João Acaiabe: um artista múltiplo que sabe encantar o público na TV, no teatro, no cinema e…

…contando histórias. Nessa entrevista concedida ao Plena, ele fala de sua trajetória e diz que embora não tenha a mesma agilidade, sua cabeça ‘ferve’ e ele precisa  continuar arquitetando planos e projetos. Confira.

Ana Vargas

O ator João Batista Acaiabe nasceu no interior de São Paulo, em Espírito Santo do Pinhal, em maio de 1944. Com uma carreira bastante diversificada, já atuou no teatro, na TV, no cinema e, ultimamente, revive algo que já fez: pratica a arte de contar histórias.  João já foi contador de histórias no antigo programa Bambalalão ( exibido pela TV Cultura) que fez sucesso nos anos 1980 e se tornou um clássico da década de oitenta. Ele também ficou famoso por sido, durante alguns anos, o Tio Barnabé do Sítio do Pica-pau Amarelo; o Seu Pimpinonne na versão atualizada da telenovela Uma Rosa com Amor e também por ter interpretado o cozinheiro Chico na refilmagem da novela Chiquititas, ambas produções  do SBT.  No cinema ele participou de mais de vinte filmes e é dono de um kikito  de melhor ator que ganhou, em 1986,  por sua participação no curta-metragem O Dia em que Dorival Encarou a Guarda .

1 – Como surgiu seu interesse pela arte da atuação? Houve algum fato (um filme que tenha visto, um personagem marcante, um exemplo familiar) que tenha levado você a seguir esta carreira?

Na minha infância, passavam pela minha cidade, Espirito Santo do Pinhal, vários circos. Alguns além de picadeiros, tinham teatro! Foi aí que surgiu meu primeiro interesse!

 2 – Descreva o começo de sua carreira: dificuldades, alegrias, pessoas que o ajudaram  (ou não).

Fiz teatro amador com uma professora de francês do Colégio Américo Brasiliense, Luci Ribeiro de Moura (Tia Luci). Era uma festa, a peça “Auto da compadecida  de Ariano Suassuna”, personagem, o Cristo.  Acreditava que tudo seria fácil! Muitos amigos, pessoas especiais, tinha descoberto  um mundo novo!

  3 –  Seu primeiro papel foi na TV ou no teatro? Que trabalho foi este e que personagem você interpretou?

Foi no teatro, um jagunço  na ” Guerra do cansa cavalo” de Osman Lins”

4 – Até hoje, qual foi o papel mais marcante de sua carreira e por quê?

Tio Barnabé do “Sitio do pica- pau amarelo” ou o Chico de” Chiquititas” não sei ao certo, os dois tem muita visibilidade! O João Batista e o corifeu em “Missa Leiga”,  direção  de Ademar Guerra, ficou mais de dois anos em cartaz. Ah, também interpretei um preso político em  “O dia em que Dorival Encarou a Guarda”

5 – Teatro, cinema ou TV: qual destas três áreas você prefere e por quê?

Não prefiro, eu faço as três e mais, sou contador de histórias. Tenho grande prazer em exercer meu ofício!

6 – Você tem algum ‘ídolo’ ou alguém (de qualquer área, não só artística) que admire?

Sou grande admirador do educador Mário Sergio Cortella.

7 – Conte como foi atuar como Tio Barnabé no Sítio do Pica-Pau Amarelo, pois o livro é um clássico e o programa de TV também se tornou um clássico.

Na época trabalhava muito em São Paulo, fiquei muito reticente! Era uma indicação do Roberto Talma.  Pedi para fazer o teste em SP, foi aceito ! O projeto era grande,  eu não tinha a dimensão! Foi fantástico, me apaixonei pelo personagem, fiz durante sete anos,  assim com fiz ‘Bambalalão ” por sete anos! Consegui  compor o Tio Barnabé com muito carinho, aproveitando a sua sabedoria, sua experiência na roça. Quando converso sobre o ‘Sítio’, coloco o Tio Barnabé no seu tempo, tendo a partir daí uma reflexão sobre a “negritude”. Converso sobre a igualdade racial, uma causa  de todos! Fui muito feliz no ‘Sítio’ e sou agora nas lembranças!

