EJA: muito mais que uma sigla, a certeza de que nunca é tarde para resgatar sonhos

São mais que olhos brilhando, são sonhos que passeiam pelos corredores da escola.

Lucas Ferreira*

Todas as noites é assim: sorrisos, abraços, amizades e inúmeras histórias de vida, em sua grande maioria, formadas por mulheres privadas de estudo ao longo da vida. Pessoas que aprenderam a grande lição na escola da vida, que é nunca desistir e que nunca é tarde para realizar os seus sonhos.

Como já dizia o Márcio Borges, do Clube da Esquina, imortalizado nas vozes de Milton Nascimento e Lô Borges : “sonhos não envelhecem.”

 

O professor Lucas Ferreira (à direita) com seus alunos (as). (foto arquivo pessoal)

A EJA ( Educação de Jovens e Adultos) é uma modalidade de educação presencial oferecida pelo poder público às pessoas que não tiveram a oportunidade, por circunstâncias várias, de estudarem ao longo de suas vidas.

É uma oportunidade de buscar para si mesmo o reconhecimento de suas trajetórias e um resgate de suas histórias de vida. Em Divinópolis, Minas Gerais,   é oferecida pela prefeitura, no CETEPE, a modalidade no ensino fundamental, do primeiro ano de alfabetização ao nono ano, com formato de dois segmentos: o primeiro é o ciclo básico de alfabetização e o  segundo, os anos finais.

Fazedores de sonhos

 

 

 

Os alunos em plena atividade. (foto arquivo pessoal)

Trabalhar na EJA é algo mais que gratificante, é conviver diariamente com histórias de vida, é renovar cotidianamente o vigor da juventude ao se deparar com casos, dificuldades, superações e situações das mais variadas possíveis.

O momento do recreio é uma grande confraternização diária, quase uma terapia coletiva, junto ao jantar que é servido todos os dias ao ritmo de muita prosa e
risadas.

 

Alunos reunidos em noite de poemas… (foto arquivo pessoal).

Participar da construção desses sonhos é alimentar a alma diariamente com um entusiasmo de continuar acreditando, a despeito de tantas dificuldades e limitações, que a educação é a maior ‘arma’ da sociedade e a maior possibilidade de inclusão neste mundo tão excludente. 

A percepção é visível também no olhar dos estudantes, que brilham os olhos ao falar de sua oportunidade de estudar.

 

Sala cheia e alunos motivados. (foto arquivo pessoal)

Mas o que dizem os alunos?

O EJA é uma oportunidade, a nós que não terminamos nossos estudos, devido a eventualidades na vida. Espero que mais pessoas possam ter mais oportunidades.  (Cátia Oliveira)

Oi, meu nome é Helena tenho 63 anos. Estou na EJA agradeço tanto a Deus por ter me dado coragem de voltar a estudar. Parei de estudar muito jovem com apenas 12 anos. Comecei a trabalhar, pois tinha muitos irmãos pequenos, ficamos órfãos … O tempo foi passando, me casei, tinha quatro filhos, uma vida muito difícil. Foi quando, olhando uma reportagem, fiz a matrícula comecei a estudar. No primeiro dia de aula foi tão lindo, tão importante olhando para as pessoas mais ou menos da minha idade ou mais jovens com aquela boa vontade de voltar a estudar. Fiz amizades, amo meus professores, os funcionários, os amigos de escola e me sinto muito bem. Obrigado, espero
me realizar e continuar meus estudos. Sei que não é fácil, pois ainda trabalho como diarista e. às vezes, o cansaço quase me faz desistir. Mesmo assim me arrumo e vou pra aula, pois amo estudar e fazer novas amizades. EJA é o recomeço de uma nova vida pra quem perdeu as oportunidades de estudar no tempo da juventude.

Eu, aos 73 anos de pura alegria, perseverança e muito vontade de aprender, me superar,  almejando o saber, sigo em frente. Hoje vejo a vida com outro olhar, onde muitas  possibilidades surgem através do crescimento. Com caderno, lápis e livros, sigo até a escola, já à noite, a alegria é visível, pois vou me encontrar com os colegas e amigos para recuperar o tempo perdido. (Dona Iêda)

Como vemos, EJA não é só uma sigla, é  muito mais que um nome, é um renascer de esperança, é o sonhar com o novo se realizar no aprendizado, buscando no presente, o que no passado não foi possível.

Os profissionais nos envolvem, nos despertam o desejo de aprender, persistir a continuar buscando o saber.

Posso afirmar com toda a segurança que ser professor é cativante, apesar de tudo, mas que  trabalhar com a EJA é duplamente gratificante. É um público que tem sede de cultura, de conhecimento, porque sabedoria são eles que entregam. E entregam muito bem.

*Lucas Ferreira é historiador, professor da rede pública de Divinópolis (MG) e escritor.

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Jornalista, autora de 5 livros, um deles semifinalista do Prêmio Oceanos 2020.

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