Jane Fonda: um ‘modelo’ de velhice belo, glamouroso e questionável

 Siga os passos de Jane Fonda e tenha uma velhice perfeita… Mas, será que isso funciona para todos? Para a pesquisadora Kareen Terenzzo*, a atriz americana se tornou ícone de uma falsa ideia da velhice: aquela que diz que todos podem envelhecer belos, saudáveis e felizes desde que sigam o ‘modelo’ proposto por ela.

 Ana Vargas

Se cada pessoa vive como quer, cada pessoa também poderia envelhecer como quer, certo? Mas quando sabemos que, de fato, muito poucos são os que vivem como querem, compreendemos que o caminho que leva à velhice também está cheio das ‘boas intenções’ que querem ditar até ‘como’ se deve envelhecer. Sim, porque esse ‘envelhecer’ não pode ocorrer livremente, há que se manter a beleza, a saúde, a pele fresca, o desejo por praticar esportes (e se você nunca gostou, trate de aprender a gostar), por aprender coisas novas, por conhecer novos lugares e pessoas, por empreender (mesmo que você nunca tenha tido essa vontade), enfim, parece que a velhice é algo tão ‘terrível’ que é preciso que essa etapa seja vivida da forma mais moderna, saudável, admirável e ativa  (ufa!) possível. E se você é mulher, o exemplo a ser seguido é o da linda, magra, rica, estilosa e bem-sucedida, Jane Fonda. Já se você é homem, mire-se em Mick Jagger e em sua desenvoltura de roqueiro setentão pra lá de bem sucedido, lembre-se dele correndo loucamente pelo palco e, de tempos em tempos, desfilando ao lado de mulheres sempre mais jovens que ele. Mas e para quem não quer nada disso? E para aqueles que querem envelhecer sendo o que sempre foram e bem longe de qualquer ‘orientação’ que venha a ser passada sobre isso por quem quer que seja? E para quem não quer fazer tatuagem, nem saltar de para-quedas, nem cair na balada mas também não quer tomar chazinho enquanto assiste novelas? Pois é, envelhecer é uma etapa tão complexa (como todas as outras) que qualquer padrão imposto (ainda que seja ‘hype’**) corre o risco de virar um ditame vazio e artificial que não considera a variedade dos modelos ‘de gente’ que existem. E, embora este tema seja aparentemente complicado demais, a pesquisadora Kareen Terenzzo ousou abordá-lo em sua tese de metrado que ela chamou de Comunicação, Consumo e Envelhecimento Prét-à-Porter: Jane Fonda e o ideal de envelhecimento bem-sucedido.

Em sua pesquisa, Kareen faz considerações bastante acertadas sobre este ‘modelo  de envelhecimento’ que se baseia na ideia (falsa) de que a velhice pode ser vivida como um processo de gestão que tornaria aquele que o adota como uma pessoa que envelhece do jeito ‘certo’. Resumindo ao máximo, o que Kareen aponta é que o envelhecimento para ser aceito socialmente, precisa ser vivido da forma mais bela e glamourosa possível, este seria um tipo de velhice prét-a-porter, um modelo de envelhecimento que se apresenta, segundo ela “ como se pudesse ser comprado como uma roupa e servisse a todas as mulheres”. E a representante desse ideal, aquela que tem a ‘chave’ para essa  velhice, simplesmente, perfeita, seria  Jane Fonda. Esta um ícone tão bem ‘editado’ da velhice bem sucedida, que ultrapassou a condição de somente atriz e se tornou uma empresária, quase uma gestora ou guru, do que seria viver essa etapa da vida da forma adequada possível. Acompanhe a conversa que tivemos com a Kareen.

Kareen, sua pesquisa aponta que na sociedade atual até a velhice (para ser aceita) deve estar dentro de um padrão ‘aceitável’. Quais seriam os principais aspectos deste ‘padrão’ (ou modelo)?

