Quer envelhecer de forma saudável e feliz? Que tal fazer teatro?

…essa é a proposta de Laerte Asnis, idealizador do ‘Teatro do Grande Urso Navegante’.

Ana Claudia Vargas

O ator, diretor de teatro, produtor e contador de histórias, Laerte Asnis, está há mais de 25 anos atuando na  área da dramaturgia e já encenou peças em inúmeros lugares: desde unidades do SESC, até escolas (no Brasil e em Portugal) e universidades como USP, UNICAMP e UNESP, entre outras.

O repertório musical que também compõe as encenações de sua companhia de teatro  chamada  ‘Grande Urso Navegante’,   é enriquecido por    antigas  canções de roda e músicas eruditas que são interpretadas,  ao vivo, pela pianista e educadora musical Valéria Peres. Estes recursos fazem com que a interação entre atores e público ocorra de forma intensa e lúdica.

A vasta experiência de Asnis  foi construída por meio de um elaborado trabalho que ele tem  realizado com pessoas de todas as idades, desde crianças e adolescentes até jovens e idosos e, segundo sua apresentação, o “grupo navega nas correntezas poéticas da vida, procurando oferecer ao público de todas as idades, momentos de lirismo, serenidade, simplicidade, amor, paz, descontração e reflexão”.

Mas e quando pessoas mais velhas estão no palco e não na plateia (ou nos dois lugares) ? Se o jogo teatral é benéfico para quem assiste, não importa a idade que se tenha, o que dizer da atitude de convidar/ inserir gente que possui mais experiência com a vida real a trabalhar com os personagens inventados da dramaturgia?

Pois esta é a proposta da oficina teatral criada pelo ‘Grande Urso Navegante’: levar as pessoas mais velhas para o centro do espetáculo para que elas descubram, por meio da arte da encenação, emoções que podem ajudá-las a viverem a maturidade de forma mais prazerosa e feliz.

Laerte Asnis começou a trabalhar com pessoas mais velhas na década de noventa e seu projeto teatral elaborado especialmente para os idosos e batizado de ‘Idosos em Cena’ é composto por  duas oficinas: a primeira é chamada de “Teatro, Uma Experiência Criativa” e a segunda  de “Musicalização, atividades práticas”.

Segundo o texto de divulgação do projeto a ideia da oficina é “possibilitar a troca de experiências, bem como introduzir o jogo teatral e musical como forma de desenvolver a criatividade, o falar em público, a motivação e o prazer de viver’ e também “discutir a importância e contribuições da arte e da leitura na formação do indivíduo”.

Na entrevista que concedeu ao Plena, Laerte conta um pouco de sua trajetória teatral e fala sobre a gratificação que sente ao trabalhar com idosos, pois trata-se de pessoas que, segundo ele, “carregam no olhar as marcas do tempo e a certeza que a vida vale a pena”.

Quando começou seu trabalho específico com pessoas mais velhas?

Entre 1993 e 1997 trabalhei no Serviço Social da Indústria como Orientador de Artes Cênicas no Centro de Atividades em Rio Claro/SP. O projeto oferecia aulas de teatro para diversas faixas etárias, entre as quais pessoas Idosas. Um grupo com 15 idosos foi formado e durante três anos desenvolvemos atividades teatrais que culminaram com a montagem de um espetáculo teatral que foi apresentado em Rio Claro e algumas cidades paulistas.

É a velhice um estado de resignação e descanso depois de uma vida de dores ou tempo de liberdade para ser criança e não ser mais útil, pronto para brincar? O Teatro do Grande Urso Navegante traz para o palco a poesia que o escritor, educador e psicanalista Rubem Alves constrói em torno da velhice, com suas indagações e seu olhar aguçado. O que o velho pode fazer dessa época crepuscular? O que fazer da liberdade que a vida lhe entrega? Os velhos, segundo Rubem, não têm nada a perder. O que teriam a ganhar?

 Exercitar a criatividade pode representar um poderoso instrumento à realização pessoal do indivíduo e a conquista de um lugar na sociedade seja no ambiente familiar, seja no ambiente de trabalho. Através do fazer artístico adquirimos novas formas de percepção e ação que podem provocar importantes mudanças no nosso modo de ser e viver. O fazer artístico fortalece a autoestima e nos coloca diante de nossos sonhos, desejos, inquietações, frustrações, questionamentos, etc. Um abraço, uma troca de sorrisos, muitas vezes faz com que uma pessoa, passe a reconhecer no outro, um pouco de si mesma. (trechos da apresentação da Cia Grande Urso navegante)

  Quais são os maiores desafios e estímulos que o trabalho com essa faixa etária representa?

Estar com idosos é gratificante, pois eles possuem bagagem de vida. São por natureza contadores de histórias que retratam passagens reais de suas vidas. Carregam no olhar as marcas do tempo e a certeza que a vida vale a pena. Trabalhar com idosos é olhar para o nosso próprio futuro e antecipar o que poderemos estar realizando lá na frente. Não há desafios neste trabalho, existem apenas fios a tecer.

 Em que sentido (se há algum) o trabalho artístico com as pessoas mais velhas é diferente, por exemplo, do trabalho feito com jovens ou crianças?

