luzinete.jpg

10 anos da morte de Dorothy Stang, a missionária que dedicou a vida a trabalhar entre “os pobres mais pobres”

Posted by
A luta pela reforma agrária e pela preservação do meio ambiente foram duas bandeiras que guiaram a vida da missionária. Impunidade dos assassinos marca o caso

 

Da Agência Brasil

A luta pela reforma agrária e pela preservação do meio ambiente foram duas bandeiras que guiaram a vida da missionária Dorothy Stang. Nascida em 1931 nos Estados Unidos e naturalizada brasileira, ela morreu sem abrir mão de suas convicções sobre o direito à terra.
 
Assassinada a tiros no dia 12 de fevereiro de 2005, Dorothy atuou por mais de quatro décadas no Brasil e deu alguns passos para realizar o sonho de ver trabalhadores rurais retirando o sustento de suas próprias terras e convivendo em harmonia com a Floresta Amazônica.
 
A Agência Brasil visitou Anapu, no sudoeste do Pará, onde a freira trabalhou por cerca de 20 anos na luta pela implantação do primeiro Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) do Brasil. Pioneiro na forma com que promovia a subsistência e a exploração sustentável da floresta, o projeto ganhou o nome de Esperança para ilustrar o desejo dos trabalhadores que chegavam ao município em busca de uma vida nova e de um território onde pudessem criar sua família.
 
No local, a histórica tensão envolvendo conflitos fundiários, que aumentava constantemente com a expansão do comércio ilegal de madeiras, atinge o seu ápice no início dos anos 2000, em grande parte devido à ausência do Estado, e se estabiliza momentaneamente logo após o assassinato.
 
Nos testemunhos ouvidos pela reportagem foi possível confirmar que o caso de Dorothy, apesar da grande repercussão, inclusive internacional, não é uma exceção na história de disputas por terra no país, protagonizados por poderosos de um lado e pessoas simples de outro.
 
“Irmã Dorothy Vive!”, estampam camisetas usadas por aqueles que conviveram com a missionária. “O sangue de Dorothy lava a terra”, anuncia um cartaz que pede reforma agrária. Para o bispo dom Erwin Krautler, que recebeu a missionária em 1982, quando ela chegou à região do Xingu, “reforma agrária não é só cortar lotes de terra e distribuí-los a famílias carentes”. “É fixar o homem e a mulher na terra, fazer com que encontrem na terra a sua vida e a vida de seus filhos e netos”, resume.
 
Foi dele a sugestão para que Dorothy Stang atuasse no Pará em uma região onde havia “gente paupérrima” porque ela queria trabalhar entre os “pobres mais pobres”.
O estado que contabiliza a morte da missionária é também o líder no ranking de mortes por conflitos no campo. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 645 pessoas foram assassinadas no Pará de 1985 a 2013 – o que representa 38% do total de 1.680 homicídios por disputa de terra registrados nesse período.
 
Atualmente, o PDS Esperança abriga 261 famílias de pequenos agricultores que ainda pedem mais presença do Poder Público. Apesar de as condições de vida terem melhorado na última década, muitos dos trabalhadores rurais vivem um cenário de instabilidade gerado por longos processos na Justiça sobre a posse da terra e a pressão de madeireiros que têm interesse em extrair árvores nativas de modo desenfreado.
 
Há dois anos no PDS Esperança, o mesmo que a missionária Dorothy Stang lutou para implantar, a camponesa Luzinete Sales, 41 anos, complementa a renda da plantação de cacau feita pelo marido, Robson Silva, com a produção de bonecas para enfeite e sorvete. “No início, faltavam algumas coisas, mas agora já melhorou bastante. Não passamos necessidade. Às vezes não tem carne, mas aí tem um vizinho que traz um pedacinho”, conta a artesã sobre a vida na comunidade.
 
“Eu acredito que [daqui] uns dois anos vai estar melhor. Todo mundo já vai ter produzido mais. Valeu a pena o esforço [de Dorothy Stang]. Tivemos o direito a um pedaço de terra. É só arregaçar as mangas que as coisas melhoram”, garante.
 

luzinete.jpg

 
Impunidade
 
Apesar da condenação, benefícios concedidos no cumprimento da pena a alguns dos réus no caso do assassinato da missionária mantêm a sensação de impunidade comum em casos de homicídios no campo. 
 
 Depois de vários julgamentos e até mesmo do cancelamento de um veredito, os dois mandantes do crime, Vitalmiro Bastos de Moura e Regivaldo Pereira Galvão, não estão atrás das grades.
 
Há ainda mais três envolvidos condenados pela morte da missionária. Clodoaldo Batista, um dos autores do assassinato condenado a 18 anos de prisão, cumpre pena em regime semiaberto em um centro de recuperação em Belém. Rayfran das Neves Sales, autor dos disparos, foi condenado a 27 anos de prisão, cumpriu quase nove anos na cadeia e teve direito à progressão de regime, com prisão domiciliar. Em outubro de 2014, entretanto, ele foi detido novamente acusado de envolvimento em outro assassinato. Amair Feijoli Cunha, indicado como intermediário e condenado a 17 anos, cumpre prisão domiciliar em Tailândia, no sudeste do Pará.
 
De todos os cinco envolvidos no crime, apenas Regivaldo Galvão, condenado a 30 anos, não cumpriu pena, pois aguarda em liberdade um recurso no Superior Tribunal de Justiça.
 
Para a irmã Jane Dwyer, que conviveu com a missionária e pertence à Congregação de Notre Dame de Namur, não há como fugir de um clima de indignação, resultado do sentimento de que muitos criminosos continuam impunes. “Tem um ditado que na Amazônia, a impunidade mata e desmata. Está falado. Mata e desmata. E continua”, desabafa a freira.
 
 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *