Medo e culpa impedem famílias de optarem por cuidados paliativos

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“A família muitas vezes estende a vida do paciente por pressão social, por medo de ouvir julgamentos errôneos do tipo ‘nossa, você parou de alimentar sua mãe?’. Precisamos quebrar esses tabus e entender que o mais importante é manter a dignidade da pessoa”, diz Dra. Dalva Yukie Matsumoto, diretora do Instituto Paliar

 

por Mariana Parizotto

 
 
Na semana passada, publicamos uma matéria sobre cuidados paliativos. Um dos nossos leitores afirmou que o texto fazia apologia à eutanásia. Para esclarecer qualquer dúvida sobre o tema, vamos abordar abaixo esta polêmica associação que muitas pessoas fazem.
 
Por definição, os Cuidados Paliativos consistem numa modalidade de assistência que cuida de doentes crônicos, cuja enfermidade está em progressão e ameaça a continuidade da vida. O especialista em Cuidados Paliativos trata do doente e não mais de sua doença. Trata como? “Olhando suas necessidades e sintomas não só do ponto de vista físico, mas também do ponto de vista emocional, social e espiritual. Estende, ainda, o olhar sobre a família e o cuidador durante o tratamento e presta-lhes assistência depois da morte, no período de luto”, explica a Dra. Dalva Yukie Matsumoto, especialista em cuidados paliativos e diretora do Instituto Paliar.
 
Embora a maior parte da demanda por cuidados paliativos ainda seja por pacientes com câncer – afinal, foi na área oncológica que esta modalidade surgiu – à medida que a população envelhece, doenças neurológicas como Alzheimer e outras demências sem cura vão ficando mais frequentes, o que aumenta a necessidade por cuidados paliativos, “por isso é fundamental disseminar, popularizar e quebrar os tabus que envolvem os Cuidados Paliativos”, ressalta a especialista.
 
Dalva Yukie toca em ponto delicado deste tema: a culpa dos familiares. “O mundo é movido pela culpa e a família muitas vezes estende a vida do paciente por pressão social, por medo de ouvir julgamentos do tipo ‘nossa, você parou de alimentar sua mãe?’ ou ‘você desistiu do seu pai?’. A vida ligada a uma máquina dá a sensação de que é possível impedir a morte, mas e onde fica a dignidade do paciente?”, questiona.
 
A médica dá como exemplo os pacientes com Alzheimer, “não comer é o primeiro passo para o processo de morte e isso precisa ser conversado com a família. A partir deste momento, a prioridade deve ser a dignidade e não sofrimento daquele paciente. Tecnologia não pode substituir tudo, precisamos falar sobre a finitude da vida”.
 

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