Coordenadora de políticas para idosos da prefeitura de São Paulo fala sobre a importância da inclusão dos 60+

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"O envelhecimento é um tabu para a sociedade, visto que esta se estruturou com os olhos da juventude como fonte do trabalho produtivo, da riqueza do sucesso e da beleza. Desta forma a cultura vigente vê aquele que envelhece como o ser decadente, improdutivo e feio", afirma Guiomar Lopes. Veja entrevista completa

 

Por Ana Vargas

 

A médica geriatra e pesquisadora, Guiomar Lopes Silva, está à frente da Coordenadoria de Políticas para os Idosos da Prefeitura de São Paulo desde 2013. Guiomar é formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, pós-graduada em Farmacologia pela Universidade Federal de São Paulo e também professora da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo. Nesta entrevista ao Plena, ela  diz acreditar que a velhice ainda é um tabu e reforça a necessidade de que as políticas públicas relacionadas aos idosos sejam intergeracionais, pois “apesar dos conflitos que são naturais entre jovens e idosos, esta forma de atuação torna o resultado muito rico”.

 

Como surgiu seu interesse em trabalhar com idosos­? Tem origem em sua história familiar ou está relacionado à sua trajetória acadêmica e profissional?

Durante a pós-graduação em Farmacologia na Unifesp criei uma linha de pesquisa experimental sobre o envelhecimento onde trabalhei por 20 anos.  Estes estudos foram dirigidos basicamente aos mecanismos envolvidos no processo do envelhecimento e alguns aspectos sobre as alterações que acontecem nas ilhotas pancreáticas, podendo levar as pessoas mais velhas ao diabetes ou à resistência a insulina. Mais recentemente comecei a trabalhar com a pesquisa clínica no Departamento de Medicina Preventiva também da Unifesp, ampliando o leque de visão para o envelhecimento populacional.

Você acredita que o envelhecimento ainda é um tema tabu? Se sim, de que forma poderíamos incluí-lo nos debates sociais que mobilizam a sociedade? (Como é o caso das questões de gênero, por exemplo, que conseguem atualmente maior inserção nas pautas políticas, na imprensa etc.)

O envelhecimento é um tabu para a sociedade, visto que esta se estruturou com os olhos da juventude como fonte do trabalho produtivo, da riqueza do sucesso e da beleza. Desta forma a cultura vigente vê aquele que envelhece como o ser decadente, improdutivo, e feio. A mídia compõe com estas ideias, fato que muito contribui para fortalecer os valores discriminatórios. Vale ressaltar que é importante que o movimento feminista tenha ganhado um pouco de espaço, após tantas décadas de lutas. Entretanto, apesar do crescimento deste movimento há pouca inserção na sua pauta das questões que envolvem a mulher idosa, por isso temos trabalhado muito na temática da mulher idosa e negra.

Acreditamos que a velhice precisa ser incluída em todo e qualquer debate possível e não deve se restringir a questões que veem o idoso como alguém que só se interessa por programas da chamada ‘terceira idade’. Qual sua opinião sobre isso?

Os programas ditos para “terceira idade”, termo que hoje não mais utilizamos, podem ser consistentes ou fracos quanto ao seu conteúdo, portanto, neste sentido é necessário avaliar se a proposta do programa vai proporcionar à população idosa o conhecimento, inserção social, ou participação nas atividades culturais, o fato de ser voltado somente à pessoa idosa não determina em si a qualidade. Tenho convicção de que as políticas devam caminhar em direção da intergeracionalidade, pois a vida é intergeracional e apesar dos conflitos que são naturais entre jovens e idosos, esta forma de atuação torna o resultado muito rico.

Você acha que a falta de apoio _ pública e privada _ em torno das ‘questões do idoso’ está relacionada ao preconceito?

