Ruth Sica: o novo rosto do idoso brasileiro (embora o Brasil não queira enxergá-lo)

Como você já deve ter lido em várias publicações, em 30 anos teremos no Brasil mais idosos do que jovens.  Aqui no Plena, falamos disso de forma insistente (leia aqui e aqui).  É que, apesar dos tantos problemas políticos que temos enfrentado e que afetam (direta ou indiretamente) as questões sociais, de forma geral,  nosso país conseguiu avançar em alguns aspectos entre os quais está a melhoria da qualidade de vida.

Ana Vargas

E esta melhoria, por sua vez, elevou a longevidade do brasileiro: a cada ano vivemos mais e isso tem ocasionado mudanças em vários setores (além da saúde pública), que precisam se adaptar para receber pessoas cada vez mais velhas que requerem cuidados específicos.

É claro que a longevidade é uma conquista universal que deveria ser celebrada, pois o desenvolvimento de novas tecnologias na área científica, a difusão de informações sobre qualidade de vida, entre outros fatores,  estão  impulsionando mudanças em relação a ‘tudo’ que envolve a velhice.

E, se vivemos  neste começo de século conscientes de que a sociedade está  sendo obrigada a repensar o preconceito que ainda existe e resiste em torno de questões como homossexualidade ou raça, a velhice também precisa ser incluída na ‘lista’ de temas que devem ser encarados de forma mais libertária e natural.

Mas, na prática, sabemos que não tem sido assim. A visão que se tem da velhice ainda é recoberta de clichês e tabus e é preciso discutirmos isso, constantemente.

A história de Ruth 

Vide a história de Ruth Sica, uma paulistana que nunca temeu encarar preconceitos ligados à idade, que  fez uma faculdade de Tradução  aos 50 anos e que sempre teve uma jornada dupla de trabalho  até se aposentar. Hoje, com mais de 70 anos de idade, ela está terminando a segunda graduação em Turismo e Hospitalidade porque, após uma temporada na Alemanha, há alguns anos, confirmou que seu grande sonho era mesmo viajar, conhecer outros lugares e culturas e foi este sonho que a levou a buscar a segunda graduação.

Em conversa com o Plena, Ruth nos conta que nunca foi ‘de ficar parada’ e que não se aposentou para ‘ficar em casa vendo TV’, algo bem raro e louvável, diga-se.

Foi esta essa vontade contínua de aprender e conhecer novas culturas e lugares que a levou à segunda graduação, pois segundo ela, dessa forma ela pretende unir profissão e paixão. Nada mais simples, aliás,  e tudo seria perfeito se não fosse um ‘porém’: agora que está na reta final do curso, Ruth precisa fazer estágio em sua área para se formar mas, até o momento, ela ainda não conseguiu encontrar uma empresa que a contrate, pois quando ela informa sua idade…

 

É ela quem nos conta: “No momento eu e mais dois colegas estamos elaborando o TCC e o tema é ‘Turismo Idiomático’, com destaque para a língua Espanhola. Agora que estou quase me formando, estou pretendendo ser Guia de Turismo para grupos da Terceira Idade. Vai ser difícil, pois há necessidade de outro curso especializado para isso e é pago. Seria meu maior sonho!    Mas no momento estou passando por um desafio maior:  conseguir um estágio de 200 horas. Não é um emprego    é um    estágio!     Mas infelizmente no país em que vivemos, sem moral alguma para ter preconceitos, são negadas chances para pessoas que passaram da idade que foi estipulada pelo preconceito.   E esse estágio deve ser concluído ainda  este  ano, pois sem ele não posso me formar. Alguns apareceram,  mas sempre muito distantes e não ofereceram condições para que eu pudesse alcançá-los dentro do horário e do meu itinerário.  Tenho procurado em vários setores, sou bem recebida com simpatia, mas quando ficam sabendo minha idade, o sorriso se apaga, a fisionomia muda e a resposta é aquela frase costumeira :  “Aguarde  que entraremos em contato”.

“No momento eu e mais dois colegas estamos elaborando o TCC e o tema é ‘Turismo Idiomático’, com destaque para a língua Espanhola. Agora que estou quase me formando, estou pretendendo ser Guia de Turismo para grupos da Terceira Idade. Vai ser difícil, pois há necessidade de outro curso especializado para isso e é pago. Seria meu maior sonho!    Mas no momento estou passando por um desafio maior:  conseguir um estágio de 200 horas. Não é um emprego    é um    estágio!     Mas infelizmente no país em que vivemos, sem moral alguma para ter preconceitos, são negadas chances para pessoas que passaram da idade que foi estipulada pelo preconceito…”

 

Somos todos iguais

Diante do relato de Ruth, vemos que as empresas ainda não assimilaram o fato de que haverá cada vez mais idosos em busca de uma recolocação ou mesmo, uma colocação profissional. E veja: no caso dela, nem seria uma vaga e sim, um estágio, uma oportunidade (e uma exigência) para experienciar o aprendizado acadêmico. A história de Ruth comprova o grande paradoxo no qual o Brasil já está sendo lançado, ou seja, não é preciso que esperemos os tais 30 anos alardeados nas pesquisas: sim, é certo que haverá cada vez mais pessoas acima dos 60 anos procurando emprego por razões variadas, mas, a pergunta que precisa ser respondida é: haverá empresas dispostas a contratá-las?

