Quais são as três coisas que deveríamos fazer antes de morrermos? Pensar; respirar e expressar.

Por Nan Waldman, Alive.   www.quora.com

Texto traduzido, editado e reescrito por Ana Fraiman**

Estive à cabeceira da cama de muita gente! E amei cada um deles em sua passagem. E isto é o que aprendi com eles que já se foram, pessoas a quem eu ainda amo e de quem sinto muita falta:

Tenha seus documentos em ordem e não deixe nada mal esclarecido, coisas e situações confusas, para aqueles que também o amaram. Sua ausência já será dolorosa demais. Lidar com a sua desorganização será demais para aqueles que estiverem de luto por você. Deixe por escrito tudo que você tem a legar. Não basta dizer qualquer coisa antes de morrer. Coloque tudo claramente num papel e assine.

Muitos poderão não aceitar ou não acreditar. Você não desejará que eles se engalfinhem por conta de desavenças muito antigas, porque é isso que acontece: ninguém briga por dinheiro ou por bens numa hora dessas. As pessoas brigam por ciúmes, por predileções, por dores que foram caladas e que estiveram represadas por anos e anos e que, justamente na hora da dor – ou do alívio –  emergem.

Segredos são revelados, mentiras são desmascaradas e o pano de fundo é o dinheiro. Máscaras caem e aqueles que não tiveram caráter agirão com frieza. Você pode ter querido esconder suas percepções do mau caratismo de algum ou de alguns deles, esconder até de você mesmo, talvez porque tenha sido doloroso demais admitir que um filho, pai ou irmão, até mesmo um neto, tenha sido tão cruel e insensível por prazeres mesquinhos. Inclusive com você.

Antes de morrer, tomara você tenha se perdoado por ter sido cúmplice silente de tantas violências familiares, às quais você se furtou enfrentar e, com isso, ajudou a perpetrar. Violência em família é assim: tenta-se camuflar, mas as marcas se mostram e, justamente nessa hora. Não basta pensar que o problema será deles, porque você já não estará  aqui. Despeça-se da vida, senão com amor, com decência.

E tomara, também, você tenha aprendido sobre amar: não amamos alguém porque esta pessoa é boa, atenciosa e presente. Nem porque ela nos ame, também. O amor se basta. E, mesmo que esta pessoa jamais haja demostrado qualquer sinal, um resquício de amor por você, se aproprie do amor que você sentiu por ela.

E não se esqueça de agir com bom humor! Pregue-lhe peças. Decepcione ou os presenteie carinhosamente, antes de partir. Depois de morto, você não terá mais nada a dizer ou fazer.

Isso quer dizer: deixe tudo por escrito e com cópia, nas mãos de alguns nos quais  você confia. E se não houver ninguém em quem possa confiar, contrate um advogado e encare bem a sua morte: ela poderá aliviar as suas dores.

Expresse seu amor enquanto você pode. Todos os dias das nossas vidas trazem consigo um mistério. Ninguém sabe explicar porque acordamos vivos! Uma coisa boa: aprenda libras, a linguagem dos sinais. Nunca se sabe o momento em que não poderemos nos comunicar direito, porque estaremos entubados e não poderemos falar.

Também não precisa ser tão pessimista. Faça o que tem que ser feito e esqueça. Viva como se a morte fosse alguma coisa que só acontece com os outros. Humm… faça planos de futuro. Serão uma boa distração. Pode até ser divertido. Não pense na morte. Ela não precisa ser chamada, é uma convidada manhosa que só aparece quando  quer.

Faça as pazes com o seu passado, seja lá como isso se manifeste. Você simplesmente faz o que todos fazem: tenta viver o melhor possível, enxergando sua vida de algum ângulo que lhe é muito peculiar. Não existe um jeito certo de viver.

Muita gente só tem seus valores e méritos reconhecidos quando já não mais está entre nós. Pessoas maravilhosas podem ter vivido vidas trágicas! Porém, não tente viver pela metade, para morrer menos. Chegada a sua hora, você irá com tudo!

Descanse e encontre conforto e graça naquilo que você viveu. Terá sido a sua história e de mais ninguém. Honre a sua história. Deve ter acontecido muita coisa hilária…e ridícula.

Ninguém escapa de ser patético, vez por outra. Dom Quixote, o cavaleiro andante de triste figura foi um grande herói! E soube amar sua Dulcinéia, mulher de difícil vida fácil, sem a menor autoestima, por quem se apaixonou perdidamente, elevando-a ao nível mais sublime da experiência humana: despertou nela, também, o amor.

Seja lá o que você tenha sido ou vivido ao longo de seus muitos anos, agora não há mais nada a fazer. Não dá para voltar atrás, quando muito, dá para se arrepender e, depois, se perdoar por tamanha ignorância, já que nos tornamos sábios somente quando bem mais velhos.

Pouca coisa poderá ser corrigida. Talvez uma injustiça, uma dor moral que você tenha infligido a alguém. Reconheça isso e, se a pessoa ainda estiver viva, procure deixá-la saber que você reconhece seu erro tolo. Fará bem a ela e, talvez,  a você.

Nos últimos momentos de lucidez – e agora é um bom momento para ser e agir com lucidez_ respire fundo e fique em paz.

Relaxe. Aceite. Sorria docemente. Acolha em seu coração, seja lá o que for e deixe ir. Respire e siga o seu caminho.

** Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP. Pesquisadora pelo NEF – Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.

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