Utopias políticas, esperanças e amores compõem a memória do escritor Ricardo Faria

Posted by

“Já presenciei muitos momentos políticos históricos do Brasil, e posso dizer que o povo brasileiro não merece sofrer mais do que já sofreu”, diz o escritor no Histórias Plenas de hoje

Ana Vargas 

 

O historiador Ricardo de Moura Faria nasceu em Dores do Indaiá, no centro-oeste mineiro, no dia 4 de janeiro de 1950 e antes de se tornar professor  trabalhou como auxiliar de escritório, vendedor de livros/discos e bancário na capital mineira.  Como professor de História lecionou para alunos do supletivo, 1º e 2º graus, cursinhos pré-vestibulares e faculdade.  Também foi consultor da área de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.  Enquanto atuava como professor e consultor, também escreveu vários livros didáticos e paradidáticos e, agora, aposentado, se aventurou por outro tipo de escrita ao publicar o livro “O amor nos tempos do AI-5”.  Aqui no  ‘Histórias Plenas” Ricardo nos conta um pouco mais de suas lembranças e esperanças.

 

Uma lembrança da infância

Minha infância eu a vivi em Dores do Indaiá até completar 10 anos, quando minha família mudou-se para Juiz de Fora, onde ficamos até o final de 1965.  De Dores, as melhores lembranças foram: chupar mangas e jabuticabas no pé, subir em árvores, jogar bola no largo São Sebastião, frequentar as Classes Anexas ao lado da Escola Normal, ganhar um livro de prêmio por ter sido o melhor aluno no 2º ou 3º ano… Já morando em Juiz de Fora e frequentando o 4º ano do Grupo Escolar Batista de Oliveira, tenho uma lembrança trágica: tive os cinco dentes arrancados no mesmo dia pela dentista da escola! O berreiro que aprontei foi ouvido em todas as salas do Grupo. Detalhe: a tortura foi cometida sem anestesia!

 

Uma lembrança da adolescência/juventude

 

Uma? Mas que coisa mais difícil… como diria o Roberto Carlos “foram tantas emoções”… como eleger somente uma?  Da adolescência, como eu acho que aconteceu e ainda acontece com todos, a principal foi a primeira batida mais forte do coração, encantado com uma vizinha cujo nome não se deve revelar…

Depois, aos 12 anos, tive o primeiro emprego como auxiliar de escritório na empresa que editava o jornal “Lar Católico” e que prestava serviços tipográficos na cidade.  Outra lembrança memorável foi a primeira vez que vi um presidente da República (João Goulart) andando a pé na avenida Rio Branco, em Juiz de Fora, aplaudido pela multidão em 1963. A mesma cidade que, um ano depois, seria o ponto de partida do golpe militar que o tiraria do poder. Eu estava em casa, em repouso, devido a uma nefrite e lembro da minha mãe chegar perto de mim e recomendar que eu rezasse muito, porque a situação estava muito grave…  Da juventude – e aqui vou considerar até os 20 anos, basicamente já vivendo em Belo Horizonte – as lembranças que guardo são: passar no difícil concurso do Colégio de Aplicação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) para fazer o curso clássico onde encontrei três grandes amigos (um dos quais se tornou o melhor amigo que já tive); a primeira experiência sexual; o ingresso na universidade; a primeira aula dada num curso supletivo – da qual saí com a camisa ensopada de suor – a primeira namorada; a aprovação para ser professor da Escola Sesi Newton Pereira. Muitas… muitas lembranças…

  

Aos 40 anos eu estava….

Eu estava casado. Casei-me com 23 anos e, em 1990, já tinha três filhos e estudava muito para o concurso de Consultor, saída provável para os desesperadores salários de professor. Naquele tempo eu dava aulas de manhã no Colégio Promove e à noite na FAFI-BH, hoje UNI-BH. Já tinha tentado melhorar a renda na década anterior, com um estúdio de fotografia que tive que fechar quando o Sarney fez aquela ‘gracinha’ de segurar o Plano Cruzado até a eleição e depois o “descruzou” abruptamente, fato que fez o aluguel da sala que eu utilizava passar de 1.000 cruzados para 10.000… Não dava para manter! Esse concurso veio a calhar e consegui passar em 2º lugar (eram cinco vagas). Em agosto de 1991 tomei posse, larguei o colégio e fiquei trabalhando de manhã na Assembleia e à noite na FAFI-BH. Não me arrependi, apesar de gostar muito de trabalhar com adolescentes. Meu primeiro salário, para um trabalho de seis horas, foi superior ao que eu ganhava com as 40 aulas no Colégio e na Faculdade.

