É a indiferença que nos torna cegos: o caso do “mutirão de catarata em São Bernardo”

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E se isso acontecesse com seus pais ou avós ou com alguém que você ama? Como você faria para conter sua revolta diante do absurdo concretizado que transforma uma pessoa que não enxerga muito bem em completamente cega?

 

 

Redação Plena

Quando nos deparamos com os terrores diários, com as grandes mesquinharias de que nossa raça é (ainda e sempre?) capaz, o sentimento de revolta e perplexidade pode nos obrigar a utilizar recursos digamos, mais permissivos e menos racionais para que consigamos suportar.
 
Não entender, vejam bem, mas simplesmente, suportar.
 
O fato é que todos nós já estamos bem fartos de saber que manter a esperança diante das tantas notícias trágicas que se sucedem velozmente, é tarefa bastante inglória.
 
Talvez os muito espiritualizados consigam, talvez…
 
No entanto, nós, meros mortais, ainda sofremos quando lemos notas terríveis (porque essa é a palavra exata) como essa: “A equipe médica que realizou um mutirão de catarata em que ao menos 18 pessoas ficaram cegas, não esterilizou instrumentos cirúrgicos, aponta o relatório da Secretaria da Saúde de São Bernardo do Campo, no ABC paulista”. Sim: você não leu errado: isso de fato ocorreu (saiba mais aqui).
 
Agora, pense: e se isso acontecesse com seus pais ou avós ou com alguém que você ama? Como você faria para conter sua revolta diante do absurdo concretizado que transforma uma pessoa que não enxerga muito bem em completamente cega?
 
Alguém que deve ter passado dias e meses refletindo sobre se deveria ou não se submeter a tal procedimento? Alguém que teve que ser convencido longamente por filhos para que fizesse a cirurgia _ que é de fato muito simples _ e que agora, perdeu completamente o pouco de visão que lhe restava?
 
Diante de tantos absurdos e sabendo que tais absurdos são cometidos por pessoas que se acham acima de qualquer tipo de legislação, a nossa revolta se torna ainda maior: ela transborda.
 
Afinal, como explicar para os pacientes _ e seus filhos, esposas e esposos, netos e etc. _ que agora veremos o começo de um processo lento, de um odioso jogo de empurra-empurra entre o dono do tal Instituto de Oftalmologia de Santos, o senhor Elcio Roque Kleinpaul; o médico que comandou (?) a equipe – Paulo Barição _ e a secretaria de saúde de São Bernardo do Campo? Como explicaremos para aqueles que foram diretamente _ física e emocionalmente- atingidos, para sempre, por este crime; que advogados serão convocados e muito bem pagos para que criem álibis que inocentem os envolvidos?
 
Álibis que podem fazer com que estes criminosos continuem trabalhando, exercendo suas profissões e sendo muito bem remunerados, aliás, como se nada disso tivesse acontecido? Isso tudo não lhe embrulha o estômago, caro leitor ou leitora do nosso portal?
 
Sabemos que ‘filmes’ como esse são muito comuns  no Brasil, que a impunidade prevalece quando crimes como esse são cometidos por aqui, afinal, quantas vezes erros médicos são tratados com condescendência, principalmente, quando os atingidos são pessoas da chamada classe menos favorecida?
 
Pois diante de uma atrocidade como essa, que nos obrigou a essa manifestação explícita de revolta; nos vemos obrigados a recorrer à fábula literária e genial do escritor português José Saramago que no seu (apropriado) ‘Ensaio sobre a cegueira’ afirma, lá pelas tantas que “ A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.
 
E nós do Plena  recorremos a ele porque também acreditamos que somente a esperança, esse sentimento clichê e repisado, mas ainda (e apesar de tudo) resistente; pode fazer com que ao menos a justiça retire nesse caso, a venda de seus olhos e enxergue que um crime como esse não pode e não deve ficar impune.
 
Se podemos olhar, que sejamos capazes de ver; se podemos ver, que tenhamos condições de reparar e que assim se faça justiça.

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