Releia a matéria que fizemos, há um ano, com Elke Maravilha _ envelhecer com bom humor e sabedoria é uma arte

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Há um ano tive a honra de entrevistar Elke Maravilha e descobri uma pessoa bem humorada (de verdade, ou seja, não era só um personagem da TV) , inteligentíssima, lúcida como poucos e extremamente  acessível. Este mês a morte da Elke completa um ano e para celebrar sua vida, publicamos novamente a matéria.  Veja no final um convite feito por pessoas que querem preservar a memória desta grande pessoa (e artista) que foi Elke Maravilha.

O “Histórias Plenas ‘ de hoje tem a honra de apresentar a vocês um pouquinho da exuberante personalidade de Elke Maravilha, uma pessoa tão carismática e especial que foi definida por ninguém menos que Nise da Silveira como uma “sacerdotisa dionisíaca que ilumina caminhos e aquece corações”. Mas Elke é bem mais que isso, confira!

Ana Claudia Vargas

“Elke Maravilha é uma obra de arte em constante metamorfose e como artista vem trilhando o melhor dos caminhos da arte: ela apostou e aposta no sonho possível”. 

Quem foi criança na década de setenta e assistia aos programas dominicais daquela época deve se lembrar do deslumbre que era ver a Elke Maravilha no  ‘Show de Calouros’ apresentado pelo Sílvio Santos.

Naquele tempo, sem os  sofisticados aparatos televisivos atuais, aquele programa era uma deliciosa aventura de entretenimento e o clima alegre e improvisado (típico de quase tudo que se fazia nos libertários anos setenta) conferia ao ‘show de calouros’ qualidades que faltam à maioria dos programas atuais.

É claro que os ávidos telespectadores dos ‘the voices’ da vida, talvez não achariam  graça nenhuma nos programas de tevê setentistas, mas a ingenuidade e a graça despretensiosa existentes nas produções daquele tempo, tornavam a experiência de assisti-los tão agradável que é certamente por isso que, ainda hoje, a maioria deles permanece bem viva na memória de todos nós que já passamos dos ‘enta’. 

Não há publicação sobre a tevê brasileira dos anos setenta que não mencione o show de calouros do Sílvio Santos e, caso exista alguma que não o cite, não deveria ser levada a sério porque deixar de citá-lo é quase uma heresia.

Pois é, mas a graça e a alegria do show de calouros do Sílvio devem muito à persona exuberante de Elke Grunupp que todos nós conhecemos como Elke Maravilha. Hoje vamos conhecer um pouco da história de Elke: ela nasceu em São Petersburgo, na Rússia, em fevereiro de 1945. Aos seis anos chegou ao Brasil e foi morar em Minas Gerais, na cidade de Itabira, terra do poeta maior, Carlos Drummond de Andrade. Sua biografia é riquíssima, um verdadeiro manuscrito de experiências interessantes: Elke foi modelo, desfilou para grifes famosas, é cantora e atuou em várias produções cinematográficas nacionais; mas o que se destaca em sua trajetória é sua rara capacidade de _ em qualquer trabalho que faz _ deixar que sua personalidade surpreendente, dotada de um carisma excepcional, transpareça. Talvez seja melhor recorrermos à própria descrição feita em seu site para sintetizar claramente a ‘persona’ Elke Maravilha, pois lá encontramos frases  mais que adequadas que definem Elke como:

‘Precursora de um estilo inovador, ousado e único que vem abrindo as possibilidades de caminho estético e comportamental por onde passa e aparece’;

‘Personalidade artística cujo carisma provoca forte impacto popular, tanto na imagem como na mensagem de alegria, inteligência e irreverência. Devido a isto, já faz parte do imaginário popular brasileiro e pode perfilar com mitos contemporâneos como Carmem Miranda e Artur Bispo do Rosário’;

‘Já na década de 60 despontou como símbolo de transgressão e liberação. Visionária como só os que assumem seu delírio, intuiu o movimento holístico e vem exercendo-o tanto em suas relações pessoais como em sua comunicação com o mundo” e etc. e etc.