KT: Não diria “até a velhice”, mas diria principalmente a velhice ou as pessoas mais velhas. Como principais aspectos do padrão aceitável, no caso das mulheres mais velhas, ser bela é parecer mais jovem, ter um corpo esbelto, esculpido, e uma pele livre de manchas e rugas. No caso dos homens, o padrão passa menos pelos aspectos da aparência e leva mais em conta o reconhecimento social, o acúmulo de bens materiais ou a riqueza e o vigor físico – muito associado às conquistas amorosas e à prática de esportes. Esses aspectos são promovidos midiaticamente tanto pelas revistas, novelas e filmes, como também pela indústria da moda e beleza. Consequentemente, se manifestam também nas relações sociais.

Fale um pouco sobre o ‘idadismo’ que você mencionou na sua pesquisa, de forma bem simples.

KT: Já o idadismo, de acordo com Gisela Castro (2014), estudiosa sobre o tema do envelhecimento e que foi orientadora da minha pesquisa, é um tipo de preconceito baseado na idade e que ocasiona discriminação social contra os mais velhos. Ainda que muitas vezes não notemos, o ‘idadismo’ está presente nas nossas relações do cotidiano. Como exemplo, logo que iniciava minha pesquisa, uma famosa revista de moda publicou na sua capa a cantora Tina Turner. Em destaque, além das grifes que a cantora usava, a matéria chamava atenção sobre o fato de Turner aparentar ter metade de sua idade, sem sequer mencionar seu talento e sua trajetória de sua vida. O que importava era dizer que “apesar dos 70 e poucos anos, Turner parecia mais jovem”. Ocorre que nos acostumamos com frases como essa e, na maioria das vezes, tomamos como um elogio o que é de fato um preconceito. Porque o envelhecimento considerado bem-sucedido, é aquele que se apresenta glamouroso, com o vigor e beleza da juventude.  Outro exemplo muito comum, é quando ouvimos homens e mulheres se referirem de forma pejorativa e com desdém, e em especial às mulheres, como “ah, aquela velha”, “aquela bruxa velha”, “aquela roupa é de velha”, e por aí vai. Isso é idadismo e sexismo.

Você destaca que a atriz Jane Fonda seria a representação idealizada de um ‘modelo’ de envelhecimento bem sucedido e/ou aceitável. Porque ela representa este ideal?

KT: Antes, é importante esclarecer que a escolha de Jane Fonda como objeto de estudo da minha pesquisa, ocorreu devido a sua trajetória como empresária e não pelo fato dela ser atriz. Como eu ressalto na pesquisa, não são poucas nem tampouco raras as celebridades (incluindo as atrizes) que se apresentam como detentoras de um modelo ou estilo de vida desejado (que envolve)  como vivem, o que comem, o que vestem, os segredos da beleza e saúde Mas a trajetória de Jane Fonda como empresária dela mesma é única porque ela se apresenta como mentora e modelo de um ideário de envelhecimento. Ideário este que deve ser questionado porque não considera as diversidades existentes. Nem todos envelhecerão ou podem envelhecer do mesmo modo. Fonda representa esse ideal porque corresponde ao padrão socialmente aceito, aqueles aspectos que mencionei anteriormente – mantém seu corpo esbelto, é sexy, está sempre elegantemente vestida, mostra uma pele livre de manchas… Em resumo, é bela, ou continua bela, porque aparenta menos idade do que tem – fato esse que tanto a mídia quanto ela, ressaltam. Devemos então nos perguntar, quem pode envelhecer como Jane Fonda?!

 

Antes, é importante esclarecer que a escolha de Jane Fonda como objeto de estudo da minha pesquisa, ocorreu devido a sua trajetória como empresária e não pelo fato dela ser atriz. Como eu ressalto na pesquisa, não são poucas nem tampouco raras as celebridades (incluindo as atrizes) que se apresentam como detentoras de um modelo ou estilo de vida desejado (…) . Mas a trajetória de Jane Fonda como empresária dela mesma é única porque ela se apresenta como mentora e modelo de um ideário de envelhecimento

 

Na outra ponta deste ‘modelo’ me lembrei de uma mulher que foi muito bonita e desejada, Brigite Bardott, e que com menos de 50 anos saiu de cena para não envelhecer publicamente. Em todo caso, quando ela aparece vemos que envelheceu naturalmente como qualquer outra mulher da sua idade. Poderíamos dizer que Bardot envelheceu fora desse ‘padrão’?

