“Ver a degradação de quem se ama é a faceta mais cruel do Alzheimer”, diz o cuidador Márcio Meirelles

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Desde que seu pai foi diagnosticado com a doença, há 3 anos, ele se tornou o cuidador principal – um caso um pouco raro, afinal a quantidade de homens que exercem esse papel é bem menor do que a de esposas, filhas ou netas. Hoje, Márcio é pai e mãe do próprio pai
Por Mariana Parizotto
 
O Dia dos Pais tem tido um significado bem diferente para Márcio Meirelles nos últimos anos. Desde que seu pai foi diagnosticado com Alzheimer, ele se tornou o cuidador principal – um caso um pouco raro, afinal a quantidade de homens que exercem esse papel é bem menor do que a de esposas, filhas ou netas. Hoje, Márcio é pai e mãe do próprio pai.
 
“Clinicamente o meu pai tem Alzheimer há 3 anos, iniciou com uma demência, que gradualmente lhe foi tirando várias capacidades, como sentido de orientação, reconhecimento das pessoas. Quando o diagnóstico saiu, a doença já estava em estado avançado. Ele tem apenas 66 anos, não sabe quem eu sou, em muitas vezes, e é totalmente dependente de mim”, fala Márcio, que conta com a ajuda da esposa nos cuidados diários com o pai.
 
Márcio e sua irmã mais nova, que não mora no Brasil, sempre tiveram uma relação muito próxima com o pai, “o meu pai nunca foi muito de afetos ou de carinhos, mas sempre esteve presente. Dentro da distância emocional dele com a gente, sei que nos amava de uma forma diferente mas amava da maneira dele. Com a doença, passou a adorar mimos, carinhos e beijos. Como sou muito de afetos, hoje posso expressar todo o meu amor por ele e ele gosta. Diria que se o Alzheimer trouxe algo de bom, foi isso”, relata.
 
Para compartilhar suas experiências e desafios, Márcio alimenta quase que diariamente uma página no Facebook, chamada “Eu o meu pai e o Alzheimer”, onde ele também presta homenagens ao pai. “O Mal de Alzheimer é talvez a mais cruel das doenças. Destrói a capacidade de ter lembranças, destrói os laços afetivos mais profundos, como aqueles que, geralmente, unem mãe e filhos, pai e filhos por toda uma vida.  Por isso considero fundamental os cuidadores terem o apoio de outros cuidadores, partilhar suas dores e dificuldades, e a página que criei tem essa função social”.
 
Assim como a maioria dos cuidadores, Márcio sente-se abandonado pelo estado. “Todos os cuidadores necessitam de um bom suporte emocional na retaguarda, pois é um trabalho integral, de deicação total, de corpo e mente. Não temos descanso. Não falo nem em ajuda financeira do estado, mas sim de infraestrutura e atendimento. Deveriam existir centros de dia preparados para acolher estes doentes, durante o período laboral dos cuidadores”, protesta.
 
Quando perguntado sobre a maior dificuldade que o Alzheimer impõe ao cuidador familiar, Márcio afirma que o cansaço e o desgaste físico ficam em segundo plano, “sem dúvida, o maior obstáculo é conviver com a dor e com o sofrimento do paciente, pois nunca estamos preparados para a degradação das pessoas que muito amamos”. 
 

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