Odair José: um artista (literalmente) do povo

O cantor conversou com a gente sobre sua carreira, passado, presente e sobre velhice, é claro…

Ana Vargas

Se você, não importa a idade que tenha hoje, se lembra da riqueza musical dos anos setenta, sabe que aquela década foi uma (senão a) das mais férteis em matéria de criatividade musical.
Naquele tempo, vários artistas brasileiros que continuam nos encantando, dos mais diferentes estilos, estavam surgindo e, entre estes, estava Odair José.

Odair José também começou sua carreira musical naquela época de tantas experimentações artísticas e seu nome permanece por um motivo simples: ele usou todo o seu talento e criatividade musical para ‘falar’ com uma parcela da população brasileira quase sempre ignorada ou desprezada pelos que faziam música naquele tempo.

Sim: sempre houve e haverá aqueles que cantam para os jovens, por exemplo, ou que fazem músicas do tipo ‘cabeça’, para poucos. Se olharmos para trás e analisarmos o que se fazia em matéria de música naquela década, veremos que a música pop e suas variações _ o rock, principalmente _ foi impulsionado pelas tantas mudanças sociais daquela época. Veremos que as chamadas ‘músicas de protesto’ faziam a cabeça dos jovens e dos nem tão jovens. Mas e quem se lembrava de fazer músicas para aqueles que até hoje, compõem grande parte da população brasileira? Quem pensava em ‘falar’ de amor, do cotidiano sofrido mas nem por isso, tristonho, das empregadas domésticas, dos pedreiros, das muitas pessoas que trabalhavam em serviços braçais enfim, que viviam nos interiores do Brasil ou nas periferias urbanas em cortiços, sobrados simples, bairros distantes do centro etc. Quem compunha músicas sobre amores que não vingaram, ciúmes, sobre os tantos problemas, alegrias e pequenos dramas da vida cotidiana de pessoas que, aos domingos, estavam lavando suas próprias roupas ou varrendo suas casas? Pessoas que tinham de seu apenas a força de trabalho que poderiam vender para os patrões? Pessoas que viviam alegremente a vida, cantando em alto volume as músicas das quais gostavam enquanto estendiam suas roupas nos varais ou se arrumavam para ir dançar em bailes e salões nos finais de semana.
Pois bem: se há alguém que soube como muito poucos falar em suas músicas, da vida simples e tão rica dessas pessoas, esse alguém foi Odair José, sem sombra de dúvida.
Para se ter uma ideia, nos anos setenta, ele foi chamado de “o cantor da pílula”; “o terror das empregadas” e o “Bob Dylan da Central do Brasil”. No entanto, é o próprio Odair quem melhor se define, como não poderia deixar de ser, ao dizer que é “um cantor, compositor e músico, mas, acima de tudo, “um artista totalmente identificado com a cultura popular brasileira”“.
Talvez o sucesso de Odair seja compreensível (sem nenhuma pretensão de querer explicar) porque ele simplesmente escreve canções de letras diretas e objetivas que tratam da lida diária desse tão sofrido, mas ainda assim, resistente e alegre (apesar dos pesares), ‘povo brasileiro’. Este povo quase sempre tão desprezado, desde sempre, pela elite que está sempre olhando para fora e desvalorizando a cultura nacional; esse povo que sempre serviu e ainda serve, como massa de manobra para as tantas falcatruas políticas que são cometidas por aqui, esse povo que encontra forças para resistir e continuar quando vê suas mazelas retratadas de forma poética e bonita nas melodias compostas por Odair José.

 

 

Odair José em imagem dos anos 1970. Arquivo Pessoal

“Começo – Um verdadeiro divisor de águas na música de massa brasileira, Odair José nasceu no Estado de Goiás, mais precisamente na cidade de Morrinhos, localizada a aproximadamente 125 quilômetros ao sul de Goiânia, capital do estado. Ainda cedo se transferiu para a cidade do Rio de Janeiro em busca da realização de um sonho acalentado desde a infância: obter e ocupar um espaço no cenário artístico nacional através da sua música. A tarefa não era fácil, mas ele se entregou a ela com a certeza daqueles que sabem o que querem. No Rio de Janeiro, travou conhecimento com Rossini Pinto, um dos mais sensíveis e bem sucedidos compositores das décadas de 60 e 70. Rossini desempenhava também a atividade de produtor e viu em Odair o potencial de um grande artista, levando-o para a gravadora CBS, hoje Sony Music. Era o início dos anos 70 e o primeiro trabalho do novo cantor para a gravadora multinacional foi a canção “Minhas Coisas,” incluída com destaque no lendário disco “As 14 Mais”, um dos principais produtos da companhia naquela época.
Pronto, estava lançada a semente. Daí para o sucesso foi uma questão de tempo. Em 1972, Odair gravou a música “Eu vou tirar você deste lugar” e com ela aconteceu o grande estouro. Essa foi a canção mais tocada e o disco mais vendido no País naquele ano, se colocando até hoje como um clássico no repertório nacional. Começava uma verdadeira profusão de sucessos. No mesmo ano emplacou as músicas “Esta noite você vai ter que minha”; “Cristo quem é você?” e “Pense pelo menos em nossos filhos”, todas do disco “Assim sou eu”, lançado pela Polydor. Estava consolidado, Odair José deixava de ser uma promessa para se tornar realidade, um “must”, entre os artistas populares da época. (“…) “.