KT: Boa lembrança. Mas a trajetória das duas atrizes é bem distinta. Ao contrário de Fonda, que vem da indústria de cinema hollywoodiano, foi a personagem de Barbarella que consagrou como símbolo sexual. Já Bardott foi musa do cinema francês e um dos maiores símbolos sexuais do século passado, se não o maior. Tornou-se ícone de beleza, sensualidade e “estilo” copiados ainda hoje pelo cinema e pela moda. Eu diria que no caso de Bardott, ela decidiu sair fora da cena, ela rompeu com o cinema, com o glamour da vida de diva e celebridade. Vamos lembrar que o mesmo ocorreu com Greta Garbo. Mas, podemos pensar em Katharine Hepburn, Audrey Hepburn, que embora não tenham sido tidas como símbolos sexuais, foram grandes estrelas de cinema, envelheceram com dignidade e sem se tornarem reclusas. Temos ainda como exemplo Charlotte Rampling.

Vemos que Jane Fonda (como você apontou também) é bastante requisitada quando se trata de promover produtos do chamado ‘mercado da velhice saudável’ (seja em matéria de alimentos ou seguros). Porque você acha que a associação da figura pública de Fonda a essa publicidade deve ser questionada?

KT: Mas vale notar que JF é uma das poucas atrizes e celebridades que não faz e não fez (ainda) campanhas de publicidade. Diferente das demais atrizes como Helen Mirren, Madonna, Meryl Streep, Diane Keaton, a atuação e presença de Fonda é de uma especialista – ela é empresária, mentora de um modo de envelhecer considerado bem-sucedido e se apresenta como modelo de alguém que soube envelhecer. É diferente das outras celebridades ou atrizes. Esse papel deve ser questionado por não levar em conta as diversidades existentes acerca do envelhecimento. Há que se considerar ainda que JF apresenta esse modelo de envelhecimento como se fosse possível e disponível a todos, desde que se empenhem para atingi-lo. Caberia assim ao indivíduo, e somente a ele, a responsabilidade de envelhecer bem. O que JF anuncia e vende, não exatamente com essas palavras, é “siga meu plano, o passo-a-passo, faça o seu projeto e você chegará lá”.  Sabemos que isso não é verdade.

Nossa sociedade pós-moderna parece precisar organizar o mundo (e claro, as pessoas) em ‘caixinhas’ para que sejam aceitáveis, assim tudo precisa caber em um padrão, isso acontece com todos, desde os adolescentes aos adultos e mulheres. Nesse sentido, os velhos/idosos também são vistos como inadequados se não seguem determinado ‘padrão’… Baseada em sua pesquisa, gostaria que você refletisse sobre isto (o modelo social imposto aos velhos).

KT: No caso dos idosos, os velhos considerados “bacanas” são os que fazem esportes radicais, se tatuam, vão em baladas, parecem mais jovens do que são e se comportam como jovens. E o que dizer de alguns jovens que eu conheço, pessoas com menos de 30 anos, que não fazem nada do que socialmente é um comportamento dos mais jovens?! São chamados de velhos… Por isso é importante questionarmos os modelos apresentados pela mídia. É um problema viver em uma sociedade em que todos podem parecer inadequados se não estiverem dentro de determinados padrões de consumo  – e estou falando do consumo além do consumo de bens materiais – me refiro ao consumo de modos de ser e estilos de vida.

Diferente das demais atrizes (…)  a atuação e presença de Fonda é de uma especialista – ela é empresária, mentora de um modo de envelhecer considerado bem-sucedido e se apresenta como modelo de alguém que soube envelhecer. É diferente das outras celebridades ou atrizes. Esse papel deve ser questionado por não levar em conta as diversidades existentes acerca do envelhecimento.

Em relação ao ‘modelo/padrão’: a própria palavra ‘velho’ é considerada inadequada por algumas pessoas, pois lembra decadência e finitude. Penso que se conseguíssemos entender e aceitar que a velhice é um processo perfeitamente natural na existência humana tudo seria mais fácil. Mas, na prática, sabemos que não é assim. Fale um pouco sobre isto, por favor.

