Abandonei meus pais idosos. Motivo? Eles me abandonaram primeiro

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O Abandono Afetivo Inverso vem se tornando cada vez mais conhecido. Antes de julgarmos os filhos que abandonam seus pais, é preciso também ouvir sobre algumas heranças malditas: terão sido eles, também, vítimas de abandono severo? 

Ana Fraiman – Mestre em Psicologia Social pela USP e Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP 

 

Quando se fala de 'abandono afetivo' entendemos tratar-se de 'pais que não estão nem aí' com os seus filhos. São pais ausentes, hiper concentrados em seus trabalhos e em seus próprios interesses. Pais que tomam o café da manhã com a cara enfiada no jornal ou já bem cedo, assistindo os noticiários pela televisão. À noite, voltam tão cansados, ou ainda cheios de trabalho a fazer, que nem conversam direito. Querem silêncio ou, então, só abrem a boca para perguntar de notas e compromissos. Reclamam das coisas, dão ordens, mas não conversam. Falam ao telefone ou se jogam na frente da televisão até dormir, o que não leva muito. De si mesmos, não contam nada, a não ser do quanto a vida é difícil e de como seu trabalho é pesado. Pais descarregam nos filhos suas frustrações e acreditam estarem ensinando sobre a vida. Falam de si e não ouvem o que seus filhos querem e precisam contar ou pedir. Esta é uma forma de abandono afetivo: não ouvir. Sempre com pressa, sempre com opinião já formada, sempre 'cheios de razão em tudo'. São 'pais que sabem'. Não são pais que perguntam a opinião de um filho. Quando o fazem é mais para corrigi-los, que para entender o que eles pensam e dizem. Outra forma de abandono é agir com desprezo e violência. Pior ainda, usar de ironia. Desdenhar, criticar em público. Diminuir um filho perante outras pessoas. Mandar calar a boca. Pior do que uma bronca justa e bem dada, é se comportar com superioridade. Sua autoridade como pais logo se esvazia. Filhos não respeitam pais autoritários, nem respeitam pais violentos. Filhos calam a boca e viram as costas ou os enfrentam de nariz erguido, tanto quanto. De todo esse rol de horrores, usar de ironia é a pior das covardias, afinal nenhuma criança tem defesa contra ironia.

Família e deveres

Numa família todos têm deveres para com todos. Ou, então, não é família. O que é, então, o 'abandono afetivo inverso'? Agora chegamos ao dever de cuidado dos filhos em relação aos seus pais idosos, o que igualmente viola o princípio da dignidade humana. E, no que consiste esta violação? Em forte e constante abalo psicológico, físico e social, causando uma dor moral quase insuportável. Seja qual for a idade da pessoa, a dor moral é de tal ordem que está na raiz do que se conhece 'perder o gosto pela vida' e deixar-se morrer no dia a dia. Se crianças e jovens tomam atitudes temerárias, expondo-se a riscos desnecessários e até mesmo tomando atitudes suicidas, para os mais velhos é bem se conhece a expressão 'morrer de desgosto'. Em casos extremos, este desgosto tem o potencial de levar uma pessoa ao suicídio, pois de que vale a vida quando uma pessoa sente que não tem valor para aqueles a quem ama? 

O que pode ser feito para prevenir e curar o abandono afetivo.

Numa espécie de re-edição das antigas Escolas de Pais, que ocorriam nas boas escolas nos idos anos 60 e 70, é preciso estimular a criação de grupos de apoio e de ajuda, de escutas absolutamente respeitosas, com leituras elevadas, debates públicos e, sim, ousarmos abrir o coração, para tratar de feridas. Das recentes é mais fácil. Com as feridas antigas, compactadas no silêncio dos corações machucados, precisamos ter muito, mas muito mais cuidado, por que as dores represadas, ao serem escancaradas também têm, inicialmente, o potencial de se tornarem enlouquecedoras. Antes de julgarmos os filhos que abandonam seus pais, é preciso também ouvir sobre algumas heranças malditas: terão sido eles, também, vítimas de abandono severo? Desejarão eles, dar início a uma correção de rota, enquanto estão todos vivos e se possa recuperar um amor forte e delicado entre pais e filhos e avós, a tempo de 'curar' as dores de toda uma vida vivida? 

