A hora de dizer adeus: cuidadora conta a experiência de ter vivido de perto os últimos meses de vida de sua avó com Alzheimer

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“Fizemos tudo o que podíamos por ela e chegou o momento em que sabíamos que o fim estava chegando”, diz Cynthia Zunega; psicóloga Simone Manzaro dá dicas de como os cuidadores podem superar o processo de luto e retomar a rotina

 

Por Mariana Parizotto

 
Foi depois de um tombo que a família descobriu que Emma Michelini tinha Alzheimer. A matriarca de 91 anos, que ajudou a criar os netos e cuidou com zelo por uma decada do marido acamado em decorrência do diabetes, dava sinais da demência há algum tempo, mas os familiares próximos não identificaram. “Minha avó sempre foi uma muralha, mas de uma forma meiga e dócil. Qualquer mimo tirava lágrimas dos seus lindos olhos verdes, porém nos últimos anos ela foi perdendo um pouco disso, parecia mais melancólica, depressiva e angustiada. Infelizmente não associamos essas mudanças de comportamento ao Alzheimer”, conta emocionada Cynthia Zunega, que junto com a mãe, Inês, cuidou por dez meses da avó.
 
Dona Emma faleceu em 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima – sua santa de devoção -, sete meses após o diagnóstico. “Em setembro de 2014, tomei a decisão mais triste ou alegre da minha vida: abandonei tudo para me dedicar a minha vó. Pude fazer por ela um pouco do que ela fez por nós. No começo foi tudo muito difícil, ela ficava confusa, só falava no passado, andava para lá e para cá. Ia mil vezes ao banheiro, e eu e minha mão sempre ao lado dela. Depois do seu último tombo, nas vésperas de completar 91 anos, a doença acelerou sem dó”, lamenta Cynthia. Mesmo com a queda, que levou dona Emma ao hospital, a família decidiu fazer uma bela festa de aniversário com todos reunidos, como a matriarca sempre gostou. “Desde aquele momento, começamos a nos despedir dela. Foram quatro meses de luto. Ela indo embora aos pouquinhos. Meu algodão doce, como eu a chamava, foi ficando cada vez mais debilitada”.
 
Segundo Cynthia, ela e sua mãe passaram a lidar com a questão de que a situação era irreversível. Dona Emma já começava a tomar a medicação do último estágio da doença e interagia cada vez menos, “sabíamos que o fim estava próximo. Fizemos de tudo, tudo mesmo para amenizar seu sofrimento. Dávamos banho! Carinho! Amor. Cuidamos dela como um bebê! Pude dizer a ela tudo que tinha vontade. Todos os dias falava o quanto ela era amada por todos nós, pelos meus irmão Camila e Rodrigo! Os três bisnetos que ela pegou no colo e morriam pela Bibi deles! Pude abraçar! Beijar! Dormi de mãos dadas com ela muitas noites. Perdi a paciência também muitas vezes, mas sempre pedia perdão. Não dou a ninguém o direito de julgar um cuidador, pois só quem passa sabe o quanto é triste e difícil você perder a paciência com alguém que ama tanto e que tem Alzheimer”, diz a neta, que está vivenciando a dor da ausência da avó.
 
Para a psicóloga Simone Manzaro, o momento do luto é um dos mais delicados para o cuidador familiar, afinal ele é obrigado a retomar sua vida ao mesmo tempo precisa se reabilitar do desgaste físico e emocional, “para um cuidador, tudo o que ele faz nunca será suficiente, ele sempre vai achar que está em dívida com o ente querido. Então, por mais que se faça, sempre vai surgir um pouco de culpa, e no momento do luto, muitas outras questões aparecem juntas: estresse, esgotamento físico e emocional, conflitos, uso excessivo de medicamentos, dentre outros. É comum que este cuidador vivencie estados de profunda tristeza, devendo este ser acompanhado psicologicamente para que esta não se torne uma depressão um pouco mais grave ou um luto patológico. O importante é que a família e amigos amparem essa pessoa e a ajude a voltar a sua rotina e encontrar um sentido para a vida. É importante valorizar tudo o que foi feito pelo cuidador”, comenta a especialista.
 
No momento, mesmo tendo sido uma das cuidadoras principais, Cynthia é quem tem dado força para a família, “não posso deixar a peteca cair. Se eu estou triste e com uma saudade imensa dela, imagina minha mãe que conviveu com ela por 66 anos? Tenho que ser forte pois tenho minha mãe agora para cuidar, abraçar, beijar e amar muito! Sei que minha vó fez lindamente sua missão aqui e foi descansar”. Como último desejo da avó, Cynthia orgulha-se de ter organizado uma bela festa de adeus, “escolhi cada detalhe do velório, cada flor, e não me pergunte como. Eu simplesmente fiz. Fiz como ela queria e ainda consegui realizar a cerimônia de cremação. Assim como foi em vida, em sua despedida ela estava rodeada de muito amor, amigos especiais e uma família que tinha adoração por ela”.
 
O momento de retomar a vida
 
O próximo passo da dedicada neta é voltar a trabalhar e encarar o mundo, depois de 10 meses vivendo praticamente em casa, “aprendi a ser melhor. Cuidaria dela por mais dez anos, mas não desejo isso para ninguém. Espero que a medicina avance e encontre um meio de brecar essa doença desumana”.
 
Simone Manzaro explica que retomar a rotina de vida é tão difícil quanto o luto em si, e esse luto deve ser vivenciado como parte do processo de sua elaboração, e que implica em uma adaptação e reorganização da vida pessoal e da instituição familiar. “É importante o acompanhamento psicológico durante esse dado momento, pois este permite ajudar a lidar com o processo de luto de forma adaptativa. Ajudará na elaboração de questões pessoais relacionadas ao processo de adoecimento e terminalidade e principalmente do sentimento de inutilidade e vazio que surgirá, pois esse cuidador se sentirá perdido sem ter aquele a quem cuidar”, diz a especialista.
 
Para começar, o cuidador pode tentar coisas novas como:
 
– Não perder as suas relações sociais;
 
-Evitar tomar grandes decisões nos primeiros meses;
 
-Falar sobre o ente querido falecido, se permita expressar sentimentos;
 
-Sair e conversar, dessa forma partilhamos de nossas preocupações e assim elas ficam menores e isso ajuda o nosso humor, o que faz com que encaremos a vida de outra forma;
 
-Recomenda-se atividade física, a fim de, controlar sintomas de ansiedade e tensão;
 
-Acompanhamento psicológico é fundamental;
 
 

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