Prostituição na maturidade: as velhas prostitutas do Jardim da Luz

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O Jardim da Luz, em São Paulo, é um dos parques mais antigos e bonitos da cidade. Ele parece um oásis em meio à degradação e ao cinza do centro velho. Por ali, mulheres de todas as idades exercem a mais antiga profissão do mundo e, entre elas, algumas com bem mais de 70 anos. Foi do encontro com uma delas (evangélica e muito simpática) que nasceu esta crônica.

Ana Vargas

Elas são mulheres envergonhadas dessas que não conseguem olhar nos olhos das outras pessoas. Elas são quase sempre tímidas, parecem enfrentar um enorme constrangimento e não se sentem à vontade ainda que estejam em um lugar  acolhedor e belíssimo como é este Jardim da Luz.

Mas é claro que elas  não estão ali para admirar nada e muito menos esperam a admiração de quem quer que seja.

Elas são mulheres sofridas como tantas outras que circulam por aqui: como estas que vendem água mineral sob um sol horrivelmente quente, como aquelas que devem vir das periferias em busca dos filhos viciados que se perderam ao usar o crack… Elas são parecidas com essas e ainda, são mulheres que tem feições interioranas e duras; não tem nenhum refinamento social e usam roupas que devem ter custado bem (mas bem) barato.

E, embora estejam aqui, numa cidade grande que transborda símbolos urbanos culturais pós-modernos sob a forma de pichações nos prédios decrépitos, nos rostos dos irmãos latinos que agora migram para o Brasil porque acham que aqui é melhor que ‘lá’ (e talvez seja mesmo) ou ainda, nas artes contemporâneas que estão espalhadas por estes jardins…

Pois é justamente por isso que elas não passam despercebidas: porque parecem antiquadas demais com suas roupas e bolsas baratas e, sobretudo, porque estão ali exercendo (dizem) a mais antiga das profissões: a prostituição.

Elas se chamam ‘marias’ ou ‘neusas’ ou ‘franciscas e basta olhar em seus rostos cansados para saber que têm mais de 60 anos de idade embora mintam de um jeito tão simplório, dizendo que tem menos,  que até fingimos acreditar e fazemos isso para não magoá-las porque elas devem ser magoadas ao menos umas 20 vezes por dia.

E, aqueles que as magoam podem ser desde os velhos sujos que dormem em abrigos e sentem prazer em subjugá-las; até os jovens também sujos que ficaram assim devido ao uso excessivo de drogas variadas. Estes também costumam gostar de machucá-las e há até aqueles que na hora de pagá-las, fazem isso com o dinheiro surrupiado de suas próprias carteiras (sim, isso acontece de fato).

Ou seja: as situações que causam mágoa por aqui são costumeiras e devem ser quase ‘normais’ (embora não sejam e não devam ser aceitas como tal).

Elas talvez mintam a idade porque acreditam que essa suave mentirinha vai torná-las mais desejáveis: veja como apesar da profissão, para alguns, ‘desavergonhada’;  elas parecem assustadoramente ingênuas e pueris. Elas sequer imaginam que atração física é uma moeda pouco usada por aqui e que elas representam somente a possibilidade de gozo rápido para  homens que também devem transbordar suas mágoas por estas alamedas recortadas pelas sombras das árvores. Num cenário como esse procurar um quarto num hotel terrivelmente degradante e cumprir o que se promete _ afinal isso seria somente um negócio se não houvessem tantas mágoas, é claro –  talvez seja, simplesmente, um alívio para as tristezas cumulativas de ambas as partes.

Mas é preciso destacar que a Maria (que poderia se chamar Marli ou Neusa) se oferece para um programa de uma forma tão romântica que nos deixa surpresos; ela pergunta aos homens que passam por aqui assim: ‘você quer fazer um amor gostoso? “. Nada mais ‘sem mágoa’ do que isso, não é mesmo?

