O solitário cotidiano dos idosos na Alemanha

Pesquisa mostra que 20% dos alemães com mais de 85 anos se sentem sozinhos. É o índice mais alto entre todas as faixas etárias. Para combater a solidão, associação organiza encontros entre voluntários e idosos.

Publicado originalmente no  Deutsche Welle

Anne Blum sempre foi uma mulher muito ativa e que resolvia os próprios problemas. Mas, hoje em dia, tudo é diferente: com 86 anos, ela sente tonturas com frequência e não consegue mais andar tão bem. Por isso, passa a maioria dos dias sozinha no seu apartamento em Colônia, no oeste da Alemanha. Sete anos atrás, Blum perdeu o marido com quem estava casada há meio século. Desde então, sente falta de uma pessoa próxima: “Às vezes, me sinto ok, mas também há dias mais difíceis, em que o tempo não passa.”

A história de Blum não é um caso isolado. Segundo um estudo publicado neste ano, 14,2% das pessoas com idade entre 75 e 85 anos e 20% das com mais de 85 anos se sentem solitárias na Alemanha. Maike Luhmann, professora de psicologia e coautora do estudo, observa: “Existe solidão entre outras faixas etárias também. Por exemplo, percebemos índices mais altos em pessoas de 30 anos, e nas de 55 anos. Mas a velhice claramente é a idade de maior solidão.”

Há vários fatores que favorecem isso. A solidão é, em outras palavras, a sensação de falta de contatos sociais. Segundo Luhmann, as causas mais importantes são a mobilidade reduzida e problemas de saúde, pois isso limita as atividades dos idosos, e eles não conseguem mais sair de casa para cultivar contatos.

São exatamente essas pessoas que Ria Ostwald quer alcançar. Ela é coordenadora da associação de apoio aos idosos Freunde alter Menschen (Amigos de pessoas idosas), em Colônia: “Organizamos encontros entre pessoas velhas e voluntários mais jovens.” Os voluntários podem visitar os idosos em casa ou levá-los para fazer algo como cozinhar, jogar, ou simplesmente conversar. O objetivo desses encontros é estabelecer uma relação de amizade que deixe os idosos menos solitários.

Segundo Ostwald, entre os que procuram a associação, há muitos que perderam o parceiro e/ou os amigos, assim como Blum. Há pouco tempo, ao ver um prospecto, ela ligou para a associação num gesto espontâneo e o primeiro encontro com uma voluntária aconteceu na semana passada: “Foi muito legal, conversamos bastante e vamos nos encontrar de novo em alguns dias.”

Hans-Gustav (dir), de 79, e David, de 26, se conheceram por meio da Freunde alter Menschen e são amigos há dois anos.

Sociedade moderna e solidão

A maneira como as pessoas vivem mudou muito nas últimas décadas. Há uma grande individualização e as pessoas se mudam com maior frequência e para mais longe. Muitos acham que essas mudanças aumentam a sensação de solidão. Segundo Ostwald, antigamente idosos viviam sob o mesmo teto com os filhos e os netos, ou pelo menos na mesma cidade. Hoje em dia, muitos vivem distantes da família, e os filhos não têm tempo para visitá-los. Embora não tenha dados científicos para provar isso, Luhmann vê uma relação entre essas mudanças na sociedade e a solidão.

É claro que não existe uma receita contra a solidão na velhice. Mas a psicóloga recomenda que, enquanto ainda se tem saúde, se estabeleçam laços sociais. Ela acha também que o assunto não deve ser estigmatizado. Principalmente homens têm muita vergonha de admitir que se sentem solitários. Por isso, quase todos os idosos que procuram a associação de Ostwald são mulheres.

Luhmann ainda diz que ofertas de atividades – assim como as da Freunde alter Menschen – podem ser uma grande ajuda para idosos solitários. Mas, segundo Ostwald, não apenas os idosos se beneficiam disso: “Quem passa tempo com uma pessoa mais velha, também pode aprender muito com ela. Vejo esse trabalho como enriquecimento, e não como ato de piedade.”

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