Beleza & Maturidade: para Antônia envelhecer é chegar ao cume da montanha e divisar novos horizontes…

A mineira Antônia Hamada, nossa segunda entrevistada da série ‘Beleza & Maturidade” nasceu no interior de Minas Gerais, em uma cidadezinha chamada Conceição dos Ouros, na Serra da Mantiqueira, há 77 anos.  ( Sim, embora não pareça, esta é a idade da moça).

Ana Claudia Vargas

Antônia, que também é modelo da agência Fifty Models, é uma jovem senhora, tanto na aparência _ como você pode comprovar _  quanto na maneira de encarar a vida. Ela que já foi professora, empresária da área da moda e consultora imobiliária,  hoje (além de modelo, é claro), se dedica à família. Casada há 52 anos, mãe de duas filhas e avó de cinco netos, ela diz que quer chagar aos 100 anos “linda,  maravilhosa e de cabeça erguida”!

Na entrevista que nos concedeu, Antônia nos conta que o fato de ter morado na Europa ampliou seus horizontes e a levou a querer aprimorar conhecimentos em áreas diversas. Ao voltar para o Brasil, ela começou a escrever poesias como esta que publicamos aqui. A paixão pela literatura, inclusive, já lhe rendeu prêmios em concursos do gênero. O poema abaixo _ Amor Maduro _ é de sua autoria.

Outro fato que Antônia nos conta diz respeito à sua determinação: é que,  depois de ver seu genro participando de uma maratona em Washington, ela decidiu,  aos 67 anos, que iria começar a correr porque ‘adora desafios’ e assim o fez até há alguns anos:  “Corri até dois anos atrás quando fui obrigada a parar devido a uma cirurgia no quadril. Corri várias provas de 10 quilômetros, participei de quatro maratonas de revezamento e hoje faço uma hora e meia de exercícios físicos, diariamente, para manter a saúde em dia”.  E a história de ter se tornado modelo? Tudo começou assim: “Aos 72 anos me fizeram modelo e me descobri bonita”. Curti tremendamente e até hoje continuo modelando. Participei do Projeto 12 Belas, de Curitiba, em sua 1ª Edição São Paulo e, entre quase 5.000 mulheres, me tornei uma das ‘Doze Belas de São Paulo’.

No entanto, apesar de variadas atividades, Antônia diz não se considerar realizada: “Não me considero realizada ainda, mas me realizando porque realizada, a meu ver, é o fim da linha… Sou muito feliz e trago isto no meu rosto mostrando que a maturidade me traz equilíbrio, serenidade e a beleza decorrente da idade, que assumo com muito orgulho!”

Refeita a cada obstáculo que a vida lhe impõe, Antônia diz que os percalços fazem com que ela se refaça. Leia abaixo a entrevista que ela nos concedeu.

“Não sou perfeita. Sou refeita. A cada percalço eu me refaço… A cada amanhecer eu celebro a vida!” 

 Antônia, entre todas as experiências profissionais que você viveu, qual delas foi a mais enriquecedora e por quê?

Todas as experiências profissionais que experimentei  foram enriquecedoras.  De cada uma, à sua época, extraí subsídios que vieram pautar minha vida.

 Você diz ser ‘diplomada’ em todas as áreas nas quais trabalhou: fale um pouco sobre isso, por favor.

Fui bem sucedida em todas as áreas em que atuei e com todas as experiências adquiridas, me diplomei na vida!

Você dá a impressão de ser uma pessoa apaixonada pela vida… faz sentido?

Sou apaixonada pela vida. Sou ‘fênix’:  “Não sou perfeita, sou refeita! A cada percalço eu me refaço…”

 Se sim, de onde vem essa paixão? É de ‘família’? E: você foi sempre assim ou a idade lhe conferiu essa, digamos, qualidade?

