“Bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio”

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Poema da escritora mineira Adélia Prado é um belo relato sobre o envelhecimento. Segundo ela, o corpo sofre os efeitos do tempo, mas a boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez anos, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior

 

Redação Plena

 
Adélia Prado é uma importante poetisa mineira. Ficou conhecida na literatura brasileira pelos poemas que valorizavam a mulher e falavam da fé cristã. A escritora teve o apoio do importante poeta, também mineiro, Carlos Drummond de Andrade, que adorou os poemas de Adélia e sugeriu que fossem publicados.
 
Sob o olhar feminino, os poemas de Adélia Prado utilizam um vocabulário simples para falar sobre religiosidade, família e cotidiano. A poetisa, hoje com quase 80 anos, já recebeu o Prêmio Jabuti, na categoria Poesia, por “O Coração Disparado”, lançado em 1978.
 
Abaixo, compartilhamos com vocês um belo texto desta escritora, que fala sobre o envelhecimento, as mudanças físicas que a idade impõem e a importância de manter a alma sadia.
 
"Erótica é a Alma"
 
"Todos vamos envelhecer…
 
Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos.
 
A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar.
 
Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.
 
Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio."
 
 

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