Quem cuida também precisa ser cuidado: de depressão à estafa física, saúde dos cuidadores fica em segundo plano

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Faltam políticas públicas para os cuidadores informais, mas é possível amenizar a situação

 

Por Mariana Parizotto

 
 
Como manter o estado emocional saudável quando se é submetido a situações de extremo estresse todos os dias? Esse é o desafio de muitos cuidadores de familiares com Alzheimer. Cuidar de si mesmo, embora seja fundamental, acaba ficando sempre em segundo plano.
“A queixa é sempre relacionada à ‘impaciência’, ‘não conseguir ser esquecido’, ‘não aguentar ver seu ente querido indo embora aos poucos’, ‘não conseguir dividir a tarefa do cuidado por motivos diversos’. Tudo isto resulta em não ter tempo para sua própria vida”, conta a psicóloga Simone Manzaro.
 
Segundo Marília Berzins, presidente da ONG Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE), essas angústias resultam, muitas vezes, em quadros depressivos, “os cuidadores também sofrem muito por conta de ressentimentos com a família e isso os tortura psicologicamente”, relata. 
 
Simone explica que a estafa psicológica também compromete a condição física dos cuidadores, “às vezes um desânimo vira uma dor no peito, um cansaço vira uma câimbra, dor nas pernas”. Também são muito comum problemas ósteo articulares e musculares (dores nas costas, nas articulações), digestórios (gastrites, colites) e problemas respiratórios (resfriados constantes).
 
É possível observar que a maior parte das doenças citadas têm uma associação com o estado emocional comprometido, “uma vez que a depressão se instala, é esperado que o sistema imunológico apresente uma queda, e aí sim a pessoa torna-se mias vulnerável ao surgimento de outros problemas de saúde”, esclarece Marília.
 
Mas há alguma solução para isso? Como uma pessoa que tem que dedicar-se inteiramente a outra pode cuidar da própria saúde? De acordo com Simone, a falta de tempo e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde são os principais inimigos dos cuidadores, “o atendimento médico deveria ser gratuito e facilitado para este público.  Levando em conta o grande número de cuidadores existentes e por considerar a Doença de Alzheimer uma questão de saúde pública, é obrigação, ou deveria ser, do Governo garantir minimamente tanto para pacientes como para seus cuidadores um maior e melhor acesso à saúde”, critica a psicóloga.
 
A opinião de Simone é compartilhada por Marília, que aponta o preparo, a capacitação e o apoio como os pilares para o cuidador suportar com saúde a pressão de sua função, “frequentemente usamos a expressão ‘cuidando de um cuidador’ para dizer o quanto quem cuida precisa ser cuidado.  Infelizmente, não existe oferta de políticas públicas para amparar os familiares que cuidam de pessoas idosas. Não existem programas de apoio aos cuidadores informais”, comenta a especialista. Segundo ela, os cuidadores precisam de um "respiro" para  descansarem e reorganizarem suas forças para continuarem a cuidar. Uma solução para isso seria a oferta de cuidadores profissionais para fazerem períodos de folgas dos cuidadores familiares, assim como acontece no modelo espanhol de cuidados.
 
Embora faltem políticas específicas para os cuidadores no Brasil, diversas instituições e grupos se comprometem a cuidar deste público. “Posso citar, por conhecimento e causa própria, já que sou voluntária, a Associação Brasileira de Alzheimer- ABRAz, que tem sedes espalhadas por todo o país, com grupos de apoio e ajuda tanto para pacientes quanto para seus cuidadores, de forma gratuita e com trabalho muito profissional. No site da instituição, os cuidadores/familiares podem encontrar informações muito importantes para ajudá-los neste processo”, conta Simone. 
 
O importante é tentar buscar ajuda profissional, grupos de apoio, psicoeducacionais, e, principalmente, informar-se acerca da evolução da doença no sentido de preparar-se antecipadamente para o enfrentamento dos problemas que podem surgir nas diferentes fases da demência.
 

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