“Minha mulher poderia ter evitado a demência e isto me entristece”: veja a história deste cuidador de 85 anos

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"Às vezes tenho ódio da Irene, pois acho que se continuasse ativa por mais tempo, hoje estaria melhor". Na seção 'Vamos Discutir' de hoje temos o depoimento do senhor Waldemar que com sua reflexão quase ácida nos obriga a refletir sobre as escolhas, nem sempre acertadas, que fazemos e que afetam diretamente aqueles que amamos 

 

Redação Plena

 

 

Na seção 'Vamos Discutir' de hoje temos o depoimento do senhor Waldemar que com sua reflexão quase ácida nos obriga a refletir sobre as escolhas, nem sempre acertadas, que fazemos e que afetam diretamente aqueles que amamos. Convidamos você a ler e a debater conosco sobre o tema tratado: o Alzheimer. A pergunta essencial é: até que ponto uma escolha pode, inconscientemente, levar alguém para caminhos que acabarão por prejudicá-la (e aos seus) ? O tema é complexo, mas o que queremos aqui é tão somente, provocar reflexões e quem sabe, a partir daí, encontrar algumas respostas. Aceite nosso convite e participe comentando ou enviando sua história. 

Meu nome é Waldemar e sou casado com Irene há 54 anos. Temos três filhos e construímos uma vida próspera. As crianças estão bem. Eu e Irene moramos em uma boa casa e não temos problemas materiais. Cinco lindos netos e tudo que muita gente não tem na velhice, porém nos falta uma coisa: sanidade. E isto transformou nossa última etapa num verdadeiro inferno.

Tenho 85 anos e Irene 84.

Sempre trabalhamos ativamente. Porém Irene quis, apesar dos meus mais veementes protestos, aposentar-se e parar definitivamente de trabalhar aos 54. Dizia-se cansada, exausta. Queria paz e tranquilidade. 

À época morri de medo. Um pressentimento de que a aposentadoria de Irene transformar-se-ia na despedida da vida não me largava.

Mas, apesar da minha total discordância, Irene parou.

Os primeiros meses foram de total relax. Irene acordava tarde, lia um pouco, via TV. Dormia novamente, via TV e assim a rotina se configurou.

Eu olhava aquilo e não entendia como alguém podia viver assim e ser feliz.

Para confirmar meu temor, logo os primeiros sinais de depressão apareceram.

E, por mais que eu falasse, Irene empoderara-se da maldita aposentadoria e defendia-se atrás do argumento de que tinha o direito legal de parar de trabalhar após o cumprimento regulamentar do período trabalhado.

Um direito legítimo, é claro, porém penso que nós não temos o direito de deixar de produzir 

para nós próprios e para sociedade tão cedo. A não ser em casos de doenças ou algo parecido.

Assim, com o passar do tempo as leituras de Irene escassearam. O desejo sexual sumiu e o álcool apresentou-se diariamente.

Minha Irene morreu neste processo. Restou uma Irene que não reconheço. Não tem nenhuma memória recente. Não faz nada sozinha. Dizem que é Alzheimer.  Não sei. Prefiro chamar de demência.

É mais apropriado. 

Não temos cuidador. Problema meu. Não quero ver o corpo da Irene sendo cuidado por terceiros, depois de tantos anos. O corpo, pois a mente já foi.

Às vezes tenho ódio da Irene, pois acho que se continuasse ativa hoje estaria melhor. 

Ninguém está imune às demências da velhice. Mas contribuir com elas é um crime para si e para o outro.

 

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