Dona Lourdes, vereadora de Curitiba, é a prova de que política (também) é lugar de gente de bem

A vereadora (PSB) Maria de Lourdes Beserra de Souza da Câmara de Curitiba atua no legislativo desde 2005. Dona Lourdes já foi tema de matérias na imprensa ( e aqui mesmo no Plena) por ser a mais velha parlamentar brasileira. Mas para além deste fato, o que se destaca em sua história de vida é a força de vontade e o desejo de fazer diferença na vida de outras pessoas.

Ana Vargas /Portal Plena

Em dezembro ela completou 89 anos. Segundo a biografia que consta no site da câmara, dona Lourdes “prioriza a justiça social e a defesa dos direitos dos trabalhadores e excluídos da sociedade. Natural de Santa Catarina, iniciou sua carreira profissional em Ituporanga, na Central Telefônica Catarinense. Foi transferida para Blumenau e lá permaneceu por 13 anos. Em 1959, por motivos familiares, Dona Lourdes mudou-se para Curitiba e passou a trabalhar no movimentado PABX, que funcionava na Hermes Macedo, onde atuou por 30 anos. Em sua primeira eleição, recebeu 6.438 votos. Com uma atuação de destaque, ela atribui o sucesso às ações sociais que realiza. No bairro Santa Quitéria, ela atende a mais de 80 pessoas por dia.  Na eleição de 2008, foi reeleita e deu ênfase à revitalização de ruas, praças e parques, saúde e educação. Em 2012, Dona Lourdes obteve 9.924 votos, assumindo novamente a liderança do PSB na Câmara Municipal de Curitiba”.

Foi por esta razão que nós do Plena a convidamos para ser nossa primeira entrevistada deste ano da seção “Histórias Plenas”. Dona Lourdes é uma pessoa apaixonada pela vida e pelo que faz, trabalha incansavelmente pelo bem comum e na entrevista abaixo  nos dá uma lição de engajamento social e interesse pelo cotidiano. Na foto de abertura vemos dois momentos de sua vida.

Dona Loudes, como surgiu seu interesse por política?

Quando fiquei viúva comecei meu trabalho com moradores de rua, por entender que precisava fazer algo pelo próximo. Meu trabalho ficou muito conhecido no meio político, pois eu sempre trabalhei com grupos numerosos, não somente com preocupações com relação à falta de alimento e saúde, mas com relação a falta de documentos que normalmente, o morador de rua tem. Então comecei a buscar certidões de nascimento em todo o território nacional, para que estes cidadãos pudessem ter acesso ao seus registros gerais, documentos que possibilitam acesso aos direitos constitucionais básicos, como saúde, educação e moradia. Com isso, o Dr. Luciano Ducci, deputado federal do PSB, meu partido, convidou-me a entrar para a política, concorrendo a vaga de vereadora em 2004. Com isto, vi a possibilidade de ampliar este trabalho que faço até hoje.

 No Brasil as pessoas se aposentam, em média, aos 54 anos e em uma sociedade machista como a nossa, a senhora certamente teve que enfrentar certas situações com bastante força de vontade, certo? E de onde a senhora tirou (e tira) essa força ao se candidatar a vereadora pela primeira vez aos 77 anos?

 Como disse antes, ao ficar viúva, pude realizar meu sonho de ajudar as pessoas, e a vereança foi um meio para ampliar este trabalho. Nunca senti nenhum tipo de preconceito por ser mulher, acho que pela minha idade talvez, tenho certos privilégios.

Dona Lourdes no plenário da Câmara Municipal de Curitiba. Foto: Anderson Tozato

Como a senhora lidou e lida com o processo de envelhecimento?

O envelhecimento é parte natural da vida, todos vamos passar por isso. Continuo uma mulher vaidosa, gosto de me cuidar. Mas não tenho problemas com as marcas do tempo, costumo dizer que são as estradas esculpidas em minha vida.

Nossa cultura, ao contrário da japonesa, por exemplo, relaciona a velhice ao fim da vida, mas nós do Portal Plena entendemos que esta é só mais uma etapa como qualquer outra. E a senhora, como enxerga essa questão?

Exatamente isso, é só mais uma etapa que continuamos a aprender e é necessário entender que aprendemos também com as novas gerações.

O que a senhora gostaria de falar às pessoas que estão chegando aos 60 anos, estão se aposentando e, enfim, entrando nesta fase da vida? Alguma sugestão, ‘conselho’…?

Sim, gostaria de dizer para não pararem de trabalhar. Busquem outras atividades, que tragam prazer e realizações. Já que a vida lhes trouxe até aqui, tirem proveito disso. É um presente, aproveitem enquanto estamos por estes lados.

A senhora sempre foi uma pessoa ativa? Como é sua rotina diária?

Sempre acordei muito cedo, até hoje. Acordo as cinco na manhã, tomo meu banho, me arrumo e as seis e trinta já estou atendendo as pessoas em meu escritório. Pra mim isto é vida.

 A senhora sente saudade de alguma fase da vida?

 Não, acho que vivi bem todas elas até agora.

Aos 40 anos o que a senhora estava fazendo?

Eu era funcionária da Hermes Macedo, telefonista para ser mais exata. Também era mãe de duas meninas e esposa.

Quem foi (ou é) a pessoa da qual você se recorda com carinho?

 Minha mãe, uma mulher guerreira. Era lavadeira em Ituporanga, Santa Catarina, mas me ensinou muito sobre caráter, retidão e como dividir o pão que era pouco.

Diga: uma palavra/frase que define o presente para a senhora.

 Viva hoje com alegria, amor e caridade.

 Para a senhora a vida é

…uma aventura.

  Há alguma lembrança marcante em sua vida?

Infelizmente sim. Sou mãe de duas meninas, mas Deus me levou uma delas, já adulta e no auge dos seus 40 anos. Para uma mãe é uma dor sem fim. Mas entendo que tenho que continuar minha vida e cumprir meu papel neste mundo. Se ainda estou aqui trabalhando é por algum propósito, então o faço com todo meu amor e dedicação ao próximo.

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