KT: A palavra tem conotação negativa mesmo quando empregada no dia-a-dia ao nos referirmos a uma roupa, ou carro, ou móveis que não queremos mais por considerarmos… velhos. Mas quando nos interessa elevamos para o status de antiguidade ou vintage (risos). Não é de hoje, dos nossos tempos, que não aceitamos a velhice. Em especial no Ocidente. Trata-se da busca pela Fonte da Juventude desde os tempos mais remotos. Como a busca do Santo Graal,  O Retrato de Dorian Gray, a busca pelo idílico paraíso de O Horizonte Perdido… Com o advento da ciência, e principalmente depois das duas Grandes Guerras, a medicina evoluiu muito e temos que aceitar que por isso também vivemos mais – os antibióticos, a penicilina, a alimentação higienizada, os transplantes, as próteses, enfim, o “aperfeiçoamento” do corpo humano ocorreu de fato. Entretanto, o outro fato é que não aceitamos envelhecer ou a velhice porque não aceitamos a morte. A finitude. Não se fala disso. Só se fala em como se manter eternamente jovem ou em como continuar atingindo metas, em “performar”.  Para quem ou para quê? Seria bom se conseguíssemos nos libertar das imagens criadas pelos outros e por nós mesmos, acerca do envelhecer. Mas para isso, precisamos falar sobre o assunto com coragem, clareza e maturidade.

 

 

No caso dos idosos, os velhos considerados “bacanas” são os que fazem esportes radicais, se tatuam, vão em baladas, parecem mais jovens do que são e se comportam como jovens. E o que dizer de alguns jovens que eu conheço, pessoas com menos de 30 anos, que não fazem nada do que socialmente é um comportamento dos mais jovens?! São chamados de velhos… Por isso é importante questionarmos os modelos apresentados pela mídia.

 

Muitos idosos reclamam do tratamento infantilizado que passam a receber porque envelheceram, esta é outra maneira que a sociedade ‘encontrou’ para aceitar os velhos: infantilizá-los. Diante disso, a idosa que não quer ser a Jane Fonda nem um adulto infantilizado, se torna invisível socialmente. Parece que quando o idoso luta para manter sua personalidade e se assume como ‘velho’, assusta até os próprios familiares… Você acha que isto faz algum sentido?

KT: Esse é um ponto bastante delicado porque diz respeito também à saúde, e diria ainda, de saúde pública. Não tenho competência para discutir o assunto, mas sei que isso acontece. Mas também quero dizer, sem estender muito o assunto, é que me parece que temos infantilizado tudo a nossa volta, não? No caso dos idosos observo que ocorrem situações na fila do banco ou do supermercado, no transporte público. Uma coisa é você ser gentil e educado com alguém que, aparentemente, possa parecer mais fragilizado que você, outra é infantilizá-lo. Assim, dependendo da situação de saúde que o idoso se encontra, ele até pode precisar de cuidados como uma criança necessite – porque não é capaz de fazer sozinho –  mas não precisa ser infantilizado ou tratado como criança. Os idosos são capazes de continuar trabalhando, estudando, viajando, enfim, vivendo o curso da vida. Alguns continuam até mesmo ajudando seus filhos adultos e ajudam também seus netos. Mas nem todos têm as mesmas condições econômicas, sociais e de saúde. A invisibilidade social existe para muitos, independente de serem idosos ou não. Por isso é importante analisarmos sobre quais idosos estamos falando – dos ricos ou dos pobres, dos que vivem nos grandes centros urbanos ou na zona rural, se há que uma situação de dependência econômica ou de saúde.

 

Entretanto, o outro fato é que não aceitamos envelhecer ou a velhice porque não aceitamos a morte. A finitude. Não se fala disso. Só se fala em como se manter eternamente jovem ou em como continuar atingindo metas, em “performar”.  Para quem ou para quê? Seria bom se conseguíssemos nos libertar das imagens criadas pelos outros e por nós mesmos, acerca do envelhecer. Mas para isso, precisamos falar sobre o assunto com coragem, clareza e maturidade.

