O livro CONTOS DE ANTES, escrito pela editora do Portal Plena, é semifinalista do prêmio Oceanos de literatura da língua portuguesa

Equipe Plena

O Oceanos-Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, organizado pela Fundação Itaú Cultural, é considerado um dos prêmios literários mais importantes entre os países de língua portuguesa, a par do Prêmio Jabuti ou Prêmio Camões, sendo considerado o equivalente lusófono do britânico Man Booker Prize. (Fundação Itaú)

Na versão de 2020, o livro “Contos de Antes”, escrito pela editora do Portal Plena, Ana Vargas, ficou entre os semifinalistas.

Foram 1872 mil livros inscritos de todos os países lusófonos.

E o livro “Contos de Antes” ficou entre os 37 semifinalistas.

Em dezembro os três finalistas serão conhecidos.

Parabéns Aninha. Baita orgulho para todos nós que compartilhamos nosso cotidiano com você.

Conheça um dos contos do livro:

Doze 

“Não quero crescer nem agora, nem amanhã, nem nunca!” A poeira da rua é fininha, entra nos olhos e a gente não enxerga mais nada.  O vento que a levanta e a dispersa pelo ar leva para longe essa tarde, esse tempo, essa vida de hoje, esse corpo imaculado do presente, certa inocência tênue que se parece com o vento que apenas envolve, sem tocar, a paisagem de muitos matizes daqui: desde estas árvores enormes de troncos fortes como rochedos e copas frondosas às flores mais frágeis e singelas, aquelas que alguns pisam sem sequer perceber.

Pois este vento pode ser rude ou imperceptível mas é, sobretudo, verdadeiro, como tudo o mais que existe dentro desse instante (o mínimo e pulsante momento que parece talhado na exatidão que tudo mais deveria ter: esta menina, a vida que a define e os sonhos da noite e do dia que ela tece, ainda que, nem de muito longe, saiba).

Ela, no auge dos seus doze anos, afirma com uma certeza genuína e franca – ela também é criatura talhada na exatidão, como o vento – e fincada no incerto _ porque como ele, ela também se dispersa e vaga por aí _ apenas isso: que não quer crescer. Seu corpo é provisório como os devaneios provocados pelo frescor deste vento quando seus amuos vindos, não se sabe de onde, encontram pelo caminho certas pessoas mais emotivas e dadas a nostalgias; mas ela é assim, desse jeito inocentemente belo e por isso, tão graciosa, somente hoje; essa leveza que inspira sonhos juvenis que ainda estão sendo sutilmente construídos e por isso vai demorar para que sejam postos à prova. Isso ainda é suposição e essa incerteza alivia quem a vê correndo em meio à poeira da rua, a cabeleira solta, as pernas fininhas, e pensa “essa menina poderia ser pássaro, nuvem ou pétala de flor, qualquer flor…”.

Seu corpo é magrinho como uma vara de bambu (e o irmão faz questão de alardear isto todo dia, para irritá-la), seus cabelos escorridos pela “cara abaixo” estão sempre esvoaçando à frente do rosto como se quisessem se libertar, e seus olhos estão sempre perdidos lá, entre os montes azuis-esverdeados e lá, mais distantes, além; nos vastos céus de cores sempre misturadas e nunca definíveis que cobrem aquele seu mundo.

E quando ela ri a gente acha que todas as mulheres deveriam parar de crescer aos doze; porque é bonito de uma beleza entranhada entre a adolescência que apontará dali a pouco e a infância, que ainda persiste numa covinha que surge inesperada nas bochechas sujas ou no olhar que se surpreende diante de atrocidades grandiosas como o encontro de formigas e abelhas pisoteadas no caminho entre a horta e o quintal.

 Hoje de manhã ela acordou e ouviu um barulhinho metálico e ela ainda sonhava e por isso custou a se desvencilhar do sonho; era ainda tão cedo mas o barulhinho parece que a chamava convidando-a a se por de pé rapidamente e a correr para descobrir sua origem. E então ela limpou os olhos, jogou para lá os restos pegajosos do sonho inacabado; a casa escura, a porta da sala entreaberta, um fio de luz alongado no chão, seus pés avançando para a porta ensolarada – a cidade cintilava dentro do dia real; sim, aquilo tudo era real _ a névoa do outono pousada sobre o arremedo de um jardinzinho em construção e ela finalmente descobrindo de onde vinha o barulho como quem encontra calmamente o segredo de toda uma vida: pois era o pai que, no jardim, plantava novas mudas de suspiro e batia com a enxada nos cascalhos mansamente, mas tão mansamente, que até a tirou de seus sonhos de menina de doze anos.

Sentou-se no passeio cimentado, pés descalços sobre a terra orvalhada e ficou olhando para o pai e ele a olhou e sorriu e ela pensou “Deus ajude que eu pare de crescer agora! Deus…”
As mudinhas do suspiro rosa estavam murchas, pendentes e ela ficou com medo de que sequer aguentassem até o final do dia mas elas agüentaram sim, até o entardecer, e resistiram muitos dias mais e se tornaram, anos depois, um matagal que precisou ser cortado porque a mãe começou a achar, sabe-se lá porquê, que suspiros eram flores ‘de cemitério’; mas não avancemos nos dias pois que, agora, a menina está sentada na calçada, ela tem doze anos somente e acha que seu pensamento – se ela pensar muito e se ela se esforçar e até fechar os punhos com ardor _ poderá deter as horas e os dias e quem sabe, poderá fazer com que aquilo que move o tempo, se detenha e apenas, se detenha.

Porque esta menina quer ser menina de doze anos para sempre: ela diz que não quer seios pontudos, não quer que os homens a olhem de maneira diferente (com ‘olhos de fome’, como diz tia Francisca de um jeito pensativo e meio assustador), quer ser assim, magrinha e levezinha como uma pena de galinha d’angola que se soltou e voou pelos ares livremente sobre quintais, povoados, pastos, pontes, córregos, casas, igrejas e praças.

 Olhando a manhã que avança, uns restos daquele sonho inacabado ainda nos olhos – mas ela já sabe que poderá retomá-lo: às crianças ainda é dado este poder _ os pés fincados na terra avermelhada e dura; as montanhas ao redor cobertas da neblina dos fins de tarde adquirem tons lilases que depois vão se alternando lentamente até que desaparecem sob a escuridão noturna _ ela tece mistérios caladinha e tensa como são os que vivem a meio caminho entre os sonhos e as realidades.

 À tarde haverá as brincadeiras na rua, as caminhadas pelos quintais vizinhos – os bosques densos nos quais ela e os outros meninos e meninas andam sobre regatos de águas geladas caçando borboletas extraordinárias e desbravando terras perigosas – haverá todo um universo imaginário a ser verificado e nomeado para que, depois, fique pra sempre na memória da menina: a matéria da resistência.

 Quando a noite chegar vagarosa e pacífica, quando a grande colcha estrelada deixar que se enxergue apenas o topo dos morros e pousar mansamente sobre as casas e as ruas da sua cidade, a menina olhará pela janela e verá bem mais que estas luzes que agora cintilam aqui e ali como pequenas lamparinas parecidas com aquelas que a vó Elidia acende quando chove muito e caem raios dos céus e a cidade fica sem luz nos postes e dentro das casas _ é que para ela, exata nos seus doze anos, tudo é, ainda, permitido.

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