 

O tempo mais marcante que vivi foi…

Eu sempre digo às pessoas que as melhores fases da vida da gente são aquelas que passamos na Universidade, pois representam a descoberta do mundo, as amizades que construímos de forma duradoura.. representam a ajuda que damos e recebemos… Os professores nos ensinam muitas coisas e, no mais das vezes, já que eu tinha escolhido a profissão de professor, além das respectivas matérias que lecionam, nos ensinam como dar aulas (alguns) e como não dar aulas (outros).

Fui presidente do Centro de Estudos Históricos e junto com os demais membros da diretoria, consegui dinamizar as relações entre os alunos, todos desiludidos e temerosos do AI-5 que fora editado em 1968. Assim, novos ares passaram a circular pelos corredores da Fafich graças à nossa gestão. Mas tive de responder a um inquérito policial dentro da Faculdade, pois o Centro de Estudos havia sido acusado por um idiota de ter feito as calouras desfilarem “com os seios fora do lugar” (Pasmem!) na ocasião do trote.

Este período foi, inclusive, aquele onde colhi muito material para meu primeiro romance – O Amor nos Tempos do AI-5 – publicado agora em 2015. Transportei para alguns personagens do romance a minha vivência daquele período.Foi naquele tempo também que perdi meu melhor amigo e colega, Luiz Fernando, e também a época em que me apaixonei pela Izabel, a Bel, com quem me casei logo após a formatura. Ela não era da turma da faculdade, mas a conheci em 1971 por ela ser colega de meus irmãos mais novos.

E, já falei, mas não custa recordar, foi nessa época que consegui a aprovação no concurso para professor da Escola SESI Newton Pereira.

 

Uma pessoa da qual me recordo com carinho

Poderia dizer minha mãe, meu pai, minhas tias que permaneceram em Dores e que visitei algumas vezes. Todos já falecidos.

Também poderia dizer que foram as namoradas que passaram em minha vida e das quais guardo boas recordações.

Mas vou me concentrar em duas pessoas muito especiais e queridas que já se foram:  minha filha mais velha, Raquel, que nos deixou em 2010, vítima de um câncer e que sempre será merecedora de todo meu afeto.  Não existem palavras que possam dar conta do carinho que ela sempre nos dispensou e que nós procuramos também dispensar a ela, acreditando, como Guimarães Rosa, que “as pessoas não morrem, elas ficam encantadas”. E é exatamente assim que ela “vive” ainda entre nós.

 Também quero me lembrar daquele amigo dos tempos do curso clássico: o Luiz Fernando. Nós entramos juntos para o curso de História, trabalhamos juntos no curso Nobel e já tínhamos planos de escrever livros didáticos juntos. Eu o considerava mesmo como um irmão… Entretanto, em 1972, ele faleceu em um desastre na antiga BR-3, hoje 040, na altura de Ressaquinha, perto de Barbacena. A ele eu dediquei meu primeiro livro, publicado em 1975 pela Editora Lê.

 

Uma palavra/imagem que define o presente

 Escrevo na manhã do dia 18 de abril de 2016. Ontem à noite, a imagem de um circo de horrores, que me fez lembrar Shakespeare: "há algo de podre no Congresso brasileiro", ele diria se hoje e aqui vivesse. Creio que estas imagens que todos nós vimos ontem, mostram a dimensão do baixíssimo nível intelectual e político dos nossos deputados. Com raras exceções, felizmente elas sempre existem. Mas não posso evitar a preocupação com o que virá de agora em diante. O povo brasileiro não merece sofrer mais do que já sofreu. 

 

O futuro para mim será…

Uma incógnita ou talvez a certeza de um desastre iminente. No mundo, as guerras, as ações terroristas, o aquecimento global, a insensatez dos governos – tudo isso pode fazer com que a raça humana seja exterminada ainda neste século. No Brasil, dependendo do que irá acontecer no “pós-novo golpe” contra as instituições, afigura-se até mesmo a possibilidade de uma guerra civil. O que esperar da humanidade?

 

Para mim a vida é…

Bela, apesar de tudo!

 

Ricardo Faria edita o blog http://segundoblogdoricardo.blogspot.com.br/  e seu livro “O Amor nos Tempos do AI-5” já se encontra à venda em quase todas as livrarias.

Deixe um comentário