O desabafo de uma cuidadora: “Desabamos muitas vezes. Precisamos de apoio e não de julgamento”

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Marcela Peres fez um texto sobre o episódio em que teve que internar a mãe. Veja o que ela diz sobre a questão da culpa, da relação com a mãe e sobre a luta diária de quem cuida de um familiar com Alzheimer e ainda sofre julgamentos descabidos

Redação Plena
 
“A minha sensação de culpa alcançou o ápice quando minha mãe disse que iria me matar. Experimentei uma mistura tão profunda de medo e culpa, que nem se compara ao dia em que fiquei com uma arma apontada para a minha cabeça durante um sequestro-relâmpago”. Este é um trecho de um comovente depoimento da cuidadora Marcela Peres, de 28 anos. Sem conseguir controlar a agressividade da mãe, diagnosticada com Alzheimer há pouco tempo, e temendo pela integridade física de ambas, a jovem decidiu internar a paciente temporariamente em uma clínica especializada. 
 
Marcela fez um texto sobre o episódio, no qual fala sobre a questão da culpa, da relação com a mãe e sobre a luta diária de quem cuida de um familiar com Alzheimer e ainda sofre julgamentos descabidos.
 
Veja:
 
Quando a minha mãe começou a ficar agressiva – há uns quinze ou vinte dias, passei a me culpar pelo comportamento dela.  Senti que talvez não estivesse dando a atenção necessária ou não estava dando as atividades corretas ou quem sabe eu não estava preparando refeições adequadas. E aquilo foi me consumindo, ainda mais por nossa história, como se eu estivesse fazendo o mesmo que ela fez comigo a vida inteira. A minha sensação de culpa alcançou o ápice quando ela disse que iria me matar. Senti-me revivendo a minha infância, só que lá havia meu pai para me socorrer… Experimentei uma mistura tão profunda de medo e culpa, que nem se compara ao dia em que fiquei com uma arma apontada para a minha cabeça durante um sequestro-relâmpago. Senti medo por nunca ter visto minha mãe tão transtornada daquele jeito e estar sozinha. Culpa por não ter tido a capacidade de mudar a forma que ela me vê, por estar fazendo algo de errado e sentir que não estou sendo boa o suficiente para ela, minha família, minha cachorra, meus amigos e meus clientes. 
 
E tudo se tornou uma grande dúvida em meus pensamentos. É nessas horas que devemos contar o que sentimos para pelo menos uma pessoa, expor tudo para alguém que não vá julgar, que entende a árdua luta diária dessa doença e pode te acalmar. E depois de ouvir que é inevitável se sentir culpada, mas que isso não pode dominar a minha vida e que realmente estou fazendo tudo que está ao meu alcance, consegui me sentir mais aliviada e deixar esse sentimento um pouco de lado e focar no que eu devo fazer. Nós não somos perfeitos e nem devemos desejar a perfeição, todos perdemos a paciência, temos dias ruins em que colocamos tudo em questão, em que a vontade de chorar é mais forte que a de sorrir ou que é impreterível tirar a "roupa" de pessoa que aguenta qualquer pancada e "desabar". Isso não nos faz desmerecedores de respeito, só nos faz humanos.
 

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