“Este corpo não me pertence” – Uma questão de gênero não resolvida

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No depoimento abaixo, Elvira Crispim nos conta que envelheceu sem coragem de assumir sua identidade masculina e, agora aos 80 anos, sente grande frustração por não ter tido coragem de tomar essa atitude. Sua história nos oferece a oportunidade de refletirmos sobre algo essencial: o medo. O medo que como disse o poeta Drummond, 'nos dissimula e nos berça', é o sentimento que nos obriga a uma vida frustrante e limitada. Envelhecer com medo deve ser profundamente triste. Envelhecer deve ser o legado de uma vida plena e corajosa, você não acha? O que você pensa sobre isso? Opine e comente.

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"Uma das maiores tristezas do ser humano, imagino, é habitar no corpo que não é seu.

Nasci mulher, e assim todos meus documentos atestam: Elvira Maria Crispim, nascida em 1938. Casada com Clemente Crispim em 1961. Mãe de dois filhos. Socióloga, por formação. Comerciante por necessidade. Trabalho em minha loja de roupas até hoje,  todos os dias.  Clemente, infelizmente, já morreu. Fomos felizes e grandes amigos, mas nunca um casal.

Acho que ele nunca percebeu. Esta minha covardia me envergonha e me dá um enorme sentimento de culpa. Entretanto não consegui fazer diferente.

Nunca gostei das brincadeiras de meninas, mas também não tinha coragem de imiscuir-me nas brincadeiras dos meninos. Pior dos infernos, nem daqui nem de lá.

Na escola após as aulas de educação física sentia  era meu verdadeiro deleite ao ver todas as meninas nuas tomando banho. Que delicia, porém contida. Quantas fantasias! Nenhuma realizada.

O tempo, impresso diariamente no jornal que leio, foi passando. Um conflito interno quase insuportável. Mas o controlei, para minha eterna infelicidade.

Clemente era um homem bonito, generoso e muito dedicado às pessoas do seu convívio. Casei-me com ele porque esse era o roteiro original.

E por suas qualidades aliadas à minha covardia, contive-me, embora tenha me apaixonada por algumas mulheres. Quieta, no meu canto.Um sofrimento doloroso sem fim.

Contive-me também pelas crianças, meninas lindas.

E, embora não consiga tocar no assunto, espero que estejam resolvidas, pelo menos nesta questão sexual.

Agora, perto dos 80, vejo o quanto errei. Não dá para consertar. O tempo, apontado pelo jornal e atestado pelo espelho, foi-se.

Habito um corpo que não é meu.

Parabéns ao cartunista Laerte Coutinho (na foto), que teve coragem de assumir sua verdadeira identidade mesmo depois dos 60 anos!". (veja entrevista)

 

 

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