Mistura de miopia com ignorância: há pouquíssimo espaço no mercado de trabalho para brasileiros com mais de 50 anos

Embora aleguem que não existe preconceito, pesquisa divulgada mostra que empresários brasileiros colocam vários empecilhos para não contratar pessoas mais velhas.

Wanderley Parizotto*

Durante o primeiro Fórum de Talentos Grisalhos realizado em São Paulo no dia 10 de abril, na Fundação Getúlio Vargas, o Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas da FGV, apresentou os resultados de recente pesquisa feita para entender como as empresas enxergam profissionais com mais de 50 anos de idade e quais são as políticas para esta  faixa etária**.

Foram pesquisadas cerca de 150 empresas e percebe-se que o discurso  é quase uníssono e mais ou menos este: não temos nenhuma restrição, pelo contrário, são profissionais muito comprometidos, dedicados e etc.   Porém, na prática, a realidade é antagônica ao discurso,  vejamos:

Para quem está empregado:

Nos programas de treinamento e desenvolvimento (T e D) raramente profissionais com mais de 50 anos são envolvidos.  Não há plano de carreira para este universo. Ou seja, estes profissionais ficam à margem de qualquer política de desenvolvimento profissional dentro das empresas onde trabalham.  São totalmente ignorados. Invisíveis sob a lente da capacitação e desenvolvimento. Isso ocorre na grande maioria das empresas pesquisadas. Claro que não estamos falando de executivos do topo da pirâmide, alta gerência e diretores.

Para quem está procurando emprego:

Grande parte dos pesquisados afirmou que não há nenhum preconceito em relação à idade. Só discurso, pois no dia a dia as contratações são pouquíssimas e quase sempre para vendas, telemarketing e afins.

Mesmo alegando não haver preconceito, as empresas colocam que pessoas mais velhas têm problemas com a tecnologia, são mais resistentes à mudança, não aceitam ser comandadas por mais jovens, não conseguem realizar tarefas multidisciplinares, o convênio médico-odontológico é mais caro entre outras coisas.

Se isso tudo não for preconceito, o que é então?

A maioria respondeu que entre dois candidatos com as mesmas competências, prefere contratar o mais jovem.

Esta é a realidade do mercado de trabalho no Brasil, para aqueles que passaram dos 50 anos, mesmo sendo pessoas mais experientes, comprometidas e dedicadas.

A imagem que mostra homens mais velhos provavelmente conversando sobre negócios, não foi feita no Brasil, por aqui ainda (até quando?) impera o preconceito quando de trata de contratar pessoas acima dos 50 anos. (Imagem: Pixabay).

 

Mesmo alegando não haver preconceito, as empresas colocam que pessoas mais velhas têm problemas com a tecnologia, são mais resistentes à mudança, não aceitam ser comandadas por mais jovens, não conseguem realizar tarefas multidisciplinares, o convênio médico-odontológico é mais caro entre outras coisas. Se isso tudo não for preconceito, o que é então?

O Brasil envelhece de forma muito rápida, mais rápida que a maioria dos países desenvolvidos.

Em duas décadas, mais de 90 milhões de brasileiros terão mais de 50 anos, hoje são mais de 50 milhões.

Estas pessoas representarão a maior parcela da população economicamente ativa e do mercado consumidor.

Agora, como irão trabalhar sem a devida qualificação? E mais, como irão consumir sem trabalho e renda?

Em 2016, este extrato da população movimentou cerca de 1,6 trilhões de reais.

32% dos brasileiros com mais de 50 anos, correm o risco de perder o emprego rapidamente (segundo pesquisa feita em 2017 pelo Instituto Locomotiva).

A certeza mais que absoluta é que essa parcela demográfica do Brasil é a única que crescerá, pois cada vez mais nascem menos brasileiros.

Precisamos começar já a pensar sobre o assunto, criar políticas nas empresas, programas de qualificação continuada, enfim, debater amplamente esta questão.

Uma coisa é certa: se as empresas, governo e  sociedade, como um todo, não se debruçarem sobre este problema, o futuro próximo estará comprometido.  A miopia e a ignorância prevalecerão, levando o país ao abismo.

*Economista, criador deste portal.

 **Assim que a FGV divulgar toda a pesquisa publicaremos  aqui  PortalPlena

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