Entrevista com Alexandre Kalache: “Brasil não está preparado para o envelhecimento populacional”

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Em 30 anos, 30% da nossa população será de idosos. Para o médico Alexandre Kalache, considerado o mais importante especialista em envelhecimento no país e um dos principais no mundo,  o Brasil está passando pela revolução da longevidade
 
 

 

Por Mariana Parizotto

 
O Brasil está envelhecendo antes de ter vencido as mazelas do subdesenvolvimento. A afirmação é do médico Alexandre Kalache, considerado o mais importante especialista em envelhecimento no país e um dos principais no mundo. 
 
Em entrevista ao Plena, Kalache, que também é consultor da Bradesco Seguros para os temas de longevidade e conselheiro sênior sobre Envelhecimento Global da Academia de Medicina de Nova York (The New York Academy of Medicine), aponta que as necessidades básicas dos idosos brasileiros estão longe de ser atendidas e ressalta que o impacto causado pelo aumento da expectativa de vida no país é profundo e irreversível.
 
Você afirma em algumas entrevistas e fóruns de debate que a sociedade brasileira passa pela revolução da longevidade. Em que consiste este movimento?
 
Nos últimos 70 anos a expectativa de vida no Brasil aumentou  mais de 30 anos – de 43 anos em 1945 para 75 anos hoje. A proporção de idosos é hoje de cerca de 13% – daqui a 30 anos será de 30%. Há hoje no mundo 700 milhões de idosos – em 2050 serão mais de 2 bilhões. O número total de pessoas com mais de 80 anos em 1950 era de 14 milhões – um século depois, em 2050, serão 396 milhões.  Tudo isso representa uma revolução: uma transformação que está mudando e ira mudar irreversivelmente a ordem social. As implicações já estão sendo sentidas em todos os aspectos da sociedade: a forma como trabalhamos, buscamos informações, organizamos nossas vidas, o impacto na saúde pública, no cuidado social…a vida deixando de ser uma corrida de 100 metros para virar uma maratona. E só chegamos bem ao final de uma maratona, se nos prepararmos bem para ela.
 
O Brasil estará preparado para ser daqui três décadas um país tão envelhecido quanto o Japão? Quais os impactos do envelhecimento populacional em um país com os problemas sociais como o Brasil?
 
Os desafios são grandes. Os países desenvolvidos primeiro enriqueceram para depois envelhecerem – nós estamos envelhecendo antes de termos vencido as mazelas do subdesenvolvimento. O envelhecimento populacional estará competindo com outras demandas que os países mais ricos já tinham ultrapassado quando começaram a envelhecer mais gradualmente que nós: educação de qualidade para todos, problemas de infraestrutura, geração de empregos dignos, doenças infecciosas com grande peso entre as causas de mortalidade….etc. Para se ter uma ideia dos desafios, a proporção de idosos hoje no Canadá é o dobro da proporção deles em nossa população.
 
Em 2050, tanto o Canadá quanto o Brasil terão 30% de idosos em suas populações. Eles estão preocupados – nós ainda engatinhando nas políticas públicas necessárias para assegurar que a grande conquista do século XX (mais anos de vida) não se transforme em um gigantesco problema. Dar mais vida aos anos não será fácil, pois nossa sociedade – inclusive os políticos – ainda não está encarando a seriedade que o envelhecimento demanda.
 
O Japão é um exemplo de nação que investe em políticas públicas para promover um envelhecimento digno. O que a iniciativa pública e privada no Brasil têm feito com foco na terceira idade? Pode citar algum projeto?
 
 Os exemplos são fragmentados, pouco coordenados, emergem aqui e ali de forma um tanto improvisada, com frequência sem sustentabilidade. Ainda que tenhamos um excelente esqueleto conceitual – o Estatuto dos Idosos – pouco deste marco político está sendo implementado. As conquistas mais importantes estão relacionadas à Saúde (o fato de que desde a Constituição de 1988 a saúde ser um DIREITO de todos, inclusive os idosos) foi transformadora: as pessoas mais carentes e excluídas da sociedade hoje sentem-se cidadãos, têm direito à saúde não porque têm necessidade, mas sim porque têm direito à ela. Ainda falta muito para que os serviços sejam de qualidade para a imensa maioria da população – mas as pessoas hoje têm consciência de serem cidadãs no tocante à saúde. A outra conquista é a pensão não contributiva. Não há, hoje, no Brasil, idosos sem uma renda mínima – isso é transformador, mesmo que a renda seja baixa. Na verdade, deixamos de ter idosos miseráveis – há vinte anos eles eram maioria.
 
O setor privado tem um papel protagonista no que concerne ao envelhecimento – desde que abrace o conceito do envelhecimento ativo: ajudar as pessoas a envelhecerem com qualidade de vida – ou seja, ajudando os indivíduos a otimizarem as oportunidade de saúde, educação continuada, participação e proteção/segurança de forma a envelhecerem dignamente. Ha exemplos entre nós de envergadura. Ressalto as atividades do Grupo Bradesco – e não somente por ser dele consultor para ações e projetos com esta temática. Suas iniciativas visam incentivar à conquista da longevidade, com saúde, qualidade de vida e bem-estar. O programa Porteiro Amigo do Idoso é uma das ações promovidas. A iniciativa, inteiramente gratuita, visa a capacitar o porteiro – apontado como “o melhor amigo do idoso” em pesquisa realizada pela OMS em 2006 quando eu ainda dirigia o Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização – a atuar de forma preventiva na resolução de problemas do cotidiano, contribuindo para a segurança, autonomia, mobilidade e independência da população longeva. O Fórum da Longevidade e os Prêmios Bradesco da Longevidade, também sob minha consultoria, são outros exemplos. O evento reúne especialistas e convidados, nacionais e internacionais, para debater os aspectos que envolvem o tema longevidade e a premiação reconhece trabalhos jornalísticos, histórias de vida e pesquisas acadêmicas, tendo como objetivo despertar a sociedade brasileira para a importância do conceito, valorizando o envelhecimento saudável, a qualidade de vida e a preparação dos mais jovens para um futuro melhor.  
 
Qual termo você considera mais correto: “terceira idade”, “melhor idade” ou outro?
 
Basta de eufemismos e paternalismos, de infantilização do idoso. Não tem nada de terceira idade – muito menos de "melhoridade". Somos idosos. Pessoas idosas. E vamos exigir que nos tratem como pessoas. Anos dourados….prateados….da bela velhice são disfarces: todas as idades podem ser belas e bem vividas desde que nossas necessidades básicas estejam sendo atendidas e para grande parcelas dos idosos no Brasil isso ainda está longe de ser verdade.
 

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