É preciso educar o Brasil para o envelhecimento populacional: veja entrevista com a médica Maisa Kairalla…

…na qual ela fala  sobre a importância da prevenção e da educação sobre a velhice, para que esta fase da vida  seja encarada de forma saudável e natural.

Ana Claudia Vargas

No Brasil a possibilidade de viver mais, fato que nos coloca como país que terá 30% a mais de idosos em 30 anos, e que deveria ser encarado como um ponto positivo se transformou, isto sim, em motivo de preocupação.

Na atual conjuntura político-econômica que, por enquanto, não apresenta um cenário promissor, as pessoas, em geral, não veem com alegria a possibilidade de terem mais tempo para curtirem suas famílias, de verem os netos crescendo ou de irem atrás daqueles sonhos que não puderam realizar quando mais jovens. Essa preocupação é plenamente justificável, pois a falta de apoio governamental a políticas públicas que beneficiem os idosos faz com que enxerguemos o aumento da população idosa como somente ‘mais um’ problema.

No entanto, pensando em buscar melhorias de vida para a população idosa e em conscientizar os jovens sobre medidas que podem tomar hoje, para que tenham um envelhecimento saudável, médicos e pesquisadores em todo o mundo vem trabalhando para encontrar uma maneira de se conquistar a longevidade com qualidade. “Conseguir chegar à longevidade é um prêmio. Triste que no Brasil isso tem sido encarado como um peso”, comenta a Drª Maisa Kairalla, coordenadora do Ambulatório de Transição de Cuidados do Serviço de Geriatria e Gerontologia da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo, SBGG.

De acordo com Maisa, o envelhecimento e a longevidade são processos que devem ser compreendidos como grandes avanços relativos à evolução dos tempos, porém, a falta de preparo para este momento tem criado um sentimento negativo. “É preciso que haja maior educação e conhecimento sobre o envelhecimento no Brasil. Precisamos envelhecer com saúde e qualidade de vida para que sejamos produtivos e independentes”, complementa.

A educação para um envelhecimento saudável está, primeiramente,  relacionada à iniciativa de mostrar aos jovens que eles não serão jovens para sempre. Assim, é preciso lembrar a eles a importância de levar uma vida saudável na qual prevaleça uma alimentação saudável e haja uma rotina de atividades físicas. Esses processos relativamente simples podem ter um grande impacto no processo de envelhecimento de cada pessoa.

Mas também é preciso ter atenção com a população que já atingiu a senioridade. Promover maior controle de um plano nutricional e ajustes de medicamentos podem reduzir as reinternações destes pacientes em hospitais, reduzindo custos e também a exposição a agentes infecciosos. As doenças que mais ocasionam internações são pneumonia, insuficiência cardíaca e infarto agudo do miocárdio.

Atualmente a medicina conta também com programas de vacinação contra pneumonia e herpes zoster em idosos, práticas que também podem diminuir as internações e melhoram a qualidade de vida da população idosa. “O médico geriatra tem uma visão muito importante sobre todo o processo de envelhecimento, entendendo todas as preocupações do paciente referentes ao envelhecimento e doenças relacionadas, mas há outros profissionais envolvidos nesse trabalho de prevenção e educação como fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos. Nosso trabalho está focado em buscar ganhos funcionais e qualidade de vida aos pacientes”, destaca Maisa.

 Drª Maisa Kairalla nos concedeu a entrevista abaixo na qual aprofunda questões relacionadas ao envelhecimento saudável e destaca a necessidade de que a velhice deve ser assunto tratado nas escolas logo nos primeiros anos de aprendizado.

Drª Maisa, a senhora  acredita que o tema ‘envelhecimento’ tem sido discutido da forma que deveria em nosso país?

 Não acredito, estamos aquém do que deveríamos falar e aprender. O tema tem um impacto social e econômico decisivo para o país.

Se sim, há algum projeto que queira ressaltar ? Se não, o que poderia ser feito para começarmos já essa discussão?

Há políticas públicas bem desenhadas que devem ser implementadas. Precisamos discutir, ensinar sobre o envelhecimento desde a escola infantil. Educar para envelhecer.