 

Você menciona na sua pesquisa o seguinte: “Não faz muito tempo era considerado deselegante, uma gafe, perguntar a idade para uma mulher. (…) Em algum momento, o que era considerado uma indiscrição, de uns anos para cá passou a ser comum mencionar a idade expressa logo após o nome e atuação profissional da pessoa, como “Jane Fonda, atriz, 77”. (…) Em uma dessas matérias, mais que a referência à idade, a glorificação saltou aos  olhos – a imagem de uma mulher esbelta, que anunciava ser avó e modelo aos 59 anos. De cabelos longos e grisalhos, produzida dentro dos padrões dos editoriais das revistas de moda – cabelos, maquiagem, indumentárias sofisticadas e sensuais, em um cenário singular – a modelo-avó expressava atitudes performáticas que simbolizam beleza e juventude”. O que está claro aqui é que quando a pessoa envelhece ‘lindamente’ não há problema em mencionar a idade, certo? Segundo o ponto de vista da mídia atual…  Minha colocação faz sentido?

KT: Considerando o que eu chamei de o “hype do envelhecimento”, sim. Para se tornar alguém que “envelheceu com sucesso” ou foi “bem-sucedido”, deve-se manter dentro dos padrões socialmente aceitos – a beleza, ou o “lindamente”_ é a associação entre beleza e juventude. Para continuar sendo bela deve-se aparentar ter menos idade. Veja, não quero fazer uma apologia aos cabelos brancos e nem mesmo julgar quem envelhece “lindamente”. Mas envelhecer bem e com qualidade de vida, é diferente de envelhecer sob o imperativo do “envelheça sem parecer velho”. Não deveria haver um “como envelhecer”; desde que tenhamos a oportunidade de envelhecer, deve ser uma livre escolha.

A invisibilidade social existe para muitos, independente de serem idosos ou não. Por isso é importante analisarmos sobre quais idosos estamos falando – dos ricos ou dos pobres, dos que vivem nos grandes centros urbanos ou na zona rural, se há que uma situação de dependência econômica ou de saúde.

Há alguns anos um documentário sobre algumas idosas de Nova York –  Advanced Style _ fez bastante sucesso. Nele as idosas são muito modernas, cheias de estilo e aparentemente felizes. Muitas pessoas elogiaram (elogiam) aquelas senhoras por viverem de modo tão ‘modernoso’ e divertido. Embora tenha achado o documentário ‘legal’, fiquei pensando que, mais uma vez,  o que se vê ali é que a velhice precisa  ser caricaturizada, envolta em certo glamour e afetação para que seja aceita. O que você pensa sobre isto?

KT: Trabalhei anos com moda, gosto da moda, e considero um importante agente de expressão e comunicação. Esse documentário me interessou bastante justamente porque, diferentemente do padrão da aparência da “beleza-jovem”, a velhice é valorizada a partir das indumentárias daquelas senhoras nominadas de fashionistas. Há que se observar o aspecto biográfico ou a trajetória de vida no contexto do documentário: a relação das senhoras com a moda ou com as roupas – duas são artistas, uma é dona de loja, outra foi executiva de uma revista de moda, por exemplo , e o fato de serem moradoras da cidade de Nova Iorque – principal centro de compras e da moda na atualidade. Em nenhuma outra cidade (se alguém souber de outra referencia como essa, escreva para mim, por favor!) temos algo semelhante às senhoras fashionistas do Advanced Style. Podemos entender a moda, nesse caso, atuando como transgressora… Mas, mais uma vez, a velhice entra em cena midiática, ganha visibilidade apoiada no glamour, em um modo considerado “bacana e divertido” de envelhecer. No Brasil, me parece que tratamos ainda de discutir a velhice a partir de exemplos de superação da vida, do “se reinventar”, do “tomar as rédeas da vida”, ou seja, do projeto de autogestão. Como exemplo, o caso do filme “Envelhescência” (2015) e da minissérie “Muitos anos de vida”. Tudo isso é muito bonito, mas se concentra em exemplos que acabam se transformando também em um novo “padrão aceitável” – idosos surfando, pulando de paraquedas, fazendo tatuagem – sem aprofundar a discussão de um assunto tão importante.

