Risomar Fasanaro: uma mulher de vários talentos

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A escritora, professora, militante política e pintora diletante (segundo ela mesma), Risomar Fasanaro ou Riso _ como é chamada por todos os seus muitos amigos _ tem uma história de vida ligada a movimentos artísticos, participou ativamente da luta contra a ditadura militar e, é enfim, uma pessoa que apesar dos pesares, ama a vida e vive cercada de pessoas que a adoram. É por tudo isso que hoje ela está aqui no "Histórias Plenas" nos  contando um pouco de suas memórias e também falando do presente, é claro.

Ana Vargas

 

 

Risomar Fasanaro,  nasceu em Pernambuco mas foi morar em Osasco, grande São Paulo, no final da década de 1950.  Seu pai, João Fasanaro, era militar e foi  transferido do Recife para   Quitaúna nessa época.  Sua mãe era professora do 1º grau. Além da mãe, Dona Nena, a família Fasanaro era composta pelos irmãos Paulo, Mércia e Rômulo. Foram quinze dias de viagem de navio até a chegada a São Paulo e de lá, mais uma viagem de trem até a  distante vila militar do distante bairro de Osasco. Tempos depois, a família se mudaria para o Quilômetro Dezoito, hoje um dos bairros mais populosos da cidade. Mas, naquele tempo, o ‘Dezoito’ era um bairro em formação, e Risomar se lembra que era um lugar idílico, com grandes quintais e pomares.  “ A frente de nossa casa era imensa, com muitas roseiras,e o quintal era uma chácara mesmo havia um pomar com abacates, peras, caqui e muitas outras frutas”. Aqueles foram tempos de muitas alegrias e descobertas para Riso (como  é carinhosamente chamada pelos amigos) que também lembra das muitas festas  que havia na sua casa:  “Era uma delícia, fazíamos muitos bailes na nossa casa. Meu irmão Rômulo era muito festeiro e nossos pais também adoravam festas, então, quase todo sábado tinha baile lá em casa. Era assim: o Rômulo puxava a vitrola para a varanda e começava a tocar de tudo: valsa, bolero, rock, fox trot, samba…”

Os amplos saiotes que as moças usavam nos agitados anos cinquenta também são lembrados por Risomar com nostalgia: “Aqueles saiotes eram imensos, engomados, chegavam a medir três! Por isso as casas também tinham que ter quintais grandes, porque para secar, ocupavam metade do varal”, conta em tom de brincadeira.

As andanças de bicicleta por Osasco também são lembradas por ela com saudosismo: “ Nós andávamos muito de bicicleta, aliás, em Osasco, todos andavam muito de bicicleta. Era tudo muito simples e como havia muitas áreas verdes, a gente se esbaldava”.

O fim da inocência

Mas, quando a década de 1950 chegou ao fim parece ter levado também, a ingenuidade dos passeios de bicicleta e laços de fita; a chegada dos anos 1960 com seus questionamentos políticos e revoluções nos costumes e comportamentos mudaria, para sempre, a vida de todos aqueles que estavam chegando à juventude e foi assim também com Riso.

Nos anos seguintes, por exemplo, Osasco se emanciparia e a atividade industrial –  que já criara raízes na cidade –  também faria com que frutificassem as ideias daqueles que lutavam por melhores condições de trabalho para os operários. Uma lembrança meio amarga de Risomar, que se refere aos tempos em que estudou no tradicional Colégio Nossa Senhora Misericórdia, revela talvez, a contradição que existia numa cidade industrial pós-emancipada que, apesar de estar ao lado da capital, mantinha o velho provincianismo, hoje ainda lembrado por muitos: quando solteira, ela estudava no colégio, no entanto, ao revelar que se casaria, foi “convidada” a sair da instituição e não pôde cursar o Magistério, sua aspiração. A única alternativa foi estudar no Instituto Anhanguera, colégio do estado, na capital. Anos depois, Risomar se formaria no curso de Letras na Universidade de São Paulo.

Outra tristeza de Riso: durante a ditadura militar, ela, então estudante da USP, começou a lecionar para adultos num curso baseado no método de alfabetização Paulo Freire, em um colégio que ficava no seu antigo bairro. Pois bem,  como ela mesma diz “cheia de sonhos e de vontade de fazer algo, de fato, pelo meu país, comecei a lecionar para aquelas pessoas.  Tudo ia bem até que uma noite, chego para dar aula, e encontro todos muito tristes na calçada… Haviam fechado a nossa escola…A polícia da ditadura militar, fechara a escola alegando que o curso era “coisa de comunista”. Foi muito triste, cortou meu coração esse acontecimento. Nunca mais pudemos voltar…”.

