Vamos falar sobre a morte?

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Em entrevista ao Plena, a psicóloga Simone Manzaro nos ajuda a quebrar os tabus sobre o processo de luto na terceira idade e como os idosos lidam com a questão da finitude

 

Por Mariana Parizotto

 
Falar sobre morte é sempre um ponto delicado. Independente da religião e crenças, o processo de luto é árduo. No caso dos idosos, a perda de um cônjuge é sem dúvida um dos lutos mais difíceis. Nos homens da terceira idade, o falecimento da companheira é um dos grandes motivos que os levam à depressão, já as mulheres conseguem superar melhor essa perda. Para quebrar os tabus sobre o tema “morte” e o processo de luto, conversamos com a psicóloga Simone Manzaro, que realiza atendimento psicológico de adultos e idosos e é voluntária na Associação Brasileira de Alzheimer-ABRAz.
 
Veja a entrevista:
 
O processo de luto funciona de maneira diferente para os idosos? 
A morte possui diversas representações em cada fase da vida, o que torna esse assunto muito abrangente. Logo, o luto pode acontecer em qualquer momento da vida e não só na velhice. Porém, nossa sociedade que sempre enaltece aquilo que é jovem e saudável e os usa como modelos, coloca o idoso em uma posição de finitude, de inutilidade, e que está mais próximo da morte.  Não fomos educados para o entendimento sobre a morte como outras culturas espalhadas pelo mundo, deve ser por isso que a não aceitação é tão evidente. Porém, acredito que para os idosos o luto seja diferente devido às próprias vivências, experiências, relações e emoções acumuladas em nossa vida. A forma como lidamos com o luto é resultado da nossa construção enquanto pessoas durante toda nossa vida. 
 
A perda de um companheiro, amigo ou irmão pode levar o idoso à depressão? Quais são os sinais? Como a família deve agir nesses casos?
A perda de alguém muito próximo sempre é muito triste e difícil de lidar. Quando é um amigo ou irmão, fica o sentimento de sucessão ou até “eu serei o próximo”, como se a finitude estivesse mais perto. Mas a perda de um companheiro de toda uma vida talvez seja mais difícil de superar, são muitos anos juntos, confidências, afetos, etc; 
 
As mulheres superam melhor essa perda, pois possuem relações próximas ás outras pessoas como amigas, filhos e netos e, expressam com mais frequência sua dor. Os homens sofrem mais, pois geralmente se apoiam em suas esposas para cuidados, família e rotina. Alguns estudos apontam que os homens tem maior probabilidade de morrerem até cinco anos depois de suas esposas ou caso supere a morte, voltar a se casar.
 
Com relação à depressão, é importante pontuar que a literatura confirma que os idosos já possuem certo grau de depressão acima da população média e que pode ser considerado normal. Porém, também mostra que é mais comum uma reação depressiva nos homens, podendo adoecer.
 
Sinais como: baixa estima, isolamento, choro excessivo, ansiedade e insônia, que são sensações físicas vividas durante o luto, se forem muito prolongadas devem ser acompanhadas pela família, a fim de, não virarem uma depressão patológica ou até mesmo quadros demenciais. Ao menor sinal de confusões mentais, a família deve procurar ajuda médica.
 
Jogar ou doar os objetos da pessoa que faleceu pode ajudar neste processo? Quais outras ações podem ser feitas pelo idoso para amenizar a dor da perda?
Jogar fora ou doar os objetos até pode ajudar desde que seja no momento em que o idoso esteja confortável para isso.
 
O sofrimento do idoso deve ser acolhido e respeitado e a família deve dar tempo para esse idoso reorganizar-se emocionalmente, é importante que o luto seja vivenciado. A família e os amigos mais próximos devem ajudar o idoso a enfrentar esse momento, permitir que ele chore, que fale, que expresse seus sentimentos, pode ajudar a resgatar boas lembranças e motivá-lo a realizar outras atividades a fim de distração, a família e os amigos devem permanecer próximos.
 
Por que idosos costumam dizer tanto para seus familiares que logo vão morrer? É uma maneira de expressar o medo ou angústia?
Se o idoso começa a dizer isso depois que o cônjuge faleceu, pode ser que queira chamar atenção da família, é muito comum que o idoso queira que a morte chegue logo para ficar livre do sofrimento e para se encontrar com o ente querido que se foi etc.; quando se está de luto esse desejo de morrer aparece mais claramente do que em outras fases da vida, levando em consideração que eles já vivem com o sentimento de finitude o que não aparece em outras fases. Podemos considerar também como uma maneira de expressar outros sentimentos como medo, angústia, solidão, dentre outros.
 
 

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