 8 – Como é a experiência de trabalhar com crianças, seja atuando lado a lado, seja contando histórias para elas?

Gosto de trabalhar com crianças atuando ou como espectadoras, são carinhosas, exigentes, maravilhosas e maravilhadas com o universo imaginário! A nossa formação foi feita com histórias europeias: “Cinderela, Branca de Neve”… As nossas crianças, aprenderam e aprendem dessa forma . Conto histórias africanas que tem uma narrativa diferente, mas insisto para que possamos aprender. “Ninguém nasce odiando, para odiar é preciso aprender, se podem aprender a odiar, podem aprender a amar”. (Nelson Mandela)  Então, aprenderemos a ouvir todo tipo de histórias!

 9 – Porque contar histórias é uma atividade tão fascinante? Conte um pouco sobre sua experiência recente como contador de histórias.

Um grande amigo diretor e ator, Antonio Abujamra, me deu a oportunidade de contar histórias pela primeira vez e não parei mais! Uso histórias para estimular a leitura, para distração, para combater o racismo etc. As histórias ampliam a imaginação  e a fantasia! Despertam o encantamento! Conto história desde 1983 e continuo aprendendo!

10 – Há algum personagem que você gostaria de interpretar? Algum personagem que tenha sido interpretado por outro ator no Brasil ou no exterior ou ainda que exista somente na ficção?

Nelson Mandela, talvez, ou Luís Gama… Mas gosto dos personagens fortes , polêmicos , nada cordatos!

11 – Você acha que a arte (a expressão artística de forma geral) é ‘alimento’? ‘Fale’ um pouco sobre isso, por favor.

A arte, a cultura alimenta a alma, mostra a diversidade, aprofunda as paixões, mostra perspectivas, equilibra o ser humano!  Trabalhei teatro na antiga FEBEM, trabalhando o emocional das crianças. Também fiz este trabalho em um projeto “Turma Faz Arte” na secretaria da criança e do adolescente.

11 – Envelhecer ainda é um tabu em nossa sociedade, por isso, nós da Plena utilizamos todas as possibilidades para falar naturalmente sobre a velhice. E você como a enxerga? Ela o  assusta? Como você encara a passagem do tempo?

Não escondo, nem nunca escondi minha idade, tenho setenta e dois anos, envelheço   naturalmente. Minha agilidade é diferente, mas a minha cabeça , ferve , preciso continuar trabalhando, gosto do que faço!  O que me assusta é o avanço da extrema direita  de um modo geral, penso no que fazer, será que tenho tempo? Passa muito rápido, mas estou pronto para esta caminhada! Sinto muita saudade, mas quero projetos futuros! Tenho um grupo de amigos nesta mesma faixa etária, conversamos muito, ninguém está encostado, tenho amigos que fizeram física nuclear, russo português… Professores, neurologistas, pedreiros, marceneiros etc. Amigos queridos como Paulo Iris Ferreira, Norberto Nogueira, Antônio Carlos Fenólico, Antônio Luís Laurindo (Tostão) e todos estão em plena forma intelectual!

 12 – Você tem projetos para o futuro, sonhos não realizados? Poderia citá-los?

Penso ainda em fazer teatro, uma novela com um bom personagem, um bom filme e continuar apaixonado pela Ana Maria P. Bertuchi!  Manter o respeito dos meus filhos, Thays e Carlos, dos meus netos, dos irmãos e sobrinhos!  Adoro viver e se  chamarem minha senha, como dizia um amigo, não vou ouvir!

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João Acaiabe conta histórias no programa Bambalalão da TV Cultura (vídeo da década de 1980)

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