Mirian Goldenberg: uma visão lúcida e abrangente que torna a velhice visível e viável

A antropóloga e escritora, Mirian Goldenberg, acabou de lançar mais um livro a respeito de um assunto que tem sido tema constante de suas muitas pesquisas: a velhice. Esta nova obra intitulada “Porque os homens preferem as mulheres mais velhas”  analisa, por meio deste tipo de relacionamento, os variados preconceitos que surgem, mas que conforme verificou a autora, fortaleceram o vínculo entre os casais que vivem nesse contexto. Em tempos nos quais o fato de que o novo presidente francês se tornou mais comentado por ter uma esposa mais velha do que por sua proposta política; é bom e necessário discutirmos sempre os aspectos que envolvem a velhice, pois como vemos, o preconceito ainda existe e resiste mesmo em um país plenamente desenvolvido como a França.

Na entrevista abaixo, Mirian fala sobre o novo livro, mas também sobre outras questões relativas ao envelhecimento e aos muitos desafios culturais, sociais e econômicos que esta fase da vida impõe para todos nós, enquanto indivíduos, e para a sociedade como um todo.

Ana Vargas

Mirian você acredita que estamos vivendo uma ‘revolução da longevidade’? Explico: o fato de que viver mais se tornou uma realidade parece estar ‘obrigando’ a sociedade a repensar o modo como enxerga a velhice. Isto faz algum sentido?

Faz sim. Sempre digo que a revolução do século passado foi feita pelas mulheres. A deste século está sendo feita pelos velhos. A mesma geração que nos anos 1960 revolucionou os comportamentos sexuais e conjugais, está transformando a forma de envelhecer. Não é só viver mais, é viver mais com mais liberdade, felicidade e dignidade.

Mas, apesar dessa ‘exigência’ ainda muito tímida, a velhice continua sendo um tabu tão ‘terrível’ quanto a morte e a própria palavra ‘velho’ já suscita constrangimento em algumas pessoas. Queria sua opinião sobre isto, porque a velhice é tão assustadora?

No Brasil, o corpo jovem é um verdadeiro capital. Homens e principalmente mulheres investem neste corpo-capital e enaltecem a juventude como a melhor fase da vida. O que não é verdade, de acordo com inúmeras pesquisas. O medo de envelhecer está relacionado a esta perda de capital, de valorização. As mulheres falam muito da invisibilidade social que a velhice provoca. E quem quer ser invisível?

 Um dos fatores que tem impulsionado mudanças (ainda quase imperceptíveis) na forma que se encara a velhice, é o mercado de trabalho. A necessidade de voltar ao mercado, por razões variadas, têm exposto o preconceito que existe contra os mais velhos que tentam regressar ou ingressar em uma nova carreira. Você acredita que as queixas dos mais velhos podem (ou poderiam) ‘obrigar’ os empresários a repensarem seus modelos organizacionais?

Mais cedo ou mais tarde a sociedade como um todo irá perceber que os mais velhos têm muito a contribuir, no consumo, no mercado de trabalho, nas instituições em geral. Se hoje podemos viver até quase 100 anos, não dá para aceitar que dos 60 até a morte seremos invisíveis, ignorados, desprestigiados socialmente. Muitas empresas já perceberam que os mais velhos são mais comprometidos, mais apaixonados, mais dedicados, mais disponíveis, mais cooperativos, mais, mais, mais… Junto com a idade ganhamos muitas outras características extremamente positivas para o mercado de trabalho. É só uma questão de tempo que as empresas percebam que a pessoa mais velha faz muita diferença.

“No Brasil, o corpo jovem é um verdadeiro capital. Homens e principalmente mulheres investem neste corpo-capital e enaltecem a juventude como a melhor fase da vida. O que não é verdade, de acordo com inúmeras pesquisas. O medo de envelhecer está relacionado a esta perda de capital, de valorização. As mulheres falam muito da invisibilidade social que a velhice provoca. E quem quer ser invisível?”

 

A imprensa sempre divulga de forma intensa, notícias sobre idosos que são modelos, que conseguem se manter belos e ‘apesar’ da idade etc. Você não acha que esses fatos chamam tanto a atenção porque estes idosos parecem ter conseguido envelhecer sem expor o lado decadente da velhice? Ou seja, estão velhos,  mas lutam para se manter em forma e parecerem mais jovens e assim são aceitos de forma mais ‘fácil’?

