É realmente demência? Talvez seja outra coisa

Posted by
 

A lista de outras causas para os sintomas da demência pode ser surpreendentemente longa. Entre os principais culpados, estão a depressão e a ansiedade. Assim como o Alzheimer, elas podem interferir na capacidade de concentração e de recordar fatos/nomes/datas

 
Redação Plena
 
Será mesmo demência? Isso é o que você pergunta a si mesmo quando uma pessoa idosa começa a se perder no caminho de volta para casa, a perder a memória, a repetir mil vezes a mesma coisa, a ver coisas que não estão lá? Talvez, não seja demência!
 
“E, às vezes, felizmente, é de fato algum outro problema, algo que imita a destruição cognitiva da doença de Alzheimer ou de outra demência, mas, ao contrário deles, é tratável, corrigível. Isso provavelmente acontece com mais frequência do que as pessoas imaginam. Mas isso não acontece com tanta frequência como os membros das famílias esperam”, afirma a geriatra Elaine Kemen Maretti, que integra o corpo clínico do Iredo, Instituto de Reumatologia e Doenças Osteoarticulares.
 
Vários casos de confusão diagnóstica podem acontecer: uma pessoa pode parecer ter a doença de Alzheimer, mas, na verdade, pode estar sofrendo os efeitos do alcoolismo. Uma pessoa aparenta ter sintomas de demência, mas, na verdade, são de depressão crônica.
 
Quando os médicos suspeitam da doença de Alzheimer, eles estão certos em 50-60% dos casos. Talvez, outros 25% dos pacientes realmente tenham outros tipos de demência, como a Demência com Corpos de Lewy (DCL) ou a Demência Frontotemporal (DFT)… Notícias preocupantes porque estas doenças têm diferentes trajetórias e podem ser agravadas pelas drogas erradas e pela demora no diagnóstico.
 
“Os restantes 15-25% normalmente têm condições que podem ser revertidas ou pelo menos melhoradas. Na tentativa de dizer a diferença – o que não é um trabalho para amadores –  uma consideração importante é a idade”, orienta a geriatra do Iredo.
 
Elaine Maretti explica que “a demência é altamente relacionada à idade. Em uma pessoa de 50 anos de idade, problemas de memória podem muito bem ter alguma outra causa. Mas a probabilidade de que uma pessoa com 75 anos de idade esteja se tornando esquecida, ao longo de 06-18 meses, é algo pouco tratável ou corrigível. Mas não impossível de se fazer”.
 
O que aponta para uma outra questão-chave: a velocidade de início. “A demência tende a desenvolver-se lentamente. Membros da família, muitas vezes, percebem, em retrospecto, que uma pessoa idosa vinha demonstrando declínio cognitivo sutil por anos. Já quando as alterações de estado mental de uma pessoa surgem, de repente, em dias ou semanas, essa não é a imagem usual de uma doença degenerativa. Isso significa que precisamos investigar outros fatores”, diz a médica.
 
A lista de outras causas para os sintomas da demência pode ser surpreendentemente longa. Entre os principais culpados, estão a depressão e a ansiedade. Assim como a demência, elas podem interferir na capacidade de concentração e de recordar fatos/nomes/datas.
 
“É preciso ficar atento também para a deficiência da tireoide. Problemas de tireoide são muito prevalentes. A tireoide tem um enorme efeito sobre o cérebro em todas as idades. Normalmente, os problemas da tireoide podem ser facilmente diagnosticados e tratados com medicação diária”, afirma a geriatra.
 
Deficiências de vitaminas, provavelmente, são o cenário mais esperado. Problemas cognitivos causados pela falta de vitamina B1 (tiamina) ou B12 são reversíveis com comprimidos ou injeções.
 
O alcoolismo também causa perda de memória. Se o paciente parar de beber e se não for tarde demais, o cérebro pode reparar-se. Depois de anos de alcoolismo, o cérebro pode não ser capaz de se curar de todos os danos que sofreu, mas pode impedir que a situação se agrave.
 
“Distúrbios do sono, e, em particular, a apneia do sono, podem cobrar um pedágio cognitivo dos idosos. A função cognitiva pode tornar-se mais lenta, com falta de atenção e concentração. Quando os pacientes com apneia se tratam, eles obtem melhoras acentuadas no campo do sono e no campo cognitivo também”, diz Elaine Maretti.
 
Pílulas para dormir e uma variedade de outras drogas, especialmente em combinação, frequentemente causam sintomas como os de demência também. Há uma longa lista, centenas de drogas, prescritas por médicos e de venda livre, que podem prejudicar a memória. Medicamentos para náuseas e incontinência urinária, anti-histamínicos mais antigos, drogas cardíacas, analgésicos, certos antidepressivos e medicamentos anti-ansiedade. “Rever a lista de medicamentos do paciente com problemas de memória é muito importante”, destaca a geriatra.
 
E há muitas outras causas para problemas de memória em idosos: ferimentos na cabeça que levam à formação de coágulos de sangue chamados hematomas subdurais, pressão alta, diabetes, infecções, uma condição chamada hidrocefalia de pressão normal e delirium (confusão mental), que se desenvolve durante a internação.
 
Além disso, os idosos podem ter qualquer um desses problemas, juntamente com uma demência real. Tratar as outras causas dos problemas pode, pelo menos, impedir a rápida progressão do declínio cognitivo, embora não possa curá-lo.
 
“Portanto, faz sentido, dizer aos pacientes e familiares – que têm pavor de demência – que existem outras causas para os problemas cognitivos. É preciso fazer um bom diagnóstico, vários exames, pensar em outras condições clínicas. Isso é comum e não inadequado. Por outro lado, após todos os esforços diagnósticos, é preciso ser realista, quando mesmo diante de uma lista longa de outras possibilidades, o problema é realmente demência, é preciso encarar de frente. E iniciar o tratamento adequado”, defende a  médica.
 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *