Melhor idade para quem? Ou uma crônica sobre o dia do idoso

 Hoje se comemora o dia do idoso e como seria bom se a gente fosse capaz de encará-los de forma mais verdadeira e simples, mas, será que conseguimos?

Ana Claudia Vargas

Para começar: todos os idosos merecem todo o respeito, apreço e afeto hoje e sempre. Todos eles: os bons, os amargos, os sérios, aqueles que se esforçam para agradar por medo da solidão e aqueles que envelhecem sendo do jeito que sempre foram e não estão nem aí para a publicidade que teima em dizer que eles são bonzinhos só porque ficaram ‘velhinhos’.

Observe os velhos (ou idosos, como queira) que você conhece e tente se lembrar de como eram há 20 ou 30 anos: eles mudaram ou somente foram refinando suas virtudes ou defeitos?

Eles eram e sempre foram pessoas, seres humanos como nós, como eu e você, que estamos aí vivendo e tendo experiências a todo momento, certo? E nós vamos envelhecer (se a vida permitir) sendo do jeito que somos agora porque a vida real é simplesmente… real. Não tem efeitos especiais e nem photoshop que dê jeito.

Pensando assim tudo parece tão puro e simples e exato, mas a gente sabe que ficar velho, encarar a decadência física e ver aqueles de quem se gostava indo embora, não é fácil. Meu pai tem 95 anos e sua maior tristeza é esta: todos os seus amigos já se foram e todas as histórias que ele gostava de ouvir e de contar ficaram no passado.

Hoje, com mais de 40 anos, eu que nasci no final dos anos 1960, fui adolescente nos oitenta e por aí afora, fico pensando em que tipo de velha serei: como seremos nós, os seres humanos que cresceram no meio da revolução sexual e do movimento hippie; nós que gostamos de rock’n roll (ou de MPB ou de samba ou de comida japonesa) e tivemos nossa vida marcada por mudanças sociais profundas e radicais.

Pois é, daqui a 30 anos nós os quase velhos, falaremos do que gostamos hoje para gente jovem que vai achar que somos gagás ou chatos… Pessoas que vão achar que o que vivemos não lhes interessa e por fim, ficaremos invisíveis ou virão com rótulos para cima de nós para que não os incomodemos com nossas histórias de velhos…

E nós vamos envelhecer (se a vida permitir) sendo do jeito que somos agora porque a vida real é simplesmente… real. Não tem efeitos especiais e nem photoshop que dê jeito.

 Pois os velhos de hoje viveram na pele coisas que há 30 ou 40 anos, nós (que éramos mais jovens) vivemos em parte, porque estávamos ‘ocupados’ com outros assuntos mais ‘sérios’ (como saber tudo sobre bandas de rock, por exemplo).

Mas, se a gente fosse capaz de se colocar no lugar dos outros, quaisquer ‘outros’, o mundo não seria assim, marcado por conflitos, mas ‘falar’ disso parece quase uma utopia.

Somos o que somos. Somos o que vivemos na época que nos é dada viver e o tempo vai criando lacunas entre as gerações, mas podemos atravessá-las com um pouquinho de boa vontade…

E eu escrevi tudo isso hoje, no dia do idoso, para aproveitar a data e sugerir humildemente que se queremos celebrar os idosos, o que nós um pouco mais jovens poderíamos fazer é tentar simplesmente vê-los com um olhar de igualdade e respeito. Eles merecem respeito por tudo que vivenciaram, ainda que muitos tenham vivido suas vidas de forma alienada, indiferente e etc.

Somos o que somos. Somos o que vivemos na época que nos é dada viver e o tempo vai criando lacunas entre as gerações, mas podemos atravessá-las com um pouquinho de boa vontade…

 

Daqui a pouco seremos velhos, se vida nos deixar aqui por mais tempo, e certamente seremos mal compreendidos por quem hoje tem 10 anos de idade ou 20 ou 30 anos.

 

 

Quando você for velho vai querer ficar apartado de tudo que gosta? Esta imagem com velhos, criança e cachorro poderia servir pra  gente entender que a velhice é uma fase que deve ser vivida livremente  como qualquer outra…

Ah, e uma ‘coisa’ que também deveríamos fazer neste dia do idoso, com urgência, é parar com essa mania chata e boba de usar termos como ‘melhor idade’ quando nos referirmos à velhice. Como isso soa falso e raso! Melhor idade para quem? Dizer que a velhice é a melhor idade é como dizer que a infância de toda criança é feliz ou que toda mulher ‘precisa’ ter filhos e por aí afora.

É um ‘festival’ de bobagens que limita e despreza toda a riqueza e a diversidade que a existência oferece.

Se a gente fosse capaz de enxergar as pessoas para além dos rótulos e clichês que colocamos sobre elas veríamos o quanto tudo _ pessoas e situações _ fica mais interessante, saboroso, colorido e vivo quando não nos deixamos seduzir por rótulos que, na tentativa de ‘facilitar’ o entendimento, só contribuem para deixar tudo sem vida e sem graça.

 

Ah, e uma ‘coisa’ que também deveríamos fazer neste dia do idoso, com urgência, é parar com essa mania chata e boba de usar termos como ‘melhor idade’ quando nos referirmos à velhice. Como isso soa falso e raso! Melhor idade para quem? Dizer que a velhice é a melhor idade é como dizer que a infância de toda criança é feliz ou que toda mulher ‘precisa’ ter filhos e por aí afora.

Então, que no dia do idoso ou do velho, a gente saiba enxergar neles o caminho que já percorreram e deixemos que eles sejam o que quiserem. E tachar esta fase da vida de ‘melhor idade’ é mostrar pelos mais velhos um sentimento de pena e desprezo; e eles não merecem e muito menos precisam disso.

 

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