Acho que a imprensa tem divulgado diferentes maneiras de envelhecer, algumas mais positivas, outras nem tanto. A velhice passou a ser uma questão importante para a mídia, saiu da invisibilidade. O interesse pelo tema mostra uma maior consciência de que todos somos ou seremos velhos, hoje ou amanhã. Vejo de uma forma muito positiva a divulgação deste debate, talvez o maior desafio para os brasileiros. A reforma da aposentadoria alertou a todos que a velhice pode ser um problema muito sério se não nos prepararmos desde jovem. No livro A BELA VELHICE eu mostro que a beleza da velhice não está necessariamente na aparência do corpo, mas nos projetos de vida de cada um de nós.

Na palestra que você fez na CPFL você disse que a mulher brasileira quando envelhece fica loira e isso é mesmo algo bastante comum. Penso que ficar ‘loira’ quando se envelhece (ainda que nunca se tenha sido loira) é uma opção bastante ‘triste’ porque a mulher nega sua própria identidade ao optar por essa forma que considero radical, de esconder sua velhice… Gostaria que você aprofundasse este assunto.

Acho que a liberdade de escolher a forma de envelhecer é o mais importante, não a cor do cabelo. Podemos ser loiras, morenas, grisalhas… tanto faz. O mais importante é perceber que essa fase da vida deve ser vivida sem rótulos e preconceitos, de acordo com o desejo de cada um.

 

“O Brasil não é mais um país de jovens. É, cada vez mais, um país de velhos. Velhos que estão inventando uma forma de envelhecer mais livre, mais bela e mais feliz”

 Sobre seu último livro ‘Porque os homens preferem as mulheres mais velhas?”  você disse que as mulheres mais velhas quando ao lado de homens mais jovens, são reconhecidas socialmente como ‘superiores’ pelas mulheres  jovens e que elas desejam este reconhecimento já que não tem mais o benefício da juventude. Diante disso, pergunto: essa superioridade também é ou seria uma forma de envelhecer de maneira socialmente aceitável?

As mulheres mais velhas que pesquisei transgridem os tabus e os preconceitos associados à idade. Elas vivem relações fora do padrão socialmente legítimo e precisam enfrentar inúmeras acusações. Por isso, seus casamentos acabam sendo mais equilibrados, felizes e satisfatórios, já que o casal precisa lutar muito para ficar junto. Assim, evitam os desgastes, as brigas e implicâncias tão presentes nos casamentos mais tradicionais. De certa forma, elas acabam abrindo caminhos para que as mulheres tenham mais liberdade de escolher relações que fogem do modelo tradicional.

Foto: capa do livro recém lançado/divulgação

 Para terminar: em matéria de velhice, quando comparamos a visão social que se tem dela no Brasil com países mais desenvolvidos, estamos muito atrasados? Você poderia falar brevemente sobre isto? Dar algum exemplo?

Este debate apenas começou no Brasil e o caminho é muito longo. No entanto, pela quantidade de palestras e entrevistas que tenho dado sobre a invenção de uma bela velhice percebo que a consciência e a reflexão sobre a questão aumentaram muito rapidamente. O Brasil não é mais um país de jovens. É, cada vez mais, um país de velhos. Velhos que estão inventando uma forma de envelhecer mais livre, mais bela e mais feliz.

Mirian Goldenberg  é Antropóloga e Professora titular da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Também é autora dos livros  A BELA VELHICE, VELHO É LINDO!, COROAS, CORPO, ENVELHECIMENTO e FELICIDADE e POR QUE OS HOMENS PREFEREM AS MULHERES MAIS VELHAS?

Foto Mirian Goldenberg: Arquivo Pessoal.

Para saber mais sobre o novo livro de Mirian, acesse aqui.

2 comments

  1. Gostei dos panoramas trazidos na matéria. A idéia de transgredir tabus e preconceitos torna-se cada vez mais necessária para um viver melhor. A lição de projetar a vida trazida no texto justifica que não basta viver muito, tem que viver bem.

    Parabéns, Ana Cláudia.

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