidez, Maria tem a atividades agendadas durante toda a semana. Nas segundas, ela participa de um coral, nas terças, quintas e sextas, continua no curso de ensino fundamental, enquanto não abrem vagas para o ensino médio. Nas quartas-feiras, Maria exercita a memória, com uma terapeuta. Todos oferecidos no Neti. Nos fins de semana, Maria não larga suas folhas de papel e o lápis. Em uma bolsinha especial, ela os leva para a sua caminhada. A senhora anda do Córrego Grande, onde mora, até o trapiche da Beira-Mar, cerca de 13 quilômetros, ida e volta. Lá, ela senta em um banquinho e inspira-se com o mar para escrever suas poesias. 
 
— Pois senão não atrofia tudo. Corpo e mente. 
 
O curso 
 
Para quem sempre quis estudar, mas, por medo ou vergonha, deixou o tempo passar, o NETI é a opção perfeita. Além da alfabetização, o núcleo oferece outros cursos, como informática e línguas, além de atividades diárias e grupos de encontro. As inscrições são gratuitas e são abertas sempre no início do semestre, juntamente com a grade das aulas da UFSC. 
 
Para mais informações: (48) 3271-9445 ou (48) 3721-9909. 
 
Atividades do NETI abertas ao público idoso 
 
Cursos 
– Especialização em Gerontologia
– Formação de Monitores da Ação Gerontologia 
– Cinedebate em Gerontologia
– Contadores de Histórias
– Avós na Universidade 
– Leitura e Escrita para Pessoas Idosas e Adultas 
– Cursos de Línguas (Inglês, Espanhol, Francês, Italiano, Alemão e Esperanto) 
– Oficina de Auto Conhecimento
– Oficina de Informática 
– Previdência e Cidadania
 
Crédito Foto: Betina Humeres / Agencia RBS
 

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