Elza Soares: a mulher de todos os tempos

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Elza Soares é a mulher que a tudo sobreviveu. Elza Soares é um monumento brasileiro. Assina em A Mulher do Fim do Mundo um álbum de luta e de vida, o primeiro de originais aos 78 anos.

Matéria publicada originalmente por Mário Lopes no Público Uol

 

 No início dos anos 1980, uma velha amiga bateu à porta de Caetano Veloso. Disse-lhe que ia deixar de cantar. Tinha um filho doente em casa e ia trocar os concertos, cada vez mais escassos e mal pagos, por um trabalho que lhe desse alguma estabilidade. Na verdade, fora ao encontro do velho amigo para que ele lhe dissesse que não podia ser. E Caetano disse. “Era como se o lugar dela estivesse desaparecendo do cenário brasileiro. Mas o Brasil não podia fazer isso com ela. O Brasil não podia fazer isso consigo mesmo”. Não podia. E não fez.

Pouco depois, em 1984, Caetano convida-a para fazer dueto em Língua, canção incluída no álbum Velô. Canção de amor à língua, canção a perspectivar-lhe um futuro na música brasileira (“samba-rap”, ouvimos por ali), música em que se diz: “nós canto-falamos como quem inveja negros / que sofrem horrores no gueto do Harlem / livros, discos, vídeos à mancheia / e deixem que digam, que pensem, que falem”. A canção não podia ser mais apropriada para Elza Soares, rainha sambista que sempre procurou mais longe, filha da favela autodefinida como “mulher forte e feminista” – “é a única forma de sair disso”, como diz em entrevista por telefone ao Ípsilon.

Elza Soares renasceu nos 1980 pela mão de Caetano Veloso. Renasceria novamente uma década depois, olhando em frente, buscando novos sons, novos cruzamentos, num álbum admirável, Do Cóccix até ao Pescoço (2002), que era funk e hip hop e cobertura electrónica com o coração no samba e um pé no jazz. Mulher irrequieta, tão desejosa de vida como maltratada por ela, mulher exemplo e cantora excepcional, tudo superou. Entrou no século XXI decidida a abraçá-lo como se estivesse a começar naquele preciso momento, decidida a mudar, como sempre, sendo nada mais que ela mesma.

Ainda assim, não estávamos preparados para isto que é A Mulher do Fim do Mundo. Editado o ano passado no Brasil, coberto de prémios e elogios da crítica e abraçado pelo público, tem agora lançamento mundial. É, literalmente, o álbum de uma vida. Marca o encontro entre uma veterana então com 78 anos e um grupo de músicos, quatro décadas mais novos, que, tal como ela, gostam de experimentar novas soluções – chamam “samba sujo” ao que faz esse núcleo de paulistas que vêm trabalhando e transformando a canção brasileira.

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