Maria  é pernambucana, diz ter 65 anos e o preço do seu ‘amor gostoso’ está entre 15 e 30 reais. Ela diz que não faz sempre esse tipo de trabalho ‘só quando vai ao médico, ali perto, no Bom retiro’; ela também afirma ser evangélica e ter um filho evangélico que nem de muito longe imagina que a mãe vende ‘amor gostoso’ ali nas alamedas do velho jardim da velha Luz.  Marli tem os olhos esverdeados e talvez eles  se iluminem ainda mais por causa da ‘luz’ que é tanta que até nomeou  esse lugar. Aliás, ali dentro ‘tudo’ parece iluminado – desde estas velhas prostitutas, até os jovens com caras de índios latino-americanos; desde esses homens de rostos transtornados, passando por estes adolescentes com suas largas roupas urbanas e incluindo até estes compenetrados policiais que circulam com ares sérios como se achassem tudo isso _ o parque e suas prostitutas simplórias; a luz que envolve tudo – uma grandiosa bobagem.

O certo é que por aqui tudo se deixa banhar ou envolver por uma cintilância que transforma a realidade tão triste dessas velhas prostitutas em histórias de vida (até certo ponto) aceitáveis e normais.

Mas lembramos que não deveria ser normal  o fato de que estas mulheres com mais de 60 anos trabalham como prostitutas e estejam aqui oferecendo seus corpos em troca de 30 reais (sempre negociáveis).

Se a prostituição é uma atividade degradante _ e talvez exatamente por isso, deva ser encarada com o devido respeito _ para mulheres e homens de qualquer idade e que recebam qualquer remuneração; imagine então para essas senhoras que se vendem numa praça de cidade grande e são obrigadas  a disputar o interesse dos que passam com moças bem mais jovens?

Mulheres que são mães e avós, que têm filhos adultos que _ dizem elas _  ignoram as atividades maternas; que casaram e descasaram e que poderiam agora brincar com os netos ou que poderiam simplesmente ficar em casa sem fazer nada.

Mas elas, essas senhoras do jardim da luz, não querem nada disso ou talvez não tenham tido vivências anteriores que poderiam permitir que agora, tivessem outras opções em suas vidas desde sempre magoadas.

Talvez devêssemos somente lamentar o fato de que elas chegam à velhice vendendo a preço tão baixo seus corpos tão cansados e esmagados pelas tantas opressões diárias e, se não estivessem aqui,  elas talvez  fossem mulheres como as outras de suas idades, que gostam de ficar em suas casas curtindo os netos, olhando fotografias antigas ou lendo e vendo TV e etc. Talvez elas até gostassem de tricotar ou fossem como certas idosas modernas que fazem tatuagens de dragões, colocam piercings no nariz e por aí afora. Elas poderiam ser e fazer muitas coisas em suas vidas se…

Se…?

Elas poderiam escolher qualquer caminho; mas a impressão que se tem é que estão aqui no Jardim da Luz vendendo seus corpos com grande desconforto  porque isso é tudo o que sabem fazer.

Porque não nos encaram, não respondem de modo sincero, olham para os lados e agem como crianças tolas  – porque parecem fantasiar demais sobre o mundo e sobre suas vidas e assim revelam ainda mais ingenuidade; porque essa ingenuidade é tão assustadora que até nos esquecemos que são  prostitutas e já foram e são suficientemente magoadas desde que começaram a existir (talvez na infância, talvez na juventude…quem saberia dizer?).

É que se trata de uma classe de mulheres ainda hoje discriminada  – apesar dos tantos avanços, o preconceito contra certas pessoas, resiste _  ainda que saibamos que as relações sexuais da pós-modernidade também foram e são amplamente vulgarizadas agora por todas as formas execráveis de pornografia e por aplicativos que permitem que homens e mulheres se conheçam e façam ‘amor’ em questão de horas ou segundos.

O certo é que prostitutas ainda fazem parte de uma  classe social ignorada e desprezada socialmente e estas velhas prostitutas do Jardim da Luz com seus rostos de mães interioranas, conformadas, desconfortáveis, com ou sem mágoa, nos inspiram ao mesmo tempo,  grande compaixão e muita simpatia. Gostaríamos que aqueles que as procuram ao menos as tratassem bem, assim poderia haver (quem sabe?) um tipo de acordo de não violência, algo como um perdão institucionalizado, uma possibilidade de que as ‘coisas’ se encaminhassem da forma menos dolorosa possível.

Será que isso seria (é) possível?

Será?

Fica aí a pergunta.

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