Drama da vida real: filha conta a dor de ver a mãe ser acometida por uma demência degenerativa aos 57 anos

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 “Ganhei uma filha”, diz Kelly Hoffmann; na foto, de 2013, Kelly – de noiva -, sua mãe e irmã

 

Por Mariana Parizzotto

 
No comentado filme "Para Sempre Alice", que deu o Oscar de Melhor Atriz para Julianne Moore, a protagonista descobre que tem o Mal de Alzheimer aos 50 anos de idade. O longa, que tem recebido boas críticas, mostra a dor de Alice e sua família para lidar com o avanço da doença. 
 
O mesmo drama está presente na vida de muitas pessoas. Distração desmedida, apatia e instabilidade emocional eram alguns dos sintomas de Olympia Hoffmann Pádua, aos 57 anos de idade. Dois anos depois veio o diagnóstico: Alzheimer. “Minha mãe trabalhava muito e com números, mas do ponto de vista social, ela era pouco ativa”, conta Kelly Hoffmann. “Eu e minha irmã achávamos que era uma depressão, mas os problemas com a memória começaram a se intensificar. Levamos a médicos, ela fez testes, exames e o diagnóstico foi Alzheimer, porém, depois de muitas pesquisas, descobrimos que na verdade ela tinha demência frontotemporal, cujos sintomas e tratamentos são os mesmos que os do Alzheimer”, relata a filha.
 
Sob o ponto de vista médico, as demências compreendem um número grande de enfermidades incuráveis que apresentam certas características comuns entre si, mas com peculiaridades distintas umas das outras. Provas disso são a doença de Alzheimer, a demência vascular e dos corpúsculos de Lewy, as doenças de Pick, de Huntigton e de Creutzfeldt-Jakob e a demência frontotemporal (DFT), quase todas com etiologia e tratamento específicos.
 
A demência frontotemporal, em particular, é uma doença de início insidioso e progressão lenta que, em geral, acomete pessoas acima de 50 anos, mais as mulheres do que os homens. Assim como mostrado no filme, a mudança de comportamento e a perda de autonomia são os fatores que mais refletem nas relações do paciente com filhos e parceiros. “Não é fácil aceitar que sua mãe tem uma doença incurável, principalmente quando a sua fase de vida é outra. Eu estava prestes a casar. Recebemos o diagnóstico no mesmo dia em que minha irmã fez o primeiro ultrassom da primeira gravidez dela”, relembra Kelly.
 
Depois de procurar outros médicos, as duas decidiram que não aceitar a doença que acometia a mãe era muito pior. “As pessoas nos julgaram, pois queriam que a gente continuasse a procurar outros médicos, um novo diagnóstico. As pessoas não aceitavam e nos colocavam numa situação muito difícil. Nós duas nos unimos e tomamos a atitude de aproveitar o tempo com ela”.
 
A fase mais complicada, segundo Kelly, foi em janeiro. “Eu ganhei meu neném no começo do ano e tive que esconder por um mês, pois não ia dar conta de cuidar dela e do neném. Eu chorava todos os dias de saudades e de medo. Me senti uma órfã. Minha mãe era tão guerreira e eu sei que seu sonho dela era  estar do meu lado naquele momento . Vejo hoje que perdemos uma mãe e ganhamos uma filha”, desabafa.
 
Hoje, aos 61 anos de idade, Olympia está numa fase bem acentuada da demência, ela já não se expressa bem, não lê, não reconhece números, não escreve,  utiliza fraldas e tem pouquíssima autonomia. “As pessoas se afastaram muito dela. Os amigos e parentes que estavam sempre juntos nos fins de semana, pouco a procuram e sempre comentam algo como se fosse culpa dela”, comenta Kelly.
 
Embora ela e a irmã não sejam as cuidadoras, ambas estão muito presentes no dia a dia da mãe, unindo forças para que Olympia tenha uma vida confortável. “Paciência é o maior desafio. Ver que a cada semana há mais uma degeneração, mais uma dificuldade na rotina dela é muito doloroso. O que nos motiva é a vontade de retribuir todo o cuidado que ela sempre teve conosco”, emociona-se Kelly, revelando que em meio aos problemas é possível ter bons momentos com a mãe, e que até mesmo o riso tem espaço entre as lágrimas. 
 

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