Zygmunt Bauman: o ‘farol’ se apaga (1925 – 2017)

Bauman se foi mas seu pensamento refinado e certeiro continuará iluminando os cantos obscuros das variadas relações humanas que construímos ao longo de nossa existência.

Ana Claudia Vargas

O filósofo Zygmunt Bauman não se deixava cair nas armadilhas do autoelogio e continuava, aos quase 90 anos, sendo um farol bem potente que iluminava os muitos abismos desse nosso ‘teatro’ pós-moderno. Mas porque suas ideias explicavam de forma tão exata os muitos paradoxos nos quais nos envolvemos _ quer queiramos, quer não _  hoje em dia?

Assistindo ao vídeo (abaixo) fiquei pensando em porque Bauman se tornou essa figura tão popular e querida tanto por intelectuais e acadêmicos, quanto por leitores que buscavam (e certamente continuarão buscando) em seus textos explicações sobre os males  pós-modernos (ou simplesmente os males humanos e atemporais que vão nos afligindo ao longo da vida).

Acho que a capacidade que ele tinha de enxergar primeiramente ‘o humano’ em qualquer análise que fazia é que  o transformou em pensador indispensável para esses nossos interessantes tempos, tempos, aliás, que ele afirmava serem bênçãos para os ‘solidários e pensantes’ e péssimos para aqueles que não tinham tais virtudes.

Sobre a velocidade das notícias Bauman costumava dizer  que somos ‘inundados por informação, mas famintos por sabedoria’.

Pois hoje o ‘farol’ Zygmunt Bauman se apagou e perdemos um pensador que conseguiu como poucos, simplificar as grandes questões humanas _ as relações sociais; a morte, a vida, a economia, a cultura,a política e etc. _ ao relacioná-las, em suas obras, ao conceito de ‘liquidez’ que ele criou para definir a fluidez que permeia a vida moderna.

Bauman era um estudioso que, para além das estatísticas, enxergava pessoas; que conseguia descomplicar o entendimento das intrincadas relações humanas modernas propondo conceitos delicados e quase poéticos que traçavam paralelos entre a fluidez  da água  e a ‘liquidez’ das relações descompromissadas que vamos construindo hoje em dia.

Penso que Bauman se tornou esse ‘farol’ porque por meio de abordagens amplas que,  no entanto, permitem que enxerguemos todos os detalhes, fazia com que a gente entendesse os aspectos sórdidos do mundo _  as desigualdades sociais, o desemprego, a miséria, os variados preconceitos, as nunca esclarecidas questões econômicas que geram tantas politicagens e mesquinharias e que aniquilam a vida de tantos _ de uma forma, é claro, desagradável; mas a sensibilidade de sua sociologia também nos mostra que este  caos é, na verdade, bastante organizado.

Ao mirar seu refletor  para os cantos  mais obscuros e longínquos do que se convencionou chamar ‘pós-modernidade’ ou esse espetáculo humano do qual somos autores, atores principais e coadjuvantes, figurantes,  espectadores, maquiadores, produtores e etc.  Zygmunt Bauman nos oferecia (oferece)  a oportunidade da reflexão sobre o nosso desempenho e talvez  seja possível ainda, revisar esse roteiro.

Bauman se foi mas seu pensamento refinado e certeiro continuará iluminando os cantos obscuros das variadas relações humanas que construímos ao longo de nossa existência.

Assista aqui a entrevista que Bauman concedeu ao jornalista  Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, em outubro de 2015:

 

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