E a emancipação, o fato mais marcante da história de Osasco? Riso diz o seguinte: “Para quem gosta de progresso, Osasco melhorou demais, mas acho que podiam ter preservado mais a natureza por aqui… Essa região era muito bonita; quando cheguei aqui, aos 10 anos e vi o rio Tietê, fiquei deslumbrada diante da beleza que era aquele rio. Depois foram destruindo tudo, sujando o rio…Havia paineiras na margem do Tietê, próximo ao bairro Rochdale, que foram dinamitadas no governo do Paulo Egydio…”

 

Na política, nas letras e nas artes: atuação constante

Riso, como muitos de sua geração, participou ativamente de movimentos políticos contra a ditadura, a favor da Anistia, pelas Diretas Já e etc. Sua preocupação com valores como justiça social, direitos dos indígenas  entre outras questões que envolvem, desde sempre, o desejo de ver o Brasil se desenvolvendo de forma igualitária e ampla, sempre fizeram parte de seus sonhos. Estes sonhos também estão entrelaçados tanto em suas telas quanto em seus escritos (poesias, crônicas, contos e romances).

Risomar escreve desde os tempos de menina, já foi colunista do  Diário de Osasco, venceu vários concursos literários, sendo que em um deles _ o “Prêmio Teresa Martin” _ ela foi agraciada com o primeiro lugar com o romance “Eu: primeira pessoa, singular”. Além da publicação do livro, ganhou uma viagem à Europa.

Hoje Risomar Fasanaro mora no bairro Jardim Wilson, ainda em Osasco, cidade que aprendeu a amar; e da sacada do seu apartamento, costuma registrar a paisagem urbana recortada pela estação de trem e pelo movimento constante de passageiros. Atrás de toda essa movimentação, é possível divisar pores do sol belíssimos, e com toda sua sensibilidade, ela nunca deixa de admirá-los, mesmo quando está triste.

E é essa capacidade de se manter sensível às belezas que a vida tem, apesar dos pesares, que a trouxeram ao Histórias Plenas: um ser humano raro, talvez essa seja a melhor definição para Risomar. Abaixo, ela nos conta mais um pouquinho de suas lembranças e ideais.

 

Uma lembrança marcante da infância…

A primeira vez que vi o mar. Foi um deslumbramento tão grande e que, ao  mesmo tempo, me deu muito medo. Até hoje, sempre que vejo o mar me volta essa sensação…

 

 Uma  lembrança da adolescência…

A leitura de “O Pai Goriot” de Balzac, de castigo na biblioteca do Colégio Misericórdia, com minha maior amiga do ginásio, Yonne de Salvi. Por conversar durante as aulas, as freiras nos punham de castigo na biblioteca. Assim que descobri “O Pai Goriot”, fazia o possível para ser punida e ir para a biblioteca. Foi assim que li aquele livro…

 

Uma lembrança da juventude

Uma  feliz e uma triste: o nascimento do meu filho, Eduardo Luiz, foi o acontecimento mais feliz e mais marcante de minha vida. Triste foi ter sido presa no Recife, em 1970, com uma amiga, no 14 RI de Socorro, Jaboatão.

 

 

Uma pessoa da qual se recorda com carinho...

Citaria duas: Cosma e Bila, duas velhinhas que moravam em Socorro e que adoravam crianças. Todas as tardes eu ia à casa delas para comer jambo que havia no quintal,  farinha de castanha de caju e ouvir as histórias que elas nos contavam…

Tenho uma doce lembrança também de uma índia que era avó de umas amigas minhas. Ela ficava o dia todo na calçada, sentada no chão, fazendo renda de bilro. Acho que foi com ela que aprendi a amar os índios…

 

Uma lembrança do passado…

Uma viagem que fiz sozinha para a região norte do país: Manaus, Belém e Ilha do Marajó. Foi amor à primeira vista. Eu estava muito triste. Tinha me separado recentemente  e quando cheguei a Belém a tristeza passou. Pretendo voltar a esses lugares. O Brasil é tão bonito, que a vida é um período muito curto para conhecê-lo.

 

Aos 40 anos eu estava…

Lecionando no colégio Campesina, e saía muito. Ia sempre  ao Bixiga com meus amigos Alcides Neves, Eliseu Marinho e Juçara Rodrigues. Foi uma época muito feliz de minha vida. Sinto saudade daquela época.

 

 

Uma palavra ou imagem que define o presente para você…

“O Grito” do pintor Munch é o que melhor define como estou vendo o mundo de hoje, com tanta violência, tanta agressividade, tanta falta de solidariedade.

 

A vida para mim é…

Uma aventura fascinante. Por mais que tentemos entendê-la, programá-la, ela nos foge das mãos. Não podemos nem devemos nunca perder a esperança, porque a vida é como o clima: um dia chuvoso, cinzento, triste, e quando vemos surge o sol iluminando tudo… Para mim a vida é isso. E mesmo vendo a realidade que nos cerca como a famosa dela de Munch, tenho esperanças de que um dia o mundo será melhor. Quem sabe tão bonito como a tela “Céu Estrelado” de Van Gogh.

 

 

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