Se existem diferenças, estas são mínimas. A atividade artística, em minha opinião, é baseada no desejo de fazer. Existindo o desejo, não há barreiras. Claro que podemos citar a limitação física do idoso, mas a limitação física só existe se oferecermos algo fora dos padrões da idade, como, por exemplo, dar um salto mortal. Sim, alguns dirão que idosos conseguem dar saltos mortais. Com certeza existem, mas são pessoas que se encontram fora do padrão normal inerente à idade e não podemos transformar em regra a habilidade de poucos, assim como não podemos afirmar que todos os idosos escrevem poesia baseados no fato de que alguns idosos escrevem poesia. Todos temos limites e respeitando os limites podemos ir bem longe.

Quais são as principais condições que uma cidade precisa ter para receber o projeto teatral que vocês oferecem?

Políticas culturais públicas voltadas para o bem estar do idoso e dirigentes competentes que enxerguem o idoso, não apenas como parte de um estatuto que possui normas que devem ser seguidas para “não dar problema” para o governo local. O idoso precisa ser visto como uma pessoa merecedora de ações direcionadas para o seu bem estar mental e físico. Como muitas instituições públicas preferem investir em outras áreas, pois investir em cultura não dá visibilidade, buscamos parcerias com instituições privadas que reconhecem o quanto a atividade artística é importante para a manutenção e celebração da vida. No caso da cidade de Ribeirão Preto, a oficina vai acontecer no Instituto Esfera que é um centro educacional multidisciplinar auto gestionário, dedicado a atividades e processos educativos como estratégia para a transformação cultural.

 

O ator, diretor e produtor teatral Laerte Asnis. Fotos- Arquivo Pessoal

 

 Em quais cidades vocês já se apresentaram (especificamente com pessoas mais velhas) e como você descreveria estas experiências?

Voltando ao tempo do SESI, o grupo teatral que formamos com idosos, batizado de Grupo MARINGÁ, fez diversas apresentações em Rio Claro, Piracicaba e Marília. O projeto não foi para frente, pois em 1997 me desliguei do SESI. Por outro lado, como ator e diretor à frente do Teatro do Grande Urso Navegante, ao longo destes quase 30 anos de vida teatral, fizemos várias apresentações exclusivas para grupos de idosos em diversas cidades do Brasil e Portugal. Fizemos várias apresentações em empresas que possuíam projetos de conscientização para funcionários que estavam em vias de se aposentar e que poderiam encontrar na atividade teatral um meio para continuar na ativa.

 

Porque você acredita que a atividade teatral pode ser benéfica para aqueles que estão envelhecendo?

O teatro é um santo remédio que não precisa de receita médica. Basta que o indivíduo se sinta atraído para viver nos palcos um pouco do que viveu ou vive na própria vida. O fazer teatral é uma experiência que nos mantêm em pé, nos coloca em um grupo e a ideia de pertencer a um grupo melhora a qualidade de vida, ativa a memória, resgata o prazer de brincar, amplia nossos conceitos de liberdade, permite que cada um fale besteira, permite o riso escancarado, nos tira a vergonha de chorar, sentir e amar em público. Fortalece a autoestima, faz com que a gente balance o corpo pelo simples prazer de balançar sem seguir regras de coreografia; relaxa a mente, organiza o pensamento e nos deixa a sensação de felicidade e a certeza que teatro é bom demais, basta experimentar uma vez para nunca mais largar. O idoso já viveu tanto que pode se dar ao luxo de se divertir em paz sem se preocupar com a opinião dos outros. O envelhecimento é o único período revolucionário da vida. É o único momento onde um indivíduo se torna um autêntico revolucionário.

 

O fazer teatral é uma experiência que nos mantêm em pé, nos coloca em um grupo e a ideia de pertencer a um grupo melhora a qualidade de vida, ativa a memória, resgata o prazer de brincar, amplia nossos conceitos de liberdade, permite que cada um fale besteira, permite o riso escancarado, nos tira a vergonha de chorar, sentir e amar em público.

 

Se há algo que queira acrescentar, fique à vontade.

O envelhecimento faz parte da vida. Médicos e gerontólogos explicam o processo de envelhecimento. Cada detalhe deste processo está registrado em milhares de páginas de livros e artigos científicos e cada vez mais pesquisas acadêmicas, tendo o idoso como  pesquisado, são produzidas todos os anos por mentes brilhantes, visando a melhoria de vida do idoso, buscando até mesmo a longevidade. O teatro também faz parte da vida e, por incrível que pareça, da mesma vida citada acima e nesta parte da vida, o idoso não é ser pesquisado, mas sim protagonista. O idoso fazendo arte não busca a longevidade, mas sim, o viver o tempo presente com paixão e intensidade, pois a longevidade é algo que se mistura poeticamente ao conceito de infinito e mexer com o conceito de infinito não é tarefa simples, pois somos seres finitos.

Para saber mais sobre  “IDOSO EM CENA” , acesse: 

http://grandeursonavegante.blogspot.com.br

https://www.facebook.com/ursonavegante/

laerteasnis@gmail.com 

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