Sobre avós, netos e abismos – Uma crônica sobre relacionamentos familiares

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Fala-se muito em 'abismo entre as gerações' para justificar a distância que existe entre pessoas da mesma família: pais e filhos, irmãos e irmãs, avós e netos…Nessa crônica queremos provocar reflexões sobre se essa distância pode deixar de existir com alguma boa vontade, alguma atitude…Você acha que isso é possível? Leia, opine e comente! Sua opinião será muito bem vinda.

 

Ana Vargas

 

A avó veio lá no cafundó da Bahia pra se tratar em São Paulo. Alguém conseguiu para ela uma consulta gratuita na Santa Casa e então, depois de três dias em um ônibus, ela finalmente chegou à casa do filho que mora em um sobradinho agradável na Vila Mariana. A rua é incrivelmente arborizada e a avó, entre uma consulta e outra, fica à janela espiando de longe  o movimento incessante de carros que passam por ali em busca da avenida mais larga e sempre congestionada adiante. Aquela avenida comprida que liga o bairro ao centro.

A avó, dona Francisca, tem 80 anos e nunca pensou que pisaria em São Paulo um dia. Todos os filhos vieram, todos os oito filhos, e ela sempre esperava que a visitassem, resignada e achando que cidade grande era coisa do capeta. Quando os filhos contavam a ela das modernidades urbanas, ela achava tudo distante e irreal demais e voltava a pousar seus olhos mansos na vastidão daquelas terras secas que formavam a fazendinha que ela e o marido, Antônio, falecido há anos, lutaram para manter.

Foi assim que dona Francisca viu, aos poucos,  que a casa mais ou menos grande  adquiria contornos absurdamente amplos conforme os filhos iam crescendo e saindo de casa rumo à longínqua (põe longínqua nisso) São Paulo.

O êxodo dos filhos havia começado com Francisco, o mais velho, que viera para trabalhar numa metalúrgica; ao longo das décadas seguintes sua ninhada foi se dispersando e ela se vira sozinha mesmo, pra valer,  há uns 15 anos, quando a caçula, Juliana, se casou e foi para Salvador, essa a única que não quis saber de ir pra São Paulo.

Quem ficou cuidando dela foi uma sobrinha e foi essa moça, Clarice,  que praticamente a obrigou a procurar um médico ao notar o caroço no seio esquerdo. Dona Francisca nunca havia feito uma mamografia e foi em São Paulo que descobriu, entre o horror e a velha e renovada, resignação, que teria que retirar todo o seio.

É por isso que dona Francisca está assim hoje: melancólica e com os olhos vermelhos de tanto chorar. Não sabe se é de saudade da roça, se é por que está com medo do que virá pela frente ou se é por estar ali, solitariamente naquele quarto estranho enquanto ouve no andar de baixo que os netos, adolescentes, fazem uma grande algazarra diante da TV e conversam com seus amigos uns assuntos que ela, por mais que se esforce (e ela se esforça) não consegue nunca entender. E eles a ignoram, solenemente, todos os dias, desde que ela pôs seus pequenos pés nessa casa. Os netos, Arthur e Bernardo, 15 e 17 anos,  a olham como se ela fosse uma alienígena e talvez ela seja mesmo, com suas roupas de velha interiorana, seu cabelo imenso e preso em coque e seu linguajar do sertão baiano. Por isso, desde que a viram chegar, há mais ou menos um mês, não fizeram nenhum esforço para parecerem simpáticos ou sequer educados. Eles agem como se ela não estivesse ali, ficam o tempo todo vendo TV, jogando vídeo games ou perdidos diante de uma tela qualquer, do celular, do tablet, do computador… Absortos e completamente alheios à presença da avó que, aliás,  sempre perguntava por eles quando o filho do meio, Juvenal, o pai de ambos, ligava lá pra roça; ela também  fazia questão de sempre mandar doces e quitandas porque sabia que eles gostavam.

Agora aqueles meninos tão bonitinhos cresceram, são adolescentes urbanos, usam essas roupas largas e tem vergonha do pai baiano. Agora, eles, mesmo sabendo que a avó se sente deslocada, inadequada e triste, e que ela teve que retirar todo o seio esquerdo por causa de um tumor que teima em avançar, mesmo sabendo que daqui a pouco não a terão por perto… Mesmo assim com tantas e incontestáveis razões,  eles a ignoram, ali no pequeno sobrado e  preferem ficar diante de uma tela qualquer a tratar a avó com alguma simpatia, carinho não; que isso seria pedir demais. Agora, ficam os três _ até que Juvenal e a esposa Maria cheguem do trabalho, no final da tarde _ ali: a avó muda e tristonha olhando o ir e vir dos carros, e os netos  _ que teriam um mundo a descobrir na pessoa sábia daquela avó sertaneja_ que só sabem se comunicar mal por meio de sílabas que sequer formam palavras (frases, nem pensar) e parecem regredir a cada ano. Agora, ficam os três nesse sobrado da Vila Mariana e todo um mundo de possibilidades se afunda no abismo escuro da indiferença sempre que dona Francisca olha para Arthur e Bernardo tentando encontrar nos olhos deles, a vivacidade e o interesse que eles sentiam por ela quando iam passear na roça, isso há menos de dez anos. Agora tudo isso acabou porque do alto de suas adolescências magníficas (porque é assim que eles se sentem: magníficos e quase imortais) eles acham que a sabedoria da avó ou sua tristeza ou seus olhos avermelhados são coisas antiquadas e até indignas.

Haveria uma forma de transpor esse abismo?

Algum sentimento, algum interesse? Seria possível existir erigir uma ponte entre essa avó e esses netos?

A história deles é bem mais comum do que você pensa.

(Imagem: Wikicommons – Roman Köhler)

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