Mas, a melhor definição de Elke foi feita pela Drª Nise da Silveira que a descreveu como uma “sacerdotisa dionisíaca que ilumina caminhos e aquece corações”. Aqui novamente volto a me lembrar do show de calouros do Sílvio Santos, pois enquanto os outros jurados deixavam alguns calouros arrasados,  Elke sempre tinha uma palavra de carinho ao dar sua opinião e, mesmo que a apresentação do fulano ou da fulana tivessem sido sofríveis; ela, sempre com um sorriso aberto, tinha uma palavra de estímulo que os deixava ao menos, mais alegrinhos ao saírem do palco (basta lembrar que Elke chama a todos de ‘criança’).

Assim, ainda que tivessem sido xingados pela Aracy de Almeida ou pelo Pedro de Lara, penso que eles (e elas) deviam sair de lá menos deprimidos depois daquela saraivada de críticas negativas.

Como sabemos, existem várias maneiras de dizer certas palavras, podemos escolher aquelas que deixam algumas situações piores do que já são, de fato, mas também podemos encarar as situações ruins com certa leveza. Isso não é negar a realidade e sim, torná-la mais digerível, ainda que o gosto seja amargo, ainda que sejamos como aquele calouro ansioso que foi a um programa de tevê dos anos setenta porque sua avó ou mãe disseram que era afinadinho

Pois, basta nos colocarmos no lugar de alguém simplório a ponto de acreditar nos elogios familiares e disposto a ‘enfrentar o mundo’ para imaginar o quanto deve ser humilhante ouvir, diante desse ‘mundo’, que você não tem talento algum.

Conseguiu se colocar na pele de alguém assim? Então, agora fica mais fácil entender que encontrar pela frente, num dia ruim, uma pessoa como Elke Maravilha pode ser uma experiência inesquecível e transformadora.

Eu tive esse prazer ao entrevistá-la e agora, divido com vocês a conversa que tivemos.

Para terminar essa abertura, vale lembrar o seguinte: Elke Maravilha faz questão de dizer que tem 71 anos, que é velha sim, e que gosta de usufruir dos benefícios dados aos mais velhos . Ela também diz abominar os chamados bailes da terceira idade porque gosta de lugares nos quais pessoas de todas as idades possam interagir, trocar ideias, enfim, ‘conviver’.

Conviver: a palavra chave

Aliás, sobre a ‘arte da convivência’ fica aqui registrada uma frase que Elke usou durante a entrevista e que está em seu site : “Eu quero é conviver! A grande arte não é viver, é conviver”! Outra frase de cabeceira da Elke: ‘todos nós temos a totalidade dentro de nós’. Esta leitora assídua do escritor (e seu conterrâneo)  Fiódor Dostoievski e do grego Nikos Kazantzákis – entre outros autores que exigem certa envergadura intelectual para que sejam compreendidos _  também adora rock pesado e é, enfim, uma pessoa especial que angaria amizades por onde passa. Talvez Elke tenha conseguido algo verdadeiramente raro e que deve ser divulgado, principalmente aqui no Plena porque queremos discutir o envelhecimento sob vários prismas: ela ultrapassou a barreira do tempo e claro, da idade cronológica; Elke criou um personagem que não tem idade, não se restringe a essa ou àquela época e portanto, não sofre do ‘mal’ do saudosismo ou dos lamentos tão comuns que ouvimos por aí e que nos dizem que a juventude é ‘a melhor fase da vida’. Para Elke, todas as fases são boas, basta que tenhamos a capacidade de vivê-las da melhor maneira possível como ela, de maneira bastante eficiente, consegue fazer. Na matéria abaixo sintetizamos mais um pouquinho da personalidade exuberante da Elke que respondeu as perguntas  que sempre fazemos aqui na sessão ‘Histórias Plenas”.