Contudo, apesar dos percalços que tem enfrentado, Ruth Sica tem seguido em frente com ânimo porque ela sempre foi assim e está acostumada a superar desafios. Segundo ela, preconceitos relacionados à sua idade no ambiente acadêmico, por exemplo, se existiram, ela sequer os notou. “Ao voltar a estudar, só tive incentivos  da família  e dos amigos. E se isso não houvesse, voltaria do mesmo modo.   Na faculdade já estava preparada para algum preconceito que por acaso viesse a acontecer, mas depois de um leve espanto, os colegas ficaram amigos e nunca houve preconceito.  Mesmo fora da faculdade quando isso acontece, sei como ignorar e perdoar a ignorância.   Desafios são iguais para todos. Na faculdade é preciso estudar muito, elaborar trabalhos que devem ser feitos com dedicação e vontade. E isso para mim não faltam.   (Ali) sinto-me bem em conviver com os jovens, pois minha mentalidade ainda não acompanhou  a minha idade cronológica… E até nem me chamam de ” dona” ou “senhora” que eu detesto.  Somos Todos Iguais”.

“Na faculdade já estava preparada para algum preconceito que por acaso viesse a acontecer, mas depois de um leve espanto, os colegas ficaram amigos e nunca houve preconceito.  Mesmo fora da faculdade quando isso acontece, sei como ignorar e perdoar a ignorância.   Desafios são iguais para todos”.

O relato de Ruth Sica é importante pois exemplifica uma situação que, tomara, se torne  cada vez mais comum: o fato de que pessoas mais velhas estarão em plena atividade, seja voltando aos bancos escolares, seja em busca de recolocação profissional ou ainda, tentando realizar aqueles sonhos que se perderam em alguma parte do caminho entre a juventude e a maturidade.

Nada mais natural que queiramos, em qualquer tempo (e se há ânimo, desejo e determinação) realizar nossos sonhos, no entanto, o mercado (leia-se a oferta de empregos para pessoas mais velhas) precisa acompanhar esta realidade e com urgência.

E, importante e, como já ‘dissemos’, esta questão não é  ‘tendência’ e sim, necessidade real. É preciso que os empresários procurem  desenvolver projetos que incluam os mais velhos, que dialoguem com profissionais de áreas diversas que defendem um novo olhar sobre o envelhecimento. Afinal, se há a necessidade de que as pessoas se aposentem cada vez mais tarde devido às questões econômicas sempre incertas por aqui, é preciso que os empresários adotem, na prática _ e não só quando participam de seminários e/ou dão entrevistas e querem parecer modernos ou ‘legais’_ medidas que incluam as pessoas mais velhas.

Felizmente, Ruth é uma pessoa tão animada e preparada para enfrentar as adversidades que,  inclusive, deixa aqui um recado para o povo desanimado que se acha ‘velho demais’ aos 40 ou 50 anos : ‘Não vou desistir, pois sou ativa e enquanto viver, vou viver na atividade. Diria para as pessoas que passaram dos 50 anos, que não parem por aí. A vida continua e são as pessoas que a fazem  boa ou não. Vamos estudar, trabalhar, dançar, viajar, viver!  Sair  do nosso ” mundinho”    !

Parabéns Ruth Sica: você é um exemplo que deveria ser seguido por muitos! E a gente torce para que você consiga, além do necessário estágio, fazer o curso de Guia de Turismo para grupos da Terceira Idade.

Fotos: Arquivo Pessoal

8 de comentários

  1. Hoje compreendo bem o que ela deve estar passando. Estou com 59 anos e sempre ouvi dizer que os desempregados (as) se tornam invisíveis. Estou experimentando esta sensação agora. Depois de 44 anos de trabalho, praticamente ininterruptos, fui surpreendido com uma demissão. Iniciei minha carreira aos 14 anos, trabalhando como servente de pedreiro, fui para o SENAI, me tornei torneiro mecânico, depois, sociólogo e pedagogo, pós graduei-me em Administração e fiz um MPA (Master in Public Administration) e, embora seja experiente, tanto na vida como no ambiente de trabalho, principalmente na área de Educação Profissional. Já me candidatei em vários processos seletivos, desde instrutor, até diretor, passando por assistência pedagógica e docência e nada. Estou me sentindo invisível.

    1. Jerônimo, essa invisibilidade só vai acabar quando os empresários perceberem que as pessoas mais velhas têm muito a contribuir…Por enquanto, poucos estão, de fato, fazendo algo para mudar isso.
      Mas não desista, veja o que a Ruth ‘aconselhou’ e boa sorte! Uma hora dará certo.

      abraço

  2. A Ruth já fez o estágio? Mora em SP? Maurício Pastore tem uma agência de Turismo voltada somente p terceira idade , desenvolve um trabalho excelente, diferenciado. Fica e. Perdizes tem o mesmo nome Pastore. E a Oficina de Turismo. Social da USP Leste?

  3. As pessoas idosas, quanto mais idosas, mais invisíveis vão ficando. Algumas são levadas de um lado para outro como aquele móvel velho, que não tem serventia, mas que alguém disse que precisa ser cuidado porque “tem história”. As pessoas estão “vivendo mais”. Mas essa “sobrevida” nem sempre é bem vinda para os mais novos (os ativos), nem mesmo para os próprios filhos.
    É comum encontrar pessoas que, como eu, aos 50/60 anos ainda estão trabalhando e ainda têm os pais com 80/90 anos.
    Assim, é possível encontrar situações muito diversas, controversas, nesse universo de relacionamentos. O que se pode perceber é que os “mais novos” nos olham como se devêssemos estar aposentados há muito pois estamos ocupando espaços que deveriam ser deles agora. Por outro lado, “os de meia idade” precisam pagar suas contas, viver a vida e ainda cuidar dos pais que, agora, nos novos tempos, vivem muito mais.
    Como se vê, os tempos modernos estão a todo momento expondo situações tão diversas, tão cheias de nós…

  4. Genteee, acabei de ver hoje no Mais Você que a D.Ruth conseguiu o estágio 😍😍😍😍. Fico muito feliz por ela, e um dia seremos colegas de trabalho. Felicidade por ela.

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