Livro aborda tema inédito sobre homossexualismo na terceira idade

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“As pessoas não podem ser tratadas como ‘mortas’ só porque ficaram velhas. Sejam as pessoas héteros ou gays”, diz autor do livro ‘Ao sair do armário, entrei na velhice’

 

Redação Plena

 

Casado há mais de 20 anos com o argentino Joel, 70 anos, Paulo também está entrando na velhice. Ele não concorda com a atual paquera entre homens. “Antigamente, existia entre nós um clima de sedução muito excitante. Flertes e olhares discretos eram o suficiente para que se percebesse a intenção. Para se chegar às vias de fato era preciso muita perspicácia, coragem e conversa. Entre risadas e trocas de olhares com o parceiro, tudo era difícil mas acontecia. O problema era encontrar um lugar para fazer sexo”.
 
 Já a história de Júlio, 68 anos, é permeada de sentimentos de repressão, culpa e vergonha. Casado por 20 anos com uma mulher, ele mantinha relações com homens às escondidas. Como resultado, a clandestinidade lhe gerou dificuldades em manter relações amorosas satisfatórias livres e sem preconceito, seja com homens ou com mulheres.
 
As histórias contadas acima fazem parte dos quinze relatos contidos no livro “Ao sair do armário, entrei na velhice… homossexualidade masculina e o curso da vida”. Escrito pelo ativista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Murilo Peixoto da Mota, e publicado pela Móbile Editorial, com apoio do programa de Auxílio à Editoração (APQ 3), o livro de 232 páginas é resultado de sua tese de doutorado na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ). 
 
A expressão “sair do armário” não entrou no título por acaso. “Quem está no armário fica mais vulnerável, pois a proteção pelo silêncio é ambígua, encobre a injúria e o desrespeito. Quanto mais assumimos o que somos, obrigamos o entorno social a tolerar o direito que todos temos diante da diferença. Há muito preconceito. Todo homossexual, assumido ou não, encara o duplo dilema de viver em dois mundos para não enfrentar a violência e a difamação. Ainda no século XXI, muitos gays são expulsos de casa, há muitos casos de suicídio de jovens ainda pouco relatados em pesquisas”, destaca o pesquisador.
 
Para ele, a aceitação da condição homossexual pela sociedade é essencial para a felicidade. “O que se quer é o direito à diferença e o reconhecimento de que todos somos iguais perante a lei. A cidadania é para todos em nome da diversidade sexual. Mas é importante que se assuma o que se é. Vivemos em uma sociedade heteronormativa, ou seja, com normas feitas para atender somente os heterossexuais, e preconceituosa com a velhice. Nesse contexto, a cidadania é sempre uma conquista”, explica. 
 
 “No livro, há relatos de homens que assumiram sua opção sexual após os sessenta anos, ou seja, eram jovens durante os anos 1970, quando se vivia o auge da ditadura militar. Na época, os direitos civis ainda eram bastante reduzidos, reuniões com mais de duas pessoas eram consideradas ameaça e esse assunto ainda não estava na pauta das discussões políticas”, recorda. “Ao mesmo tempo, vale lembrar que entrevistei pessoas e casais da geração do ‘desbunde’, do movimento hippie. Alguns posteriormente contraíram Aids e muitos deles morreram vitimados pela doença”, acrescenta. 
 
O professor da UFRJ também chama a atenção para duas abordagens debatidas em seu estudo: o preconceito entre os próprios homossexuais, e a expressão “terceira idade” para designar as pessoas com mais de sessenta anos. No caso da velhice, os próprios homossexuais discriminam seus pares que chegam a essa idade, logo tachados de “bichas velhas”. "Isso acontece porque vivemos em uma sociedade que cultua a juventude, o corpo e o hedonismo, o velho é encarado como feio, não sexualmente atraente." E a expressão terceira idade muitas vezes esconde o fato de os homossexuais serem considerados cidadãos de segunda categoria. “A velhice acarreta uma série de problemas de ordem cultural, assistencial e social de uma forma geral. Mas no caso dos gays, há um duplo preconceito”, diz. 
 
Ele afirma que, apesar de culturalmente a velhice ser sinônimo de obsolescência, com os avanços da medicina e o aumento da expectativa de vida da sociedade como um todo, cada vez mais se vive bem aos sessenta, setenta e mesmo oitenta anos. “Espero que possamos realmente contribuir para começar o debate na academia sobre o envelhecimento e a homossexualidade. As pessoas não podem ser tratadas como ‘mortas’ só porque ficaram velhas. Por isso mesmo, a idade não deve significar necessariamente inutilidade nem incapacidade. Sejam as pessoas héteros ou gays”, conclui.
 
Fonte: FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
 

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