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Por que as pessoas dedicam mais energia e amor às crianças do que aos idosos?

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O questionamento é de um estudante de psicologia de 28 anos, que fez um texto comparando essas duas fases da vida e como os cuidadores e familiares lidam com as demandas dos idosos

 

Reação Plena

 
Aos 23 anos, o estudante de psicologia Flávio Santos mostra muita maturidade e consciência ao abordar num texto autoral  – e para lá de questionador – o envelhecimento. Criado pela avó, que hoje tem demência senil, o jovem comparou infância à velhice e como as pessoas lidam com o fato de ter que cuidar de um idoso e dedicar a ele toda atenção, assim como fazemos com as crianças.
 
Vejam só:
 
A infância é a velhice
 
Não sei quantos de vocês já frequentaram a ala de geriatria de um hospital. Ela se assemelha muito à ala de pediatria. Tem pacientes e acompanhantes. O que diferencia é a idade, ou seria muito mais que isso?
 
Na pediatria podemos ver crianças enfermas, mas mesmo assim com aquela energia de criança, com aquele sorriso de criança, com aquela manha e medo de criança. 
 
Na geriatria não. O que se vê são idosos enfermos, sem sorriso, quem diga lá riso no rosto. Olhares perdidos, vozes embargadas, silêncio.
 
Na pediatria, as crianças se enturmam, quando vemos elas já estão conversando uma com a outra, brigando por causa de brinquedo, chorando, rindo umas com as outras e fazendo novos amiguinhos. Ouvindo seus pais gritarem e correrem atrás delas, para elas voltarem aos seus lugares.
 
Na geriatria não, o que observamos são idosos calados, sentados, esperando a sua vez para serem atendidos, acompanhantes sentados e calados mexendo nos seus celulares ou em silêncio, sem trocar palavras com aquele idoso que ele está ali acompanhando, porque parece chato demais ter que ficar conversando com um velhinho ou velhinha enquanto o médico não os chamam.
 
Percebo e sinto como se aqueles idosos estivessem esperando apenas a oportunidade de que um igual (outro idoso) sente ao lado dele e puxe uma conversa, para eles falarem sobre a vida e sobre tudo que já fizeram, enquanto esperam serem chamados cada um para a sua consulta. Trocar experiências, falar sobre os filhos e netos, sobre receitas que eles ainda conseguem se lembrar de como se faz, ou até mesmo trocar receitas que eles não se lembram direito quantos ovos ou qual é a medida de leite exata. 
 
Eles só querem conversar, só querem falar, só querem atenção. Só querem existir, nem que seja um pouco, para alguém, mesmo que seja um desconhecido. Só querem viver, só querem se sentirem úteis ainda, mesmo que seja apenas para uma conversa com um desconhecido qualquer.
 
É engraçado como na pediatria as preocupações dos acompanhantes são enérgicas, suntuosas, você vê de fato nos rostos daqueles cuidadores a real preocupação.
 
Na geriatria não. Os cuidadores e acompanhantes parecem estar fazendo um favor para aqueles idosos, como se a cerveja perdida, o almoço que ficou para outro dia, a soneca da tarde, ou qualquer outra coisa fosse mais importante que a saúde do seu familiar que já está em idade avançada.
 
É espantador como a velhice se assemelha a infância, não só nas alas dos hospitais, mas no comportamento de ambos os seres, os cuidados que devem ser demandados, a atenção que deve ser dedicada e tudo mais. 
 
O problema é que na infância tudo que é ensinado, a criança leva para ela na vida, na velhice não, não adianta apenas ensinar a comer, ensinar a andar, ensinar as coisas. Você precisa fazer as coisas por eles. Talvez seja por isso que as pessoas deem mais valor às crianças que os idosos, as pessoas preferem as crianças, porque a elas só basta ensinar, e deixar que elas aprendam e façam sozinhas, com os idosos não. Você precisa ser as pernas, os braços, os olhos, a boca deles, e não adianta ensinar, você precisar fazer por eles, e isso cansa, demanda tempo e paciência e é por isso que ninguém gosta e ninguém quer fazer.
 
Mas aparentemente os idosos não merecem o mesmo tratamento que as crianças, eles só merecem morrer logo, para assim evitar mais trabalho para todos, afinal eles já contribuíram, já fizeram, como diz o ditado "já deram ao mundo, o que poderiam, o que tinham e o que não tinham para dar". Mas o problema é: as pessoas esquecem que assim como foram crianças, também serão idosas, e qual é o tratamento que elas querem receber quando chegarem lá?
 
Este é o Flávio, por quem temos grande admiração!
 

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