Terceira idade com autonomia e sem solidão

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Morar sozinho, com um cuidador ou na casa dos filhos? Por que achamos que temos o direito de decidir o que é melhor para os mais velhos da família?

Texto publicado originalmente em 11/04/2016 no site Conexão Planeta por Giuliana Capello 

 

Se você ainda não entrou para o time dos idosos, imagine por um instante que você está, sim, vivendo a fase mais madura da vida e que, de repente, sua família resolveu que o melhor para você é ir morar com o filho mais velho, por exemplo – ou pior, que você precisará ficar em uma casa de repouso. Só que o apartamento lá é pequeno, você ocupará apenas um quarto e terá que se desfazer de quase tudo para ‘caber’ na nova morada. Capriche na empatia e me responda: como se sentiria?

Como se sentiria tendo que deixar para trás objetos e móveis com memórias afetivas, as plantinhas que regava dia sim dia não, o bule de chá herdado da avó, a paisagem da janela, os cheiros da casa, talvez até o gatinho e, sobretudo, a privacidade e a liberdade de se expressar sem censuras ou ‘acordos’ estabelecidos pelo dono da casa?

Poucos falam dessas violências que não são nem um pouco pequenas ou sutis, mas de tão comuns passam por inevitáveis, banais, completamente normais. Mas o fato é que nossa relação com os mais velhos vai precisar mudar. Até porque a população brasileira está vivendo cada vez mais e seria um absurdo transformar essa longevidade em tormento para todos. Ao contrário, a convivência entre gerações pode se tornar proveitosa, agradável, surpreendente.

Segundo o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer é de 75,2 anos, em média. E muita gente vive muito mais do que isso, o que é bom! Só é preciso viver bem, sem dramas familiares, sem perdas desnecessárias de autonomia e liberdade.

Minha avó, que provavelmente não vai ler este post, está chegando aos 80 anos, bastante lúcida. Mas tem lá suas dificuldades de locomoção, reclama de tonturas (o que gera medo de quedas), tem perdas de memória e se cansa com facilidade. Para mim, isso tudo está longe de configurar um cenário de imposição de regras para ela, de interdição, de fim do seu livre arbítrio. Por outro lado, ela precisa ser cuidada, precisa de atenção da família e dos amigos, e morar no nono andar de um apartamento em uma cidade relativamente nova na vida dela, longe da maior parte da família e na qual não criou muitos vínculos afetivos pode não ser a melhor escolha do mundo. O que posso fazer é conversar, sugerir, mas sem impor nada.

Questões como essa me fazem refletir sobre como nos tornamos individualistas ao longo das últimas décadas. A ideia de cada um por si, para quem está nessa fase da vida, dá nisso. Frieza. Praticidade em vez deempatia ou compaixão. E o resultado, não raramente, leva o nome de solidão. Solidão no fim da vida é das coisas mais cruéis que existem e está associada ao desenvolvimento de uma série de doenças ainda mais perigosas. Quem não se deprime esquecido num canto por todos ou sendo tratado sempre como um problema?

Uma maneira interessante de equacionar isso é construir uma comunidade, fazer parte de uma comunidade. Nem tudo está perdido. Tem um bocado de gente buscando outras formas de viver, outros arranjos, outras configurações. Há os idosos que curtem a turma da ginástica no parque, das sagradas caminhadas pelo bairro, dos eventos beneficentes, das viagens só para maiores de 60. Eles buscam, no fundo, comunidades. Presenciais. Bem pouco virtuais.

Ter uma comunidade é ter com quem conversar, com quem interagir, com quem contar, é ter a chance detrocar afeto, de compartilhar experiências, histórias, sentimentos, biscoitos, aflições.

Fora do Brasil, existem diversas cohousings para idosos.  São comunidades que se formam a partir do desejo de uma vida mais comunitária, em que o cuidado mútuo gera um grupo mais saudável, mais confiante, maisresiliente, mais feliz. Nelas, cada um tem espaço para sua privacidade, mas compartilha ambientes que promovem as trocas e a convivência, como cozinha com refeitório, biblioteca, sala de estar e de tv, lavanderia, horta, jardim.

Por aqui, a ideia começa a se espalhar e deve pousar em breve em diversas cidades. Há uma comunidade no Facebook sobre o tema, Cohousing Brasil, com mais de 1500 membros, gerenciada pela arquiteta Lilian Lubochinski, que também é a criadora do projeto Segurança do Idoso na Residência (Seguir). Trata-se de uma iniciativa interessante e sensível que tem como objetivo ajudar maiores de 60 anos e familiares a tornar a residência mais segura, reduzindo o risco de acidentes – especialmente as quedas, que respondem por 75% das lesões sofridas nessa faixa etária, segundo levantamento feito pelo SUS.

Por enquanto, o que já é possível listar são empreendimentos imobiliários projetados para os idosos. A Vitacon, construtora paulista, está lançando um residencial na capital, destinado a esse público. Os apartamentos são pequenos, práticos e com alguns diferenciais para tornar o espaço mais seguro: banheiro adaptado para prevenir quedas, portas mais largas para facilitar a circulação, nada de degraus ou pequenos desníveis, tomadas mais altas, botão de emergência conectado à portaria. Além disso, o prédio é muito bem localizado, perto de serviços de saúde, com restaurante no térreo e outras facilidades, como o sistema depay-per-use 24 horas para fisioterapeutas, cuidadores e outros profissionais.

Na Paraíba, o governo do estado foi pioneiro ao lançar o primeiro conjunto residencial para idosos. Já tem em João Pessoa, Campina Grande, Cajazeiras e deve chegar a Guarabira. Cada um tem 40 casas pequenas, com área externa que inclui praças, academia, centro de convivência, horta, redário e unidade de saúde.

Na construtora Tecnisa, de São Paulo, a ideia é não segregar os mais velhos, garantindo ambientes amigáveis para eles em todas as áreas comuns de seus empreendimentos. A ideia começou quando a empresa decidiu ouvir os clientes. Descobriu que muitos vovôs e vovós não conseguiam curtir os netos na brinquedoteca porque não havia poltronas confortáveis no espaço, o piso era escorregadio, havia tapetes e as cores vibrantes usadas na decoração ofuscavam a visão. Tudo isso mudou.

A empresa criou uma equipe multidisciplinar para trabalhar no desenvolvimento de diretrizes para projetos residenciais. Reuniu na mesma mesa profissionais de arquitetura, fisioterapia, medicina gerontológica e assistência social, e criou a cartilha Projetando com Consciência Gerontológica. Com isso, eles têm conseguido ir além do que recomendam as normas técnicas de acessibilidade. Porque arquitetura não é só projetar prédios. Bons projetos são capazes de promover mais encontros, mais convivência, mais trocas humanas.

No fim, não se trata de pensar apenas em infraestrutura, em ambientes adequados, em cidades mais acessíveis. Tudo isso é importante, claro. Precisamos adaptar os espaços para receber e acolher o idoso com conforto e segurança. Mas é necessário ir além, para não tratar a velhice como doença, para não gerar preconceito, para simplesmente respeitar e, quem sabe, para ir além da tolerância e alcançar a gratidão.

P.S.: Para quem quiser saber mais, a edição de abril da revista Arquitetura & Construção traz uma reportagem minha com dicas e informações sobre como adaptar a casa para ter mais segurança na terceira idade.

Fonte: http://conexaoplaneta.com.br/blog/terceira-idade-com-autonomia-sem-solidao/

 

 

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