O que uma terapeuta sexual de 100 anos pensa sobre o sexo de hoje?

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Veja as opiniões de Shirley Zussman sobre a revolução sexual, a “pegação” dos jovens, celulares e pornografia na internet
Redação Plena
 
A terapeuta sexual Shirley Zussman nasceu antes de muitas invenções e vivenciou a revolução sexual. Segundo ela, a “pegação” de hoje não é tão frenética como o sexo casual era nos anos sessenta, porque falta justamente o contexto da revolução sexual. Além disso, segundo ela, a longo prazo, o prazer sexual é apenas uma parte do que os homens e as mulheres querem um do outro.
 
Aos 100 anos, Shirley Zussman continua em atividade em Nova York. Depois dos anos 50, ela começou a aconselhar as pessoas sobre todas as coisas relacionadas ao sexo. Ela testemunhou tudo, desde a legalização da pílula anticoncepcional em 1960 (começou seu trabalho em terapia sexual pouco depois), a epidemia de AIDS em 1980 e até a ascensão do pornô  na internet no novo milênio. 
 
Shirley Zussman é história viva quando se fala da sexualidade humana. E o que ela tem a falar sobre a contemporaneidade? 
 
Ser muito ocupado prejudica a vida sexual
 
Para Shirley Zussman, o uso do tempo é muito diferente em nossa sociedade de hoje. As pessoas estão ocupadas o tempo todo. “Não era assim quando eu era adolescente. Nessa fase do nosso desenvolvimento, queremos ver tudo, queremos saber tudo, queremos fazer tudo, e há também a nossa economia que requer uma quantidade imensa de tempo e esforço … Há um limite para o quanto de energia, de desejo e de tempo você pode dar a uma pessoa quando há toda essa pressão para ganhar mais dinheiro, para ser o alto executivo, para comprar uma casa de verão”, comenta Zussman. 
 
Ela acrescenta que hoje “as pessoas querem mais e mais e mais. Desejar requer uma certa quantidade de energia”. E se esgotar é uma consequência… Para ela, o problema mais comum é a falta de vontade, falta de interesse. “Uma paciente já me disse: 'Eu amo meu marido, eu amo fazer amor com ele, mas eu chego em casa do trabalho depois de ter estado com pessoas o dia todo, e aí eu só quero descansar", diz Zussman.
 
Sexo de uma maneira mais ampla
 
A terapeuta sexual reconhece que houve mudanças na cultura como na vida sexual. Houve o desenvolvimento da pílula, em que as mulheres ficaram mais livres, deixando de se preocupar tanto em ficar grávidas. Todas as revistas e programas da TV falavam sobre sexo, as propagandas usavam o sexo para vender seus produtos. Houve, na realidade, uma imersão esmagadora sobre a ideia de obter mais prazer do sexo. Não era só sobre ter filhos.
 
Diferença ente sexo casual nos anos 60 e 'pegação' hoje em dia
 
"Eu acho que há uma grande mudança na forma como nós vemos o sexo casual. Na década de 60 não era apenas casual, era frenético. Era algo que você esperava que acontecesse com você, você queria que acontecesse, era uma espécie de perseguição louca pelo prazer sexual. Mas eu acho que com o tempo as desvantagens desse tipo de comportamento começaram a se tornar aparentes. Houve uma quebra emocional – a intimidade não estava lá da maneira que as pessoas precisam e querem. Havia uma preocupação com doenças sexuais, e depois, eventualmente, a  AIDS teve um grande impacto em acalmar aquela excitação". 
 
Para ela, o que era esperado de sexo casual – sexo frenético – era algo que não acontecia, porque, a longo prazo, “o prazer sexual é apenas uma parte do que os homens e as mulheres querem um do outro. Eles querem intimidade, querem proximidade, querem compreensão, querem diversão, e querem alguém que realmente se preocupa com eles, além de apenas ir para a cama com eles". 
 
Sobre pornografia da internet
 
"Não há nada de novo sobre pornografia. Ela esteve por aí desde os tempos pré-históricos… Eu acho que é uma coisa saudável as pessoas terem a capacidade e a liberdade de se permitirem imaginar. Eu tenho vários pacientes que se sentam na frente do computador e assistem pornografia online, e de alguma forma perdem o interesse de buscar um parceiro. Eu vejo muito isso em alguns homens solteiros que não fazem o esforço de sair para o mundo e enfrentar os problemas, enfrentar a possível rejeição – eles satisfazem suas necessidades sexuais sentando na frente do computador e se masturbando".
Sobre os males dos celulares
 
"Estou chocada com a falta de conexão entre as pessoas por causa de iPhones. Há muito menos conexão física real. Há menos do tocar, do falar, do segurar, do olhar. Pessoas obtêm prazer só de olhar uma para a outra. A partir de um sorriso, e de tocar. Precisamos tocar para nos sentirmos queridos e amados. Isso está faltando muito nesta geração. A falta de procura, a falta de tocar, a falta de sorrir. Eu não entendo. Eu não entendo como as pessoas não estão sentindo falta disso, e não parecem pensar que estão”.
 
Viver até os 100 anos
 
"Nós sofremos uma lavagem cerebral para pensar que todos nós nos tornamos viciados em televisão sentados no sofá o dia inteiro quando ficamos velhos. Você tem que ter expectativas de si mesmo! Você pode fazer amigos de muitas maneiras diferentes, mas você tem que fazer o esforço. Você não pode dizer 'oh, todos os meus amigos morreram', ou 'eles estão doentes', ou ‘eles não querem fazer o que eu quero fazer'. Você tem que fazer um esforço para encontrar essas novas pessoas. Elas não vão vir correndo para a sua porta do jeito que pode ter acontecido quando você era adolescente".
 
Escrito por  Charlotte Alter para Time em 20/08/2014. Tradução livre por Sofia Lucena.
 

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