Mais uma conta que só cresce no Brasil: idosos moradores de rua

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A realidade da Janete e de milhares de idosos em situação de vulnerabilidade social desafia as políticas e as práticas públicas e privadas, e o problema tende a crescer nos próximos anos
Por Wanderley Parizotto, economista e um dos fundadores do Portal Plena
Na cidade de São Paulo há 15 mil moradores de rua. Segundo as estatísticas, a grande maioria tem entre 24 a 41 anos. Porém, vejo cada vez mais pessoas com mais de 60 anos andarilhando por aí.
Dia desses conheci a Janete. Baiana, uma baiana que desconhece a própria idade. Sequer sei se o seu nome é mesmo Janete. Faminta, olhar perdido e sem esperança alguma. Ela não sabe quantos filhos tem, sabe que tem. Na mão esquerda,  uma aliança. Contudo não se lembra do nome do marido.
Baiana sei que ela é, pois falou com muita propriedade de Salvador.
A moradora de rua, que não esboça qualquer esperança em relação ao futuro e exala um forte cheiro de álcool a cada palavra dita, pode ser a ponta de um iceberg.
A Janete está na rua por falta de renda. Poucos vão para as ruas por que querem. A maioria vai por falta de opção.
Em muito pouco tempo veremos muitos velhos morando na rua, em situação de vulnerabilidade social. O país envelhece antes mesmo de resolver suas questões sociais. O Brasil envelheceu antes de enriquecer, e essa conta será pesada.
Temos uma discussão importante sobre a idade mínima para aposentadoria. Porém esta temática não resolve a questão do envelhecimento no Brasil. Temos que discutir holisticamente o assunto.
Envelhecer deveria ser sinônimo de dignidade, pelo menos.
Envelhecer como a Janete é o resultado de uma sociedade egoísta, sem propósitos.
Envelhecer deveria significar trabalho, amor, casa e histórias.

“Em muito pouco tempo veremos muitos velhos morando na rua, em situação de vulnerabilidade social. O país envelhece antes mesmo de resolver suas questões sociais”.

A realidade da Janete e de milhares de moradores de rua idosos desafia as políticas e as práticas de atenção social e de saúde. Eles estão expostos à violência, criminalidade, alcoolismo, consumo de drogas, morbidade, além de acesso precário a serviços sociais e de saúde.
As iniciativas destinadas a estes moradores de rua me parecem incipientes, em sua maioria. Ações intersetoriais entre a assistência social e a assistência em saúde se fazem necessárias para suprir as necessidades desse segmento, incluindo o engajamento em atividades produtivas, o resgate das relações familiares, o tratamento de saúde física e mental, a construção de projetos de vida e a aquisição de novos papeis sociais.

“Ações intersetoriais entre a assistência social e a assistência em saúde se fazem necessárias para suprir as necessidades desse segmento, incluindo o engajamento em atividades produtivas(…)”

Precisamos identificar quais processos transformaram este segmento social em um problema e lutar para que o idoso tenha garantido o seu direito de uma vida digna, de poder produzir, de gerar renda, de ter uma vida plena.
Boa sorte, Janete!

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