Veja, não quero fazer uma apologia aos cabelos brancos e nem mesmo julgar quem envelhece “lindamente”. Mas envelhecer bem e com qualidade de vida, é diferente de envelhecer sob o imperativo do “envelheça sem parecer velho”. Não deveria haver um “como envelhecer”; desde que tenhamos a oportunidade de envelhecer, deve ser uma livre escolha.

Na sua pesquisa você apontou que “O passo-a-passo de como manter-se ativa, elegante, com boa saúde e aparência física juvenil, não considera questões biológicas e biográficas, nem condições sociais e históricas (CASTRO, 2016b). Nesse sentido, e recorrendo mais uma vez ao campo da moda, utilizo a expressão “envelhecimento prêt-à-porter” para me referir a um ideal de envelhecimento que se apresenta como se servisse a todas as mulheres”. O que fica claro aqui é que este projeto de envelhecimento além de inalcançável para a maioria, por razões financeiras, é extremamente excludente. É preciso envelhecer de forma elegante, saudável (por dentro e por fora), é preciso estar bonita, de bom humor, querer sexo e etc. e etc. Pensando em um país como o Brasil, de economia incerta, no qual a maioria das mulheres não tem sequer o poder aquisitivo mínimo, este ‘modelo’ parece além de excludente, irreal… Faz sentido?

KT: É um modelo totalmente excludente, mas não apenas no Brasil, e faz parte do modelo econômico capitalista neoliberal em que vivemos. Além disso, não nos preparamos, como sociedade, para esse momento. Com algumas exceções, vive-se mais hoje em boa parte do mundo. Entretanto, não existe emprego ou trabalho para todos, e daí todo esse discurso de que precisamos nos reinventar e o incentivo ao empreendedorismo. Só que nem todo mundo pode ser ou quer ser empreendedor. Queremos e precisamos continuar trabalhando, mas onde e como? Vamos lembrar que boa parte das empresas quer um quadro de funcionários ou colaboradores jovens ou muito jovens. Será que não seria o caso de abrir as frentes de trabalho para integrar os jovens aos mais velhos e vice-versa? No caso das mulheres, ainda que tenhamos tido algumas conquistas, sem dúvida muito há que ser feito. É comum você encontrar homens com mais de 60 anos ocupando altos postos nas empresas, mas não mulheres. O mesmo se dá em outros segmentos – na politica, na área acadêmica, na medicina etc. Por isso precisamos falar sobre o envelhecimento, e com ênfase, sobre o envelhecimento feminino.

Sua pesquisa ressalta que existe até um sumário prescritivo, em um livro escrito por Jane Fonda,  para quem se dispuser a envelhecer da forma correta e alguns passos propostos seriam: “Preparando o palco para o resto da sua vida”; a “revisão da vida”, “o olhar para trás para ver o caminho adiante” etc. Ao final da primeira parte, “onze ingredientes para envelhecer bem” que englobam desde hábitos relacionados à saúde, como não fumar ou abusar do álcool, dormir bastante e ter uma dieta equilibrada; até atitudes pessoais como o ato de doar-se, amar e se relacionar, e refletir constantemente sobre a própria vida ou buscar o autoconhecimento”:  este modelo de perfeição humana (para além do envelhecimento) é quase inalcançável, você não acha?

KT: Depende para quem. Para Jane Fonda e Mick Jagger parece possível (risos). O sumário prescritivo do livro de Fonda é uma parte dos materiais analisados exatamente para mostrar sua atuação como empresária, especialista e mentora desse ideário de envelhecimento. Mais uma vez ressalto: a crítica não é a JF – não há nenhum problema em envelhecer como ela. A crítica é ao modelo de reprivatização, ao projeto de autogestão que ela como empresária vende e afirma estar disponível a todos, basta que as pessoas queiram e se empenhem em atingir as metas.

