A história de Sebastião: correr para arejar a mente e ultrapassar os preconceitos

Foram os reveses da vida que levaram Sebastião para as pistas de corrida ainda na década de setenta e, graças a ela, ele se mantém saudável,  cheio de vitalidade e  disposição…

Ana Vargas 

Quem mora em Poços de Caldas, no sul de Minas, já está acostumado a ver um homem magrinho em sua corrida matinal ali pelos lados da rodoviária e do shopping, geralmente às terças e quintas-feiras  e nos finais de semana.

Sim, ele é magro e aparenta certa fragilidade, mas mesmo de longe, de passagem, é possível perceber que corre com determinação e agilidade.

Ao vê-lo, temos a impressão de que não corre somente para se exercitar, mas, por uma motivação que está para além da saúde física.

Pois Sebastião Lima nos conta que corre sim, por uma necessidade de se manter saudável, obviamente, porque considera importante manter-se bem fisicamente; mas, sobretudo, porque ‘é bom pra cabeça’.

Sebastião é alagoano, tem mais de 70 anos (que nem de longe aparenta), nasceu segundo conta, no ‘pé’ da Serra da Barriga, e imigrou para o interior paulista no fim da década de 1950. Ele diz que sempre gostou de correr e que, ‘quando era adolescente, corria para ir à padaria, corria para ir pescar, corria pra tudo! Sempre gostei de correr, era uma diversão para mim’.

Mas a história de Sebastião poderia ser somente a de mais uma pessoa que adotou a corrida como maneira de preservar a saúde e que a mantém de forma contínua, apesar de avançar dos anos, se não fosse um ‘porém’: ele perdeu um dos braços aos 20 anos e, a partir daí, sua vida mudou de forma radical.

Mas não pense você que foi para pior.

Etiqueta de qualidade

Em seu primeiro emprego em terras paulistas, Sebastião, que tinha na época 20 anos, sofreu um grave acidente de trabalho enquanto operava uma máquina. E o que se seguiu naquele final da década de 1950 é possível imaginar de forma bastante real: preconceitos e mais preconceitos. Preconceitos demonstrados por pessoas de idades e classes sociais diversas; por pessoas com muito ou nenhum estudo e assim por diante. É bom lembrar que naquela época os deficientes físicos eram literalmente (e descaradamente) excluídos, eram quase invisíveis socialmente e isto não era considerado ‘errado’. Era assim que o sistema social funcionava e pronto.

Diante disso, tente se imaginar na pele de alguém que aos 20 anos, cheio de sonhos e projetos, sofre um acidente grave, perde como ele mesmo ressalta ‘ a metade de sua defesa’ e ao buscar oportunidades de trabalho se vê excluído simplesmente por não ter um dos braços. Sebastião diz, por exemplo, que ao tentar prestar um concurso público, ouviu de forma direta e sem rodeios o seguinte:  ‘não precisa nem se inscrever, pois, mesmo que você passe não vai poder trabalhar’.

Ele também conta que recentemente, durante o curso universitário que fez _ ele é formado em Ciências Jurídicas pela Unipinhal _  ao ouvir  de um professor que ele deveria ser parabenizado por sua deficiência, pois é uma pessoa determinada, respondeu que sua ‘deficiência’ é, na verdade, uma ‘etiqueta de qualidade que não se encontra em qualquer lojinha, só nas grandes butiques’.

Hoje, depois de ter ouvido tantas bobagens relacionadas ao fato de ter perdido o braço, ele  parece lidar de forma bastante simples e natural com as frases  quase sempre jocosas ou inadequadas (ainda que, às vezes, possam ser bem intencionadas) que ouve constantemente. Na verdade, Sebastião parece ter desenvolvido _ e isso se deve à corrida, segundo ele_ a capacidade de suportar adversidades, de manter a mente arejada e leve e isto é importantíssimo para alguém que costuma receber olhares piedosos de pessoas que nem de longe suportariam ou ultrapassariam as barreiras que ele ultrapassou e ultrapassa todos os dias.

Correndo para não enlouquecer

Foi em 1974, ou seja, há 43 anos, que Sebastião Lima começou a correr de forma constante. Ele diz ter sido levado por uma ‘necessidade psicológica’ pois, se não corresse, enlouqueceria. Sebastião afirma que correr é uma atividade tão importante para ele que o condiciona não só fisicamente, como também ‘mentalmente’.

‘Quando corro me sinto condicionado, disposto a resolver os problemas que surgem. Minha mente trabalha de forma mais objetiva. Eu aconselho a qualquer pessoa: corra, se exercite, pois assim, você estará capacitado a resolver os problemas que surgirem’, ressalta. Ele também destaca que a corrida lhe proporcionou uma melhora geral em todos os aspectos e que se sente como se tivesse, no máximo, 40 anos. Inclusive, isto foi comprovado em uma ressonância magnética que fez recentemente: o próprio médico lhe disse que seu cérebro parece o de uma pessoa dessa faixa etária. Talvez seja por isso que Sebastião afirma que se sente jovem e que a ideia da ‘velhice’, ainda não apareceu.

A história de Sebastião Lima só vem comprovar mais uma vez, que existem muitas espécies de deficiências  mas ele, na verdade, não tem nenhuma. Afinal, quantas pessoas saudáveis você conhece que conseguiriam seguir adiante, mesmo enfrentando diariamente, preconceito e exclusão? Talvez possamos ‘dizer’ que as deficiências mais graves são  aquelas que excluem pessoas como Sebastião e que, apesar dos notáveis avanços legais, ainda não conseguiram mudar a mentalidade geral que nos faz acreditar que deficiente é somente aquela pessoa que exibe, fisicamente, alguma limitação física. Quantos  há por aí que escondem seus preconceitos variados ou que  revelam sem nenhuma dificuldade, suas intolerâncias raciais, religiosas, morais e tantas outras?  Estes não seriam também ‘deficientes’? Fica aqui a pergunta.

Para terminar a gente deixa aqui um recado do Sebastião aos leitores do PortalPlena: “corram pelo menos meia hora por dia, façam exercícios físicos! Isso não é bom só para o corpo não! Para a cabeça também!”.

Sebastião em números: 

Ele já participou de 25 maratonas, entre as quais, duas  super-maratonas; várias maratonas e meias maratonas. Já  participou de 12 corridas  São Silvestre e também participa da ‘Volta ao Cristo’ _ evento anual que acontece em Poços de Caldas  _ desde 1984.

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2 de comentários

  1. O Sr. Sebastião é um bom exemplo para aqueles que passam a vida a “correr” atrás de desculpas por não fazer, não reagir.
    Parabéns e obrigada a ele pela inspiração.

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