Casal de idosos viaja durante 326 dias de Sorocaba ao Alasca

No dia 13 de março de 2017, os professores aposentados Darci Rodrigues Rodrigues, 74 anos, e sua esposa Elza Aparecida do Prado Rodrigues, 71 anos (que completarão 48 anos de casados em 11 de julho) iniciaram uma viagem que duraria 326 dias, percorrendo 55.087 quilômetros, de Sorocaba até a cidade de Fairbanks, no Alasca.

Publicado originalmente no Jornal Cruzeiro do Sul – Por Cida Vida*

Viajaram num veículo Ford Furglaine, ano 87, adaptado como motor-home, contendo um fogão, uma pequena pia, uma cama, armários, e um banheiro anexo (sem chuveiro). O suficiente para uma dupla que viajou anteriormente por todo o Brasil (num Fusca, em 1970) e pela América do Sul (num motor-home, em 96), até a Patagônia, optando por acampar ou pernoitar com o veículo em postos de combustíveis e estacionamentos de grandes varejistas, como o Walmart, ao invés de viajar de ônibus ou avião e se hospedar em hotéis.

Darci e Elza sempre gostaram de acampar e de praticar caravanismo (acampar tendo como abrigo um veículo). Quando ainda trabalhavam, aproveitavam as férias para conhecer as capitais brasileiras e outras cidades, ficando em campings. O espírito de aventura levou-os a morar um ano e meio na Espanha (alugaram um carro e percorreram o país sobre rodas) e seis meses na Austrália e Nova Zelândia, onde também “moraram” em campings.

 

 

O Furglaine 87 já transportou Darci e Elza para muitos lugares, em viagens repletas de momentos emocionantes. Ele, no volante o tempo todo; ela, monitorando os mapas rodoviários – ERICK PINHEIRO 

Ir para o Alasca de carro era um sonho antigo do casal. Na rota de Sorocaba (Brasil) até o extremo das Américas, trafegaram pelas rodovias do Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, México, Estados Unidos e Canadá, até entrar na Alasca HighWay, a caminho de Anchorage e depois Fairbanks, onde ficaram por 26 dias. Na volta, incluiram no roteiro passagens por El Salvador (na América Central), Chile e Argentina (América do Sul), antes de entrar no Brasil por Santa Catarina. Todas as fronteiras foram atravessadas de carro. O único trecho da viagem feito de avião foi de Cartagena (Colômbia) para a Cidade do Panamá, capital do Panamá (trecho no qual o carro foi transportado de navio).

Ambos são vegetarianos e, durante toda a viagem, prepararam a própria comida no fogão instalado no Furglaine. Darci dirigia o veículo, enquanto Elza monitorava os mapas (impressos) que os orientaria pelas estradas. Nada de GPS. De tempos em tempos, uma pausa para fotografar a paisagem e as surpresas que encontravam pelo caminho. A família e os amigos acompanharam essa aventura sobre duas rodas pelo Facebook e os celulares garantiram as fotos. Chegaram ao Alasca no dia 13 de junho de 2017, três meses após a partida de Sorocaba. “Quando tiramos a foto da placa que indicava o início da Alasca HighWay, já foi emocionante”, conta Darci. Ele detalha que escolheram passar praticamente um mês no Alasca no verão do Hemisfério Norte (temperaturas entre 12 e 20 graus) e deixaram o território no período de inverno, quando a neve já cobria as pedras, os lagos e as montanhas dos caminhos percorridos. “No verão, o sol praticamente não se põe. Ele começa a desaparecer em torno de 4/5 horas da manhã, para logo reaparecer uma ou duas horas depois”, relata Darci. “Em Fairbanks há duas pequenas montanhas, uma de cada lado da cidade. O sol desaparecia de um lado, dava uma voltinha e surgia do outro. Como se estivesse brincando de esconde-esconde”, comentou. ”

Fairbanks tem cerca de 40 mil habitantes e Darci e Elza conheceram a cidade toda caminhando, interagindo com as pessoas. “Ali, ficamos no estacionamento do Walmart, que funcionava 24 horas. Perto havia um posto de informações turísticas com cartazes de toda a região. Também apresentavam danças típicas. Gostamos muito”, afirma Darci, acrescentando que também caminharam bastante por Anchorage, próxima de onde está o maior porto do Alasca e do aeroporto.

