“Não podemos ser tratados como roupa velha que não serve mais”, desabafa professora de teatro

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Leitora do Plena, Almerinda representa a nova terceira idade, que tem desejos, trabalha, viaja, namora, é ativa e quer sua experiência valorizada;  “Meu sonho era que o governo fizesse uma campanha nacional de valorização e aproveitamento do conhecimento da terceira idade. Se eu tivesse espaço, com certeza poderia contribuir mais com a sociedade”, diz ela
Por Mariana Parizotto
 
“Não somos entulho”, “O nosso governo não nos respeita”, “Um país que não valoriza seus idosos, não tem sabedoria”, “Não me enxergam”. Esses foram alguns dos comentários postados na nossa página do Facebook referente a uma matéria sobre a declaração do papa Francisco, que criticou a forma como os jovens tratam os mais velhos. O pontífice disse recentemente que idosos não são marcianos e que a velhice não é doença.
 
Entre tantas manifestações de apoio e desabafos, a reação de Almerinda Inacio, de 72 anos, nos chamou atenção: “Os jovens brasileiros tratam os idosos como roupa que não serve mais, um estorvo. O idoso no Brasil vive de teimoso”. Decidimos então entrevistá-la para entender melhor a percepção do que é viver na terceira idade em um país que ainda engatinha quando o assunto é promoção de políticas direcionadas ao envelhecimento populacional.
 
Ao contrário dos estereótipos designados aos idosos, a terceira idade brasileira é bem ativa, está nas redes sociais, participa de grupos culturais, viaja, pratica corrida e outras atividades físicas, namora, conhece gente, tem hobbies, vai a restaurantes e tem nada menos do que um potencial de consumo de R$ 7,5 bilhões por mês.
 
“Eu ainda trabalho, sou professora de teatro, estudo teologia, faço exercícios, sou conectada, tenho uma mente muito ativa. E é até difícil ser assim na minha idade em um país que não valoriza o idosos”, diz Almerinda, que mora em Sorocaba, São Paulo. Segundo ela, o Brasil deveria aprender com o Japão, onde existe até um feriado nacional para homenagear e mostrar apreço aos mais velhos. 
 
Conforme citado por Almerinda, no Japão, a terceira segunda-feira de setembro é um feriado em que avós e tios ganham presentes, depois que a família compartilha uma refeição com eles. A data mobiliza os cidadãos japoneses. Em algumas pequenas aldeias, os jovens e as crianças em idade escolar realizam danças comemorativas e proporcionam entretenimento aos idosos. “Há uma atitude de ‘não deixar nenhum idoso para trás’, por isso, mesmo os idosos que vivem sozinhos recebem atenção da comunidade onde vivem”, conta a geriatra Elaine Kemen Maretti, que integra o corpo clínico do Iredo, Instituto de Reumatologia e Doenças Osteoarticulares.
 
Parece uma realidade bem distante do Brasil, mas quanto mais falarmos, mais discutirmos e debatermos sobre o envelhecimento populacional, melhor será o entendimento e a relação entre as gerações. Um dia todos nós olharemos no espelho e perceberemos que o tempo passou. Nossas experiências e vivências serão sabedoria que pode e deve ser repassada para os mais jovens. “Meu sonho era que o governo fizesse uma campanha nacional de valorização e aproveitamento da experiência e do conhecimento da terceira idade. Se eu tivesse espaço, com certeza poderia contribuir mais com a sociedade”, diz Almerinda. E quanto aos mais jovens, o recado da professora de teatro é  simples e direto, “eu gostaria de lembrá-los que tudo que está aí, foi feito pelos idosos e deixado de presente para eles. Temos muito a falar, aconselhar e ensinar às gerações mais novas, desde que os jovens nos olhem e nos deem um pouco de atenção”.
 

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