Uma lembrança marcante da infância…

Andava a cavalo todos os dias nas roças nas quais morava, lá no interior de Minas, em Itabira; tinha paixão por cavalgar e também gostava de nadar. Meu pai fez questão de nos ensinar a nadar desde cedo.

Uma lembrança da adolescência…

Me lembro de ir a um clube no qual tocavam rock’n roll, éramos uns 15 rapazes e moças, e lá dançávamos ao som de Little Richards e de outras músicas feitas pelos negros americanos, uma mistura de blues e rock que eu adorava. Quando fomos para Bragança Paulista continuei gostando de rock e com o tempo comecei a gostar também de rock pesado como Sepultura, Iron Maiden, Metallica… Também quero dizer que comecei a dar aulas de inglês com 12 anos de idade na escola União Cultural Brasil Estados Unidos e fui a professora mais jovem da escola.

“O que posso dizer é que você só conhece as pessoas profundamente depois da meia idade. Os jovens querem quebrar estruturas, mas a idade traz o autoconhecimento e favorece os relacionamentos porque podemos saber, de fato, como as pessoas são… “

Uma pessoa da qual se lembra com carinho…

Me lembro com carinho do Chacrinha, o ‘pai’; da Dra. Nise da Silveira, que foi minha grande amiga, mas tenho uma infinidade de amigos maravilhosos.

Uma lembrança do passado…

Não gosto de ficar recordando o passado porque meu tempo é hoje, nosso tempo é hoje; desde a infância à velhice, vivemos um aprendizado e por isso, todo tempo é ótimo.

… a vida não é a arte de viver e sim, de conviver!

Aos 40 anos eu estava…

Não sou muito boa para relembrar as idades que tive…O que posso dizer é que você só conhece as pessoas profundamente depois da meia idade. Os jovens querem quebrar estruturas, mas a idade traz o autoconhecimento e favorece os relacionamentos porque podemos saber, de fato, como as pessoas são.

Uma palavra ou imagem que define o presente para você…

Acho que a palavra que melhor define o presente é ‘apocalipse’, vivemos uma época de grandes transformações sociais, culturais… Basta ver que o Brasil, politicamente, também passa por mudanças drásticas…Sempre fomos considerados um povo simpático, bonzinho e isso está mudando. Aliás, apocalipse é uma palavra originária do grego apokálypsis que significa revelação; acho que estamos vivendo uma época de muitas revelações em todas as áreas e em todo o planeta. Acho que já estamos vivendo a ‘Era de Aquário’, uma fase de transição universal e democrática: hoje, como já previa Andy Warhol, todos têm seus 15 minutos de fama!

Projetos para o futuro…

Tenho saudades do futuro porque adoro surpresas…

A vida para mim é…

… a vida não é a arte de viver e sim, de conviver!

Mais curiosidades sobre a Elke:

  •    Foi professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras;
  •    Fala oito idiomas: alemão, italiano, espanhol, russo, francês, inglês, grego e latim;
  •   Foi bancária, secretária trilíngue e bibliotecária;
  •  Trabalhou como modelo e manequim e foi bastante  requisitada;
  •   Em televisão começou em 1972, com o Velho Guerreiro (Chacrinha) como jurada no “Cassino do Chacrinha”;
  •   Comandou o Talk Show “ELKE”, no SBT;
  •   Na TV Bandeirantes fez o “Quadro Esotérico” no programa Amaury Jr.;
  •  Atuou na novela “A Volta de Beto Rockfeller”, na TV Tupi;
  •  Participou da minissérie global “Memórias de um Gigolô”, com direção de Walter Avancini e etc. e etc
Conheça a Campanha que visa angariar fundos para a realização da  MOSTRA CASA DE ELKE! O projeto pretende reunir todo  todo acervo de Elke Maravilha em um só lugar situado em S.Paulo na Rua Frei Caneca, 121. A campanha está no Catarse e você pode acessá-la aqui   https://www.catarse.me/Mostra
Imagem: Divulgação
Imagem de abertura: divulgação

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