“Era o nosso objetivo chegar até o Alasca passando pelo Grand Canyon, nos Estados Unidos, e conhecer também parques como o Yellowstone (EUA), Jasper (Canadá) e Denali Park (Alasca), entre outros. Já tínhamos ido para Ushuaia, na Antártida, e chegamos ao outro extremo da América, no Alasca. Ficamos bastante emocionados e, nesse quase um mês lá fizemos várias amizades”, conta Elza. “Localizado no Estado do Arizona, o Grand Canyon tem ao fundo o rio Colorado. Apresenta camadas de rochas coloridas e muitos turistas param ali para observar a beleza do lugar. São belas paisagens que podem ser vistas de vários pontos de observação”, conta Darci. Ainda nos EUA, na Rota 66, pode apreciar vários carros antigos numa exposição. 

Na passagem pelo México, as cidades coloniais encantaram o casal e, na Guatemala, assistiram rituais da cultura maia e indígena, e o pagé atendendo pessoas; as Ilhas de Boca del Toro, no Panamá, as paisagens naturais da Costa Rica, as cidades de Cuenca, no Equador, Cusco (Peru), o deserto de Atacama, no Chile, e as cidades do norte da Argentina, também estão entre as melhores lembranças da viagem.

 

No México, Elza e Darci escaparam de furacão e terremoto – ACERVO PESSOAL

O charme do Furglaine e as surpresas no caminho 

 

O Furglaine 87 chamava a atenção das pessoas por onde passava e houve até quem quis saber mais sobre o motor-home e se surpreendeu pela idade do veículo: 30 anos. “Então, você é mecânico?”, perguntaram a Darci. “Mais ou menos”, respondeu o sorocabano, para quem o Furglaine não é apenas um veículo mas um autêntico companheiro de viagens e de momentos de muita emoção.

A curiosidade do casal de turistas e seus filhos sobre a procedência de Darci e Elza e o veículo que os transportava foi satisfeita num posto de combustíveis no Canadá, próximo ao Watson Lake, também um dos lugares mais bonitos por onde passaram e que fizeram questão de perpetuar em fotos.

Uma pausa no percurso para apreciar a beleza da paisagem do Lake Louise, no Canadá – ACERVO PESSOAL

“Pequenos” contratempos 

Uma viagem tão longa teve registros também de pequenos contratempos, como quando quebrou o para-brisa do carro no Canadá, sem condições de ser substituído por conta do modelo.

Tivemos pequenos problemas e houve até um momento em que o carro precisou ser guinchado, porque começou a falhar. Troquei o filtro de combustível, mas mesmo assim o carro não funcionava. O velocímetro também quebrou e as distâncias foram anotadas a mão”, disse Darci, admitindo que conhece bem o carro e sabe como resolver desajustes. 

 

Outros momentos marcantes (e preocupantes também). Em setembro, no retorno ao Brasil e ainda em território mexicano, por pouco não tiveram que enfrentar um furacão. Passaram pela região pela manhã e os ventos fortes começaram à tarde. Do terremoto também só tiveram notícias, não os atingiu. Mas, na Nicarágua, “num certo trecho da rodovia, parecia o mar com o carro no meio”.

Muitos outros momentos de emoção Darci e Elza vivenciaram nesta viagem ao Alasca e que podem ser conferidos no Facebook do casal. Apesar da gostosa sensação de volta para casa (retornaram em março último), já estão pensando em viajar novamente para a Patagônia, desta vez, com um casal de amigos. Antes, Darci participará, em novembro, da 3ª Feira Internacional de Campismo e Caravanismo e da Expo Motor-Home, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. “Se meu Furglaine falasse, teria muito mais histórias para contar”, finaliza Darci.

Na chegada ao Alasca, a alegria de ter mais um sonho realizado – ACERVO PESSOAL

* Matéria reproduzida com autorização.

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