A longevidade deveria ser algo a se comemorar em nosso país, mas com tantos problemas este acaba sendo mais um. A senhora não acha que o envelhecimento populacional crescente no Brasil criará um quadro de ‘caos social’ que já dá sinais de que está começando  ? 

Sim se nada for feito, ou ocorrer uma implementação forte.

Quer envelhecer como a senhora da foto, jogando xadrez? Então comece a se cuidar agora!

“Conseguir chegar à longevidade é um prêmio. Triste que no Brasil isso tem sido encarado como um peso”

Como a senhora vê o envelhecimento brasileiro contextualizado em um país que não consegue resolver problemas básicos de educação e saúde?

Vejo como um problema sócio econômico de grande impacto.

De maneira geral, a velhice é vista como uma época de desencanto e inatividade, poucos conseguem vivê-la de forma ativa e saudável. Na sua opinião o que poderia ser feito para mudarmos essa ideia de que ser velho é estar ‘acabado’ para a vida?

(Praticar) atividade física, (manter uma) alimentação saudável, pensar na saúde. Mudando a cultura. Dando educação para o envelhecimento saudável.

A partir de que idade seria importante começarmos a pensar em uma velhice saudável?

Desde a infância e, principalmente, após os 30 anos.

Para a Drª Maisa (foto) depois dos 30 anos já devemos pensar em como queremos envelhecer… / Foto Divulgação

A ‘educação para um envelhecimento saudável está primeiramente ligada em mostrar aos jovens que não serão jovens para sempre’: como a senhora  acha que podemos mostrar aos jovens esta realidade, de forma natural e simples?

Basta entender que a tecnologia e a ciência trouxeram muita longevidade e que vivemos um momento em que a vida é prolongada pela tecnologia. Precisamos nos preparar.

“É preciso que haja maior educação e conhecimento sobre o envelhecimento no Brasil. Precisamos envelhecer com saúde e qualidade de vida para que sejamos produtivos e independentes”

Sobre a necessidade de ter atenção com a população que já atingiu a senioridade, o que poderia ser feito para melhorar a qualidade de vida desta faixa etária?

Promover a prevenção, como o controle da dislipidemia (aumento dos níveis de gordura no sangue) e do diabetes e adotar práticas como a vacinação.

A senhora disse que “o médico geriatra tem uma visão muito importante sobre todo o processo de envelhecimento, entendendo todas as preocupações do paciente referentes ao envelhecimento e doenças relacionadas, mas há outros profissionais envolvidos nesse trabalho de prevenção e educação como fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos. Nosso trabalho está focado em buscar ganhos funcionais e qualidade de vida aos pacientes”; diante disso, pergunto: a geriatria é uma área da medicina que atrai estudantes ou no Brasil somos carentes de geriatras?

  Ainda somos carentes. Com o grande aumento da população idosa, não conseguimos suprir o mercado e não há uma grande procura por esta especialidade.

Por fim, fica aqui o recado da Drª Maisa: “ Educar para envelhecer, envelhecer com a prevenção, traduzirá a sustentabilidade deste processo e trará uma longevidade viável”.

Fonte  Assessoria de Imprensa – Arebo

 

One comment

  1. O caos já está instalado.
    O que não se reconhece em ampla escala é que TODAS as instituições públicas desprezam as pessoas de mias idade. A partir do momento em que a Constituição despachou para o âmbito das famílias os deveres maiores para com os idosos, lavou as mãos de se responsabilizarem por oferecer condições para que os idosos envelheçam. E envelheçam bem. As famílias são culpabilizadas, enquanto o escárnio das instituições assistem de carteirinha os mais velhos morrerem sem atendimento nos hospitais públicos.
    Envelhecem bem os diosos ricos e saudáveis, que têm planos de saúde e hospitalar que cobram preços exorbitantes. Quem precisa de idosos? Aqueles que se pre
    valarem de seus créditos consignados. A nossa sociedade é gerontofóbica e gerontossádica.

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