O repertório do amor.

Amor é um negócio complicado, com repertório próprio que consiste em sinais, olhares, gestos, palavras e atitudes que requerem desenvolvimento, o que muitas pessoas não conseguem alcançar desde crianças e que, quando adultas não sabem demonstrar ou exprimir. Há pessoas que são, desde nascença, menos afeitas às emoções. Outras são emocionais demais. E outras fazem as coisas antes de pensar. Então, as primeiras demonstram seu amor dando conselhos, por exemplo. Querem proteger a pessoa amada dizendo-lhe o que pensar, o que fazer e para que não se entreguem às emoções, que isso não leva a nada. Os mais emocionais se perdem em situações difíceis e não conseguem nem pensar. Querem se sentir acarinhadas, chorar nos braços de alguém querido ou só se sentirem menos sós em suas dificuldades. Já os que são dados a fazer, antes de pensar e de sentir, podem patinar nos seus impulsos e atravessar o tempo e as necessidades dos outros, porque o que querem mais é resolver logo o assunto. Ou isso, ou não dizem nada, não pedem nada ou ficam quietas em seu canto, até a dificuldade passar por si só. Ou amentar de tamanho. Daí, pedem alguma ajuda, senão rejitam qualquer auxílio, mesmo que venha da pessoa amada. Cada qual tem seu jeito próprio de amar e demonstrar este amor. Muitas muheres se referem ao fato de que seus maridos, seus companheiros, só lhes declaram seu amor à hora do sexo. Isso não é incomum. Durante o dia não lhes fazem nenhum carinho, não lhes dizem palavras doces, reclamam de tudo, mas de noite, ao fazerem sexo, se mostram muito queridos, atenciosos e delicados em seus modos. 

Nenhuma das gerações tem o privilégio de ser mais amada.

Conversas vazias, só para passar o tempo, ocupam as famílias de hoje, quando as pessoas não encontram espaço para falarem de si, umas com as outras. Não se escutam, não se aconselham e, portanto, não há revelações. Faltam os diálogos, sobram o desrespeito e a indiferença. As pessoas não se enxergam, não se comunicam e foram rompidos os vínculos que garantiam acolhimento, proteção e união. Enquanto o abandono mútuo veio permeando toda a convivência entre os membros de uma família, entre as diferentes gerações e, mesmo, entre os da mesma geração, praticamente ninguém mais sabe de nada nem de ninguèm. O que pensa um, o que sente o outro. O que têm feito, onde frequentam, com quem saem. Nada. Até os anos 90 os pais vigiavam seus filhos e os entregavam pessoalmente nas mãos de outros pais, nas festinhas e nos passeios. Hoje em dia os pais mal se conhecem, há pai e mãe que nem sabem o endereço onde seus filhos dizem terem dormido. Festas? Agora são as baladas e baladinhas, onde rolam drogas e sexo, também. Não sabem com quem eles saem, se irão a pé, de carro ou de táxi. 

O engano: autosufiência e independência a qualquer preço.

Todos 'se fazem de fortes'. As pessoas se convencem de que podem 'passar muito bem' sem a amizade daquele irmão ou irmã. Que não precisam ser visitados pelos pais. Que avós não têm nada a ver. E que tios e primos, bacanas ou chatos, não fazem falta. A pessoa pode pensar ter superado suas dores de ter vivido uma infância abandonada. A pessoa pode pensar que não precisa mais dos mais velhos. Podem pensar que vivem muito bem sem serem obrigados a conviver com seus familiares. E, sim, existe a família de afeto, mas quanta dor já se viveu antes de formar uma nova família, constituída de amigos queridos e comprometidos consigo? Então, quando todas as pessoas de uma família se sentem sós, temos aí uma família integralmente doente, muito desamparada e muito perigosa. Para si e para os demais com quem convivem. O desespero, as dores não curadas podem, à qualquer momento, explodirem em gestos e ações desmedidas. Contra si próprios e contra os demais. 

 

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