Janeiro é, simbolicamente, o mês dos recomeços. É nesse contexto que nasce o Janeiro Branco, uma campanha dedicada à saúde mental e emocional, convidando a sociedade a fazer uma pausa, refletir sobre a própria vida e cuidar do que, por muito tempo, não foi discutido: a mente.
Camila Pereira*
Sob a visão gerontológica e da enfermagem, o Janeiro Branco é mais do que uma campanha anual — é um chamado urgente, especialmente em um país que envelhece e que ainda negligencia o sofrimento psíquico em todas as fases da vida.
O que é o Janeiro Branco e por que ele importa?
Criada no Brasil em 2014, a campanha Janeiro Branco tem como objetivo conscientizar sobre a importância da saúde mental, da prevenção de transtornos emocionais e da promoção do bem-estar psicológico. O mês foi escolhido por simbolizar uma “folha em branco”, onde cada pessoa pode reescrever sua história, rever escolhas e cuidar de si.
Hoje, o movimento ultrapassou fronteiras e é reconhecido em diversos países, dialogando com ações globais da Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta os transtornos mentais como uma das principais causas de incapacidade no mundo. Estima-se que uma em cada oito pessoas viva com algum transtorno mental, e a depressão já figura entre as principais causas de afastamento do trabalho e perda de qualidade de vida.
A saúde mental sob o olhar da Gerontologia
A Gerontologia compreende o envelhecimento de forma integral — corpo, mente, relações sociais, ambiente e propósito de vida. Nesse olhar, saúde mental não se resume à ausência de doenças, mas à capacidade de lidar com perdas, mudanças, limitações, autonomia e sentido existencial ao longo do tempo.
Entre pessoas idosas, o sofrimento emocional muitas vezes é silenciado ou naturalizado. Tristeza constante, isolamento social, insônia, irritabilidade e desânimo são, equivocadamente, vistos como “coisas da idade”. Não são.
Dados técnicos mostram que:
- a depressão afeta milhões de pessoas idosas no mundo e é frequentemente subdiagnosticada;
- o isolamento social e a solidão aumentam significativamente o risco de adoecimento mental e físico;
- situações como aposentadoria abrupta, luto, perda de papéis sociais e dependência funcional impactam diretamente a saúde emocional.
- A visão gerontológica reforça que cuidar da mente é promover autonomia, pertencimento e qualidade de vida, independentemente da idade.
A Enfermagem e o cuidado que escuta
Na prática da Enfermagem, o Janeiro Branco ganha forma no cuidado diário, no olhar atento e na escuta qualificada. Enfermeiros e técnicos estão, muitas vezes, na linha de frente da identificação de sinais de sofrimento psíquico, especialmente na Atenção Primária, instituições de longa permanência, hospitais e comunidades.
A enfermagem compreende que:
- saúde mental está diretamente ligada à adesão ao tratamento;
- dor emocional não verbalizada se manifesta no corpo;
- acolher, orientar e encaminhar pode salvar vidas.
- O cuidado em saúde mental não se limita ao atendimento especializado. Ele começa no vínculo, na conversa, no respeito à história de vida e na humanização da assistência.
Por que essa pauta ainda é tão pouco divulgada?
Apesar de sua relevância, o Janeiro Branco ainda recebe menos visibilidade do que outras campanhas de saúde. O estigma, o preconceito e a falsa ideia de que falar sobre saúde mental é sinal de fraqueza ainda afastam pessoas do cuidado.
No envelhecimento, esse silêncio é ainda maior. Muitos idosos não aprenderam, ao longo da vida, a nomear emoções ou pedir ajuda.
Por isso, campanhas como o Janeiro Branco precisam ser permanentes, acessíveis e intergeracionais.
Pausar também é cuidar
O Janeiro Branco nos convida a algo simples e profundo: pausar. Pausar para ouvir a si, para ouvir o outro, para reconhecer limites e buscar apoio. Pausar não é fraqueza — é prevenção.
Sob a ótica da Gerontologia e da Enfermagem, cuidar da saúde mental é um direito humano, um pilar do envelhecimento saudável e uma responsabilidade coletiva.
Que o branco de janeiro não seja apenas simbólico, mas um espaço real de escuta, acolhimento e ação. Porque envelhecer com saúde mental é envelhecer com dignidade, vínculo e sentido — hoje, amanhã e ao longo de toda a vida.
*É estudante de Gerontologia do último ano e escreve semanalmente no PortalPlenaGente+ siga a Camila no Instagram @ca_pereira20.
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Jornalista, autora de 5 livros, um deles semifinalista do Prêmio Oceanos 2020.







