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Tomie Ohtake: o tempo e a arte

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Considerada a 'dama das artes plásticas brasileiras', Tomie Ohtake faleceu nesta quinta-feira aos 101 anos
Redação Plena
 
Considerada a 'dama das artes plásticas brasileiras', Tomie Ohtake faleceu ontem, 12, aos 101 anos, em São Paulo. Em nota, a família informou que a causa foi choque séptico decorrente de broncopneumonia. Tomie estava internada desde 2 de fevereiro no Hospital Sírio-Libanês, na região central da cidade, para tratamento de uma leve pneumonia.
 
Nascida em Tokio, em novembro de 1913, Tomie Ohtake veio ao Brasil pela primeira vez aos 23 anos. Como não pode retornar ao Japão, devido à Segunda Guerra Mundial, foi naturalizada brasileira. Nos anos 50, iniciou seu caminho no meio artístico, com o pintor Keisuke Sugano. 
 
 Ohtake foi premiada no Salão Nacional de Arte Moderna, em 1960, e foi responsável pela escultura comemorativa dos 80 anos da Imigração Japonesa, em 1988. 
 
Suas principais obras estão no estado de São Paulo, na capital. Inclusive, é a cidade onde se localiza o Instituto Tomie Ohtake, palco de exibições artísticas e cursos de formação na área. 
 
Veja abaixo uma análise sobre a obra da artista, feita por Patrício Dugnani, professor de Comunicação e Artes da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
 
Tomie Ohtake: o tempo e a arte
 

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Tomie Ohtake morre aos 101 anos, essa foi a primeira manchete que vi quando soube do fato. O que já seria uma notícia que nos chamaria a atenção, dada a extensão de sua vida, o que venhamos, não é tão comum assim: viver um século.
 
Contudo, o que é um século para quem já escreveu seu nome na matéria e inscreveu sua essência na tinta? Tomie Ohtake, a mulher morreu, porém sua obra resistirá ao tempo.
 
Poderia dizer que a artista seguia uma tendência abstracionista, ou seja, sua obra não buscava contar, propriamente, uma história, mas atingir a nossa percepção, fazer com que um tipo de conhecimento, aquele que emana dos sentidos, aflorasse em nossa consciência, e permanecesse mais como sensação, do que conteúdo, do que as palavras.
 
Dessa forma, partes dessa essência, da artista, e da obra, estão espalhadas pela cidade, pois além das pinturas abstratas feitas nas telas, suas pinceladas se condensaram, deixaram a superfície plana, e se projetaram pelas ruas.
 
Caso queiram conhecê-las, ou se já conheciam a obra, mas não ligaram à artista, deixo duas dicas. A primeira, coincidindo como a idade com que ela viajou para o Brasil, para visitar um irmão, e acabou ficando por causa da guerra, 23, esse é um endereço de uma de suas esculturas: 23 de maio.
 
O monumento à imigração Japonesa, fato que ela viveu e traduziu em ondas, como a sensação do mar, a essência do mar, a percepção da vida. A segunda, enquanto viaja pelo metrô, talvez preocupado com a hora e com os atrasos, guarde uns instantes para observar ao seu lado, pela janela, as cores que ondulam, novamente como mar, o mar que separou a jovem Tomie, de sua terra natal, e lhe presenteou com outra vida.
 
Observe no metrô Consolação, além do relógio, os painéis que se apresentam num jogo de cores –  quentes frias, suaves e intensas – representando as estações do ano: a obra Quatro Estações.
 
Enfim, o tempo, a essência, mais do que tinta, mais do que as esculturas, essa é a matéria com que Tomie Ohtake criou as suas obras. Espero, sinceramente, tenho esperança que vocês possam conhecer, ou melhor, sentir, e se deixar levar pela arte dessa nossa grande artista.
 

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