Por duas vezes estive no limiar da vida. Minhas filhas são filhas do milagre. Deus me levou dois filhos, me deixou duas filhas. Estas experiências me fizeram revisar valores e  valorizar mais cada segundo vivido. Tenho uma família maravilhosa e só tenho a agradecer a Deus por tudo que passei na vida. Fui e sou uma vencedora. A vida é bela quando a olhamos com os olhos da gratidão! Tive pais maravilhosos que me mostraram isto e tenho um companheiro muito amado que me faz sentir a beleza de estar viva a todo momento. A idade talvez, a cada instante, aprimore esta visão…

Quantos anos você tinha quando percebeu que estava de fato, envelhecendo? E isto a ‘assustou’ ou foi algo natural para você?

Nunca senti estar envelhecendo, minha cabeça é jovem e dinâmica. Às vezes, o corpo teima em doer, mas a cabeça logo ‘recrimina’ e volto a ser uma lépida jovenzinha…

“A vida é bela quando a olhamos com os olhos da gratidão!”

Quais os nomes e idades de suas filhas?

Tenho duas lindas e amadas filhas, mestiças japonesas de incríveis olhos verdes que, como eu, amam a vida: Mitsue, 49 anos, dois filhos; Shisue, 45 anos, três filhas.

Você acha que os europeus lidam de forma mais serena com a velhice do que os brasileiros, tidos como excessivamente vaidosos? Poderia opinar sobre isso?

 Vivi na Europa há muito tempo. Era uma jovenzinha e acabara de me casar. Vivíamos no interior de Minas e acompanhei meu marido, recém-formado, num estágio numa grande empresa alemã. Lá convivi com pessoas idosas, sofridas pela guerra, mas seres humanos maravilhosos. Nesta época, talvez ainda não tivesse discernimento para avaliar a velhice (em um) contexto social, como hoje faço. Voltei outras vezes à Europa, e percebo que os idosos são tratados com muito respeito, por uma questão cultural.  No Brasil ainda precisamos evoluir muito neste sentido.

Por quanto tempo você morou lá e quais conhecimentos adquiriu que considera mais relevantes e transformadores em sua vida?

Morei mais ou menos dois anos na Alemanha. Acho que a base de minha vida está nestes dois anos lá vividos. Experiências pessoais e culturais agregaram muito à minha vida pessoal, cultural e conjugal. Nos anos 60, quando lá vivíamos, não tínhamos as facilidades de comunicação que hoje temos. Ir para outros países era um privilégio para poucos… Só nos comunicávamos com nossos familiares no interior de Minas, por cartas que demoravam a chegar… Isto fez com meu marido e eu nos uníssemos ainda mais, solidificando muito o nosso amor. Completamos, este ano, 52 anos de casados. Uma vida plena de respeito e felicidade.

 Descreva sua experiência como escritora e ‘fale’ um pouco sobre as poesias que escreve e os prêmios que recebeu.

Meus pais me ensinaram a gostar da leitura desde tenra idade. Minha mãe foi educada por freiras francesas e era professora. Meu pai era autodidata. Como gostava muito de ler comecei cedo a escrever. A poesia foi apenas uma consequência. Minha poesia é simples, fala do cotidiano numa linguagem simples, coloquial, pura sem pretensões, revelando o real. Faço parte da “Real Academia de Letras de Porto Alegre”, onde fui laureada com o “Prêmio Cultura Nacional” por vários anos seguidos em seletivas efetuadas pela Shan Editores de Porto Alegre.

Sobre a poesia: quais são seus autores preferidos e os livros mais marcantes que leu?

Adoro meus poetas: Mário Quintana, Cora Coralina, Adélia Prado, Vinicius de Morais e tantos outros. Quando menina li “O Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley,  que muito me marcou. Hemingway com seus livros “Por Quem os Sinos Dobram” e o “Velho e o Mar” também fizeram parte dos que estiveram sempre presentes na minha vida de adolescente.

Sobre o fato de ter começado a correr aos 67 anos: fale sobre como essa experiência foi importante para você.