É um modelo totalmente excludente, mas não apenas no Brasil (…)  Além disso, não nos preparamos, como sociedade, para esse momento. Com algumas exceções, vive-se mais hoje em boa parte do mundo. Entretanto, não existe emprego ou trabalho para todos, e daí todo esse discurso de que precisamos nos reinventar e o incentivo ao empreendedorismo. Só que nem todo mundo pode ser ou quer ser empreendedor. Queremos e precisamos continuar trabalhando, mas onde e como?

 

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Se você quiser aprofundar alguma questão que não mencionei, fique à vontade.

KT: Gostaria de complementar dizendo que não olhamos para o envelhecimento até nos darmos conta de que estamos envelhecendo. Quando Betty Friedan escreveu a “Fonte da Juventude” (The fountain of age, 1993), ela mesma, aos 50 anos, não tinha se dado conta, segundo afirma, de que estava envelhecendo. O mesmo se deu com Simone de Beauvoir e com Susan Sontag. Sem pretensão de comparação com essas importantes estudiosas, o mesmo poderia dizer de mim, também agora aos 50 anos. Ao estudar as revistas femininas no auge dos movimentos sociais nos anos 1960, Friedan observou que não havia espaço para as mulheres mais velhas. A autora ficaria surpresa em saber que pouco mudou desde sua constatação até os dias de hoje. Em nosso grupo de pesquisa, o GRUSCCO (Grupo CNPq de Pesquisa em Subjetividade, Comunicação e Consumo), que tem um caráter de estudo acadêmico, nós também nos perguntamos: ondes estão estas imagens? E quando ocorrem, sob que bases elas são constituídas?

Se andarmos nas ruas e olharmos para as pessoas, para os homens e mulheres idosos, conversarmos com eles, iremos enxergar que as pessoas são como são – e estão envelhecendo de modos distintos, ao curso da vida. Quantas mulheres de meia idade ou idosas  você conhece que acordam ou se apresentam como Jane Fonda?! Aí está a perversidade do considerado envelhecimento bem-sucedido e a crítica que faço na minha pesquisa. Como bem pondera Gisela Castro, esse passo-a-passo de como manter-se ativa, elegante, com boa saúde e aparência física juvenil, não considera questões biológicas e biográficas, nem condições sociais e históricas.  Gostaria de concluir a partir de uma perspectiva otimista. Ainda que estejam embaladas em um ideário de envelhecimento, quero acreditar que narrativas midiáticas como as que temos visto, e mesmo as literaturas de autoajuda sobre o envelhecimento, possam de algum modo surtir um efeito positivo e acender uma centelha de desassossego em cada indivíduo impactado em relação ao duplo preconceito do idadismo e do sexismo no modo como são tratados os temas do feminino. Precisamos falar sobre menopausa, precisamos falar sobre como as mulheres se tornam invisíveis ao chegarem na meia-idade e sobre envelhecimento. Coragem!

Se andarmos nas ruas e olharmos para as pessoas, para os homens e mulheres idosos, conversarmos com eles, iremos enxergar que as pessoas são como são – e estão envelhecendo de modos distintos, ao curso da vida. Quantas mulheres de meia idade ou idosas  você conhece que acordam ou se apresentam como Jane Fonda?! Aí está a perversidade do considerado envelhecimento bem-sucedido e a crítica que faço na minha pesquisa.

 

*Sobre a Kareen Terenzzo (foto acima): Foi executiva de comunicação e marketing durante anos. Um dia, entendeu que queria mais. Abriu mão de uma “cadeira de escritório pra chamar de sua”. Pintou a casa, mas descobriu que queria mesmo era derrubar paredes e seguiu rumo a um ano sabático. Quando voltou, ingressou no Mestrado com o objetivo de atuar na área acadêmica como pesquisadora e professora.  É graduada em Ciências Sociais pela PUC-SP, Pós-Graduada em Administração Mercadológica, pela FAAP-SP, e Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pelo PPGCOM da ESPM. Pesquisadora sobre as questões do Envelhecimento e Estudos Feministas. Idealizadora da cursaria, professora de cursos e workshops de extensão e especialização. Integrante do GRUSCCO – Grupo CNPq de Pesquisa em Subjetividade, Comunicação e Consumo.

**Se você quiser entender mais a fundo o que é ‘hype’ dê uma olhada neste blog

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