Não podemos dizer que o poder público não investe na questão do envelhecimento populacional por razão de preconceito. O que fica mais evidente é que existem muitas prioridades ou mesmo situações críticas, como a questão da moradia. Devemos lembrar que o município de São Paulo apresenta ainda, assim como o restante do Brasil, profundas desigualdades sociais e qualquer ação pública tem que ser regida pela eleição de prioridades, dado o tamanho da demanda. Paralelamente à demanda existe a limitação de recursos  que inviabiliza a resolução, por completo, de todas as necessidades da população idosa. Por outro lado, as últimas gestões municipais construíram poucas ações voltadas às pessoas idosas, por isso neste governo (apesar das proposituras e empenho em concretizar programas importantes), os resultados alcançados não atendem universalmente a população idosa. Esta gestão incluiu no seu Programa de Metas as reivindicações da população idosa depois de mais de 12 anos nos quais quase nada foi executado para este segmento. Neste Programa estão inseridas as seguintes ações: Universidade Aberta da Pessoa Idosa, Campanha de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, criação de 16 Centros-dia, ampliação de mais 8 Instituições de Longa Permanência (ILPI), ampliação de mais 8 Unidades de Referência da Saúde do Idoso (URSI).  Incluímos às metas: os Jogos Municipais da Pessoa Idosa (JOMI), o Curso de Formação de pessoas idosas como liderança dos movimentos sociais. Estamos gestando o projeto de cuidadores organizados em cooperativa, cujo serviço deva ser contratado pela prefeitura.

Quais dificuldades você enfrenta para gerir a coordenadoria do Idoso?

As dificuldades que temos enfrentado estão relacionadas à escassez de recursos.

Quais foram os avanços obtidos durante sua gestão?

A Coordenação tem fortalecido as ações de educação e ampliação do conhecimento, criando oportunidades para que a população idosa participe de todos os debates que ocorram na cidade e também dos movimentos sociais, adquirindo uma consciência crítica da realidade. As questões raciais e de gênero também tem sido enfatizadas, principalmente no curso da Universidade Aberta da Pessoa Idosa do Município de São Paulo, no Curso de Formação de Lideranças Idosas e nos diálogos e nos seminários realizados. Todos os itens de políticas para os idosos foram inseridos no Programa de Metas e articulados pela Coordenação de Políticas para Idosos, principalmente aquelas que são ações transversais como os Centros-dia, as Instituições de Longa Permanecia (ILPI) e as Unidades de Referencia de Saúde do Idoso (URSIs). O projeto da Universidade Aberta da Pessoa Idosa é gerido diretamente pela Coordenação e oferece um curso baseado na interdisciplinaridade com duração de um ano letivo, abrangendo as seguintes áreas: Saúde, Ciências Sociais, História, História da Arte, Arte, Teatro, Atividade Física e Tecnologia digital. Atualmente temos 500 alunos. O curso de Formação de liderança atingiu 250 pessoas com uma grade com muita semelhança da Universidade Aberta, mas com ênfase nas questões sociais e de organização. O JOMI foi outra realização da Coordenação na 1ª edição (2014) alcançou 2300 participantes, em 2015 alcançamos 5200 participantes.

Esta ação ainda tem um alcance limitado, mas lançaram as bases para o avanço das políticas, pensando a pessoa idosa na sua fase “ativa” com a UAPI, com o curso de formação, o JOMI e na fase na qual merece cuidados e atenção mais específica e complexa com os serviços dos centros-dia, das URSIs e das ILPIs e a campanha de conscientização da violência. A campanha é de caráter permanente e acontece com seminários e diálogos em diversos territórios da cidade para fazer a reflexão sobre todos os tipos de violência à pessoa idosa desde a discriminação à violência física.

 

Há algum programa ou projeto da coordenadoria que você queira citar?

Todas as ações do Programa de Metas precisam ser ampliadas, são fundamentais. Também temos uma preocupação em concretizar um plano piloto da cooperativa de cuidadores.

 

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