Completando 45 anos de carreira, Odair José continua mais ativo que nunca, gravando e fazendo shows Brasil afora, por exemplo: em 2006, ele foi tema de um tributo que reuniu os principais grupos da nova música pop-rock brasileira. Essas bandas fizeram releituras de vários dos sucessos do artista, resultando no álbum “Vou tirar você deste lugar”, lançado pelo Allegro Discos, com a presença de nomes como Paulo Miklos, Zeca Baleiro, Pato Fu, Mombojó e Mundo Livre S/A, entre outros. (…) Após uma pausa de seis anos, o cantor voltou à ativa com “Praça Tiradentes” (2012), produzido por Zeca Baleiro, que declarou ter a missão de “fazer o Brasil reconhecer Odair José”. O ineditismo de Praça Tiradentes está na assinatura de algumas canções. Pela primeira vez, o cantor grava músicas de outros compositores – no caso, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown (“Vou Sair do Interior”), Zeca Baleiro (“Como Um Filme”, mais uma sobre as empregadas domésticas) e Chico César (“Você Tem Me Ensinado”). Zeca e o titã Paulo Miklos ainda dividem o microfone com Odair em outras faixas.” (fonte site Odair José).

Foi por tudo isso que quisemos conversar com Odair José pois sabemos que muita gente que hoje vive a fase dos ‘enta’ se emociona com suas músicas.

 

Envelhecer é, pra mim, um processo natural, quem não envelhece é por que morreu cedo… essa é a lógica do tempo!

Acompanhe a nossa conversa:

Como todo artista, você enfrentou algumas dificuldades para chegar ao sucesso. Gostaria que respondesse: quais qualidades foram importantes para fazer com que você não desistisse?

Odair: Olha, dificuldade faz parte do conteúdo da vida. No meu início tive que aprender principalmente com a solidão das minhas caminhadas na busca dos meus ideais, cheguei a viver um ano em uma simples noite!

O fato de ter escolhido fazer músicas de letras simples atingiu em cheio as camadas populares que formam a maior parcela populacional do Brasil, pergunto: fazer músicas para essas pessoas foi uma escolha, desde sempre, ou você foi levado a isto por outros caminhos?

Odair: Sou uma pessoa ligada ao ser humano por opção… Me sinto na obrigação de participar do coletivo, sempre quis escrever sobre o dia a dia da rua.

Você sente saudade do passado ou vive plenamente o presente?

Odair: Visito o meu passado com muita frequência, seja nas minhas lembranças pessoais ou musicalmente, mas vivo no presente, tentando ser e fazer o meu melhor.

Como encara a passagem do tempo, o envelhecimento? Com naturalidade ou de forma nostálgica?

Odair: Sem nostalgia… Alguns arrependimentos sim, pois tenho certeza que poderia ter aproveitado melhor alguns momentos… Envelhecer é, pra mim, um processo natural, quem não envelhece é por que morreu cedo… essa é a lógica do tempo!

Quando observa sua carreira, que sentimento possui? Sente-se realizado ou pensa em projetos futuros?

Odair: Sinto que realizei mais do que foi pensado por mim no início, mas vejo que muito ainda posso realizar e são essas novas realizações que me motivam!

Olha, como eu já disse, gosto e acredito no ser humano! Fico feliz por saber que minhas músicas chegaram e ainda chegam até o meu povo… elas foram e são feitas com essa intenção, fazer companhia a quem com elas se identifique…

“Digo a todas as pessoas que, por mais que tudo possa ficar complicado de repente, acreditem e não desistam nunca!
Abraço, Odair.”

Fontes: Adriana Bueno Comunicação

https://www.odairjoseoficial.com/

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