Comecei a correr por acaso, vendo em Washington uma corrida kids, da qual meus netos, então com sete e oito anos, participaram. Eu me encantei e voltei ao Brasil disposta a correr. Na minha academia não acreditavam…  Não só comecei a correr como também influenciei muitas pessoas que vieram correr comigo. Participei de várias provas de dez quilômetros  e quatro maratonas de revezamento. Corri dos 67 aos 72 anos. Infelizmente tive que parar devido a uma artroplastia, mas continuo fazendo meus exercícios físicos diariamente. A corrida me fez mais forte, física e emocionalmente, mostrando o quanto podemos, quando queremos.

 Você diz ‘me fizeram modelo’: como foi que isto aconteceu? Você nunca havia participado de eventos relacionados à beleza antes?

Na escola onde estudava inglês me pediram para fazer umas fotos para propaganda institucional para o público da terceira idade, sobre o curso que estava fazendo. A propaganda foi bem aceita e a própria coordenadora do curso me lançou no mercado. No meu último ano escolar representei minha classe num concurso e fui miss… Depois, tinha outros projetos e nunca mais pensei nisto…

 Como foi ter sido escolhida entre 5.000 mulheres, para ser uma das ‘doze belas de São Paulo’? Quando aconteceu este fato?

Ser escolhida entre 5.000 mulheres como uma das “12 Belas de São Paulo” foi uma emoção muito grande, pois este projeto além de seu cunho social muito bonito, buscava a  valorização da mulher na sua essência, independente de curvas e silicones, (trata-se de) mulheres que tinham uma história de vida para contar. O “Projeto 12 Belas”, oriundo de Curitiba, elege como suas representantes, mulheres de 30 a 70 anos (e mais) com histórias inspiradoras. Este projeto, idealizado pela empresária Maribel de Souza, foi criado em 2011. De caráter beneficente, prevê ao longo do ano, a participação das vencedoras em causas sociais. As primeiras edições foram em Curitiba e, com o seu sucesso, tornou-se itinerante e teve em São Paulo a sua primeira edição em 2013, da qual participei indicada por um jornalista amigo meu. Foi uma experiência gratificante poder mostrar às mulheres como nós que com nossas experiências e vivências ainda podemos ser belas, produtivas e ativas.

 Antônia para você envelhecer é … chegar ao cume da montanha, olhar o horizonte e sentir-se plena para continuar.

Quais são os planos e projetos que você ainda deseja realizar?

Pretendo realizar projetos sociais junto a jovens e idosos, no interior, para onde vou me mudar, e escrever o “livro da minha vida”, promessa feita a meus netos.

 

Amor maduro

 (ao meu marido, companheiro, parceiro e amor de toda uma vida )

Nesta simbiose louca 

Não sei onde tu acabas

Onde eu começo…
Onde tu começas,

Onde eu acabo …

Em nossos braços
Em loucos abraços
Nosso tempo
Num instante recua
E eu me torno
Inteiramente tua …

Nossos cabelos nevados ,
Ocultando nossos pecados,
Trazem de volta nosso passado…

Mas, de novo, me situo
Quero nosso hoje,
Nosso agora,
Quando com loucura
Eu te possuo.

Quero este amor de hoje,
Forte, forjado, seguro, maduro.

Quero nossas rugas,
Nosso cansaço,
Nossas limitações,
Nossas certezas e incertezas…

Não quero saber

Onde tu acabas ,
Onde eu começo…. 

Só sei que te quero meu,

Hoje, amanhã, sempre,

Além da vida!

 

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One comment

  1. Amei! Tenho 73 anos, sou atriz e modelo comercial. Os trabalhos ficam
    Muito limitados com a idade, e se você
    está um pouco acima do peso, piora.
    Já fui miss Asa do Brasil, bailarina
    clássica, mas problemas acontecem,
    não deu pra ter corpo de miss até agora. Mas já desfilei muito roupas
    man 46 na televisão. Tenho gravado
    bons comerciais, mas é esporádico.
    Esquecem que a maioria das mulheres
    da terceira idade não tem corpo de